Do Real Madrid ao Brasil: os motivos que explicam a queda de Ancelotti na Copa

Erros táticos, lesões e falta de tempo explicam a pior campanha desde 1966

PorPedro BernardoTiago Teixeira MendesRio de Janeiro (RJ)
Rio de Janeiro (RJ)
21/07/2026 14:35
Atualizado há 1 hora

Supervisionados porNathalia Gomes,
Ancelotti na eliminação no Brasil da Copa do Mundo
Ancelotti na eliminação no Brasil da Copa do Mundo (Foto: Vanessa Carvalho / Brazil Photo Press / Folhapress)

A eliminação precoce da Seleção Brasileira nas oitavas de final da Copa do Mundo diante da Noruega abriu uma crise de identidade e colocou o trabalho de Carlo Ancelotti sob forte questionamento. Dono de um dos currículos mais pesados da história do futebol, com cinco títulos de Champions League, o italiano viu seu modelo de jogo ser duramente contestado após comandar a pior campanha brasileira em Copas do Mundo desde 1966.

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Carlo Ancelotti durante Brasil x Noruega pelas oitavas de final da Copa do Mundo 2026
Carlo Ancelotti durante Brasil x Noruega pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 (Foto: Odd Andersen / AFP)

Para entender a queda brasileira, é preciso olhar para o passado recente de Ancelotti no Real Madrid. As duas últimas taças europeias do treinador nesta década (2021/22 e 2023/24) foram conquistadas em campanhas marcadas por oscilações, nas quais o talento individual frequentemente apareceu como fator decisivo diante das dificuldades coletivas. No Brasil, a receita se repetiu — mas, desta vez, sem o final feliz.

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O peso das individualidades 'estrelas' e os milagres no fim

Durante a fase de grupos nos Estados Unidos, a Seleção Brasileira sobreviveu graças ao talento de seus atacantes. Vini Jr., com 4 gols, e Matheus Cunha, com 3 gols, foram responsáveis por todos os gols da equipe na primeira fase.

Vinicius Jr. comemorando o gol durante a vitória por 3 a 0 do Brasil contra a Escócia. Partida válida pela Copa do Mundo.
Vini Jr. comemorando o gol durante a vitória por 3 a 0 do Brasil contra a Escócia (Foto: Chandan Khanna / AFP)

Quando o coletivo falhou no mata-mata contra o Japão, a Amarelinha precisou de um "milagre" nos acréscimos: após Casemiro buscar o empate, Gabriel Martinelli garantiu a classificação no último lance. Esse roteiro de decisões individuais nos minutos finais se tornou uma característica das equipes de Ancelotti. Dois episódios na Champions League ilustram esse padrão: Rodrygo e Joselu foram protagonistas de viradas improváveis.

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Na Copa do Mundo de 2026, porém, as individualidades falharam diante do ferrolho norueguês, e nenhum salvador da pátria apareceu para evitar o vexame.

Matheus Cunha imita surfista em comemoração de gol contra a Escócia na Copa do Mundo
Matheus Cunha, do Brasil, imita surfista em comemoração de gol contra a Escócia na Copa do Mundo (Foto: Patricia de Melo Moreira / AFP)

O milagre de Rodrygo (2021/22)

Contra o Manchester City na semifinal da Champions League, o Real Madrid perdia o jogo de volta até os 90 minutos. Rodrygo saiu do banco, marcou aos 90 e aos 91 minutos, e Benzema garantiu a vaga de pênalti na prorrogação.

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Rodrygo comemora gol contra o Manchester City na Champions League de 2021/22
Rodrygo marcou dois gols no final da partida contra o Manchester City pela semifinal da Champions League após sair do banco (Foto: Pierre-Phillippe Marcou / AFP)

O fator Joselu (2023/24)

Contra o Bayern de Munique na semifinal, o Real Madrid estava sendo eliminado até os 88 minutos, quando o contestado atacante Joselu marcou duas vezes em três minutos para garantir a virada histórica.

Joselu comemorando virada pelo Real Madrid na Champions League
Joselu comemorando virada pelo Real Madrid na Champions League contra o Bayern de Munique (Foto: Reprodução / Real Madrid)

O abandono da identidade brasileira: 33% de posse de bola

Outro ponto que gerou forte rejeição entre os torcedores foi a postura passiva da Seleção Brasileira. Historicamente associada a um futebol ofensivo, dominante e marcado pela criatividade, a equipe terminou o jogo da eliminação contra a Noruega com apenas 33% de posse de bola, deixando o controle das ações nas mãos do adversário.

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A estratégia de abrir mão da posse e apostar em transições rápidas, porém, não é uma novidade nos trabalhos de Carlo Ancelotti. O treinador utilizou um modelo semelhante em campanhas vitoriosas pelo Real Madrid, principalmente em jogos decisivos de mata-mata, embora a escolha sempre tenha gerado debates na Europa.

O massacre tático do City (2023/24)

Um dos exemplos mais marcantes aconteceu nas quartas de final da Champions League contra o Manchester City. O Real Madrid avançou nos pênaltis após dois jogos em que aceitou ficar sem a bola: teve 38% de posse no empate por 3 a 3 no Santiago Bernabéu e apenas 33% na volta, no empate por 1 a 1 na Inglaterra.

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Mesmo diante do domínio ofensivo do City, Ancelotti manteve a estratégia de resistência defensiva e exploração dos contra-ataques, fórmula que acabou levando o clube à classificação.

O hat-trick de Benzema salvando o esquema (2021/22)

Outro episódio aconteceu nas quartas de final da Champions contra o Chelsea. O Real Madrid adotou postura mais cautelosa e terminou os dois confrontos com 43% de posse de bola. No jogo de ida, a equipe venceu por 3 a 1 com uma atuação histórica de Karim Benzema, autor de três gols.

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Na partida de volta, o Chelsea venceu por 3 a 1 no tempo regulamentar, mas o Real resistiu na prorrogação e garantiu a classificação graças a mais um gol de Benzema, após assistência de Vini Jr.

O peso do sistema de jogo

A proposta do treinador italiano sempre teve como pilar a transição rápida e a capacidade de acelerar o jogo em poucos passes. No Real Madrid de 2021/22, a dependência girava em torno do pivô de Benzema e dos arranques de Vini Jr. pela ponta esquerda. Em 2023/24, com a saída do centroavante francês, o brasileiro assumiu completamente o protagonismo do ataque rápido.

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Ao tentar transferir exatamente essa mesma dinâmica para a Seleção Brasileira, Ancelotti engessou o meio-campo e isolou suas peças criativas, deixando o time exposto quando os adversários conseguiam neutralizar as pontas.

Antes de retornar ao topo com o Real Madrid, Ancelotti havia acumulado passagens modestas e sem deixar saudades pelo Napoli (2018/19) e pelo Everton (2019 a 2021). A eliminação do Brasil em 2026 reacende o debate sobre se o modelo de Ancelotti consegue se sustentar longe de elencos estrelados, onde soluções individuais aparecem com frequência para decidir partidas.

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Por que o esquema de Ancelotti não deu certo na Seleção Brasileira?

Se a receita rendeu troféus na Europa, por que ela ruiu tão rápido na Copa do Mundo? A resposta não está em uma falha isolada, mas na soma de peças que nunca encaixaram como no Real Madrid — e no tempo que faltou para tentar encaixá-las.

No Real Madrid, esse desenho reativo funcionava porque cada função tinha um dono claro — a começar pelo setor que sustentava, por trás, a dependência das estrelas já descrita acima. Casemiro, depois Tchouameni e Camavinga, garantiam bloqueio e recomposição; Kroos e Modrić, mesmo em fim de carreira, ditavam o ritmo assim que a bola voltava ao Real. Era um time lapidado, ano após ano, para sofrer pressão e golpear na transição.

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Toni Kroos - Real Madrid
Toni Kroos em ação no Real Madrid (Foto: Oscar Del Pozo / AFP)

Na Seleção, Ancelotti tentou reproduzir o desenho sem ter as peças tecnicamente parecidas. O meio-campo chegou aos Estados Unidos com cinco nomes de origem — Casemiro, Bruno Guimarães, Fabinho, Lucas Paquetá e Danilo Santos —, e a lesão de Wesley obrigou o treinador a puxar Éderson para o meio ainda antes da estreia.

Faltou o que o Real sempre teve de sobra: um segundo volante de contenção pronto para substituir Casemiro sem perda de intensidade. Andrey Santos e Gerson, testados ao longo do ciclo, ficaram fora da lista. O resultado foi um setor sem profundidade justamente na função mais decisiva do modelo – a que recupera a bola –, agora dependente de um Casemiro de 34 anos, fisicamente mais desgastado.

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O flanco direito expõe bem essa diferença de recursos. No Real, Ancelotti sempre contou com Carvajal e opções de reposição para sustentar largura e velocidade dos dois lados. Na Seleção, a lesão de Wesley no último amistoso antes da estreia tirou a principal peça de profundidade pela direita, e Danilo não tinha mais como repor essa velocidade.

Raphinha, que deveria ocupar a ponta, foi um dos jogadores mais contestados do torneio e ainda se lesionou. Na emergência, Ancelotti escalou Rayan, garoto de 19 anos que se tornou uma das poucas certezas da equipe – elogiado pelo próprio treinador pela intensidade e pela personalidade dentro de campo. Não por acaso, foi justamente a sua saída, mais adiante na Copa, que deixou o lado direito exposto no momento mais decisivo contra a Noruega.

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O preço de uma pressão que Ancelotti não enfrentava na Europa

Em Madri, uma marca do treinador sempre foi bancar suas convicções, mesmo sob cobrança de torcida e imprensa. Na Seleção, esse comportamento se inverteu diante do fenômeno Neymar: contestado por não competir em alto nível havia anos, o camisa 10 foi convocado sob forte pressão popular e política dentro da própria CBF.

Neymar chorando após eliminação do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo
Neymar chorando após eliminação do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo (Foto: Angela Weiss / AFP)

Contra a Noruega, mesmo com o Brasil jogando melhor, o treinador colocou Neymar em campo. A consequência foi uma reação em cadeia: saíram Martinelli e Rayan — este último, até ali, uma das melhores notícias da campanha —; Endrick precisou se deslocar para a direita, posição em que rende menos; Bruno Guimarães, autor de quatro assistências no torneio, deu lugar a Éderson para compensar a fragilidade defensiva do camisa 10.

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Na prática, o time ficou com um jogador a menos em campo, e o lado direito, sem a cobertura que Rayan vinha oferecendo, ficou exposto. Foi exatamente por ali que a Noruega cresceu no jogo até Haaland decidir, entregando exatamente o tipo de solução individual que se esperava, sem sucesso, de Neymar.

Tempo: o insumo que Ancelotti nunca teve

No Real Madrid, o modelo reativo foi lapidado ao longo de anos de treinos, pré-temporadas e repetição. Na Seleção, o italiano assumiu às vésperas do Mundial, quarto técnico do ciclo, herdando um grupo que já havia passado por Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior – cada um com uma ideia diferente de jogo.

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Não por acaso, a equipe começou o ciclo pensada em um 4-2-4, migrou para o 4-3-3 pouco antes da Copa e ainda precisou se adaptar dentro do próprio torneio por causa de lesões. Enquanto o Real de Ancelotti sabia, com anos de antecedência, quando recuar e quando acelerar, a Seleção ainda buscava essas respostas durante os jogos — o que ficou evidente na queda de rendimento após as trocas do segundo tempo diante dos noruegueses.

Sem os milagres de sempre

Talvez o retrato mais cruel dessa incompatibilidade esteja nos instantes finais. O roteiro que salvou o Real tantas vezes simplesmente não se repetiu na Copa: Bruno Guimarães desperdiçou o pênalti que abriria vantagem no placar; Endrick, sozinho na cara do gol depois de receber de Vini Jr, mandou para fora. Dessa vez, não apareceu um substituto providencial para reverter o que se perdia em campo.

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Do outro lado, coube a Haaland bancar sozinho o papel de resolvedor – mas amparado por um plano coletivo que a Seleção, incapaz de sustentar a bola pelo tempo necessário, não conseguiu construir.

No fim, a eliminação diante da Noruega não foi só o fracasso de um esquema tático. Foi a prova de que o modelo reativo de Ancelotti não é uma fórmula universal: ele depende de um encaixe raro entre elenco, tempo de trabalho e uma confiança blindada de pressões externas – exatamente os três ingredientes que sobraram no Real Madrid e faltaram à Seleção Brasileira em 2026.

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