Crise de investidores muda debate sobre o futuro das SAFs no Brasil
A mudança pôde ser observada nos principais casos envolvendo SAFs no Brasil

A evolução das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) tem alterado o foco das discussões sobre o futuro dos clubes brasileiros. Se nos primeiros anos do modelo o principal critério de análise era a capacidade financeira dos investidores, a maturidade do mercado passou a destacar outro aspecto: a existência de estruturas de governança capazes de garantir a continuidade da operação mesmo diante de crises envolvendo os controladores.
O movimento acompanha a valorização do futebol nacional. De acordo com a sexta edição do estudo Valuation dos Clubes do Brasil, elaborado pela consultoria Sports Value, os 30 clubes mais valiosos do país alcançaram, em 2025, um valor de mercado combinado de R$ 47,4 bilhões. O montante representa crescimento de 15% em relação ao ano anterior e de 43% nos últimos três anos. Segundo o levantamento, a expansão está ligada ao fortalecimento das marcas, aos investimentos em infraestrutura e elencos e à consolidação das SAFs como modelo de negócios.
Com ativos cada vez mais valiosos, o mercado passou a observar não apenas quem controla os clubes, mas também como essas operações foram estruturadas para suportar mudanças de cenário.
– O amadurecimento do mercado passa justamente por essa mudança de foco. Em um primeiro momento, a discussão estava concentrada em quem comprava o clube. Agora, ela começa a migrar para como essa operação foi estruturada. Contratos, direitos, obrigações, governança e mecanismos de proteção deixam de ser aspectos jurídicos acessórios e passam a representar parte do próprio valor do ativo, porque são eles que garantem estabilidade durante períodos de transição e aumentam a segurança para futuros investidores – avalia Moises Assayag, especialista em finanças no esporte, especialmente nas áreas de reestruturação financeira e operacional.
Casos de Botafogo e Vasco ilustram mudanças nas SAFs
A mudança de percepção pode ser observada em alguns dos principais casos envolvendo SAFs no futebol brasileiro. O Botafogo, por exemplo, tornou-se um dos símbolos desse novo momento. Quando John Textor adquiriu 90% da SAF alvinegra, em março de 2022, o debate girava em torno do potencial financeiro que um investidor estrangeiro poderia proporcionar ao clube.
Três anos depois, a crise enfrentada pela Eagle Football Holdings, grupo controlador comandado por Textor, alterou completamente o foco das discussões. O processo de reestruturação financeira da empresa colocou credores no centro das negociações, ampliou o papel dos administradores responsáveis pela condução da recuperação e culminou em um acordo para que Michele Kang assumisse o controle do grupo.
O episódio evidenciou que a continuidade do projeto esportivo deixou de depender exclusivamente das decisões do investidor original. Contratos, regras societárias e mecanismos de governança passaram a exercer influência direta sobre o futuro do clube.
Situação semelhante ocorreu no Vasco. A crise da 777 Partners desencadeou uma disputa judicial envolvendo o controle da SAF, obrigando o clube a buscar alternativas para reorganizar sua estrutura societária. Ao longo do processo, o debate deixou de se concentrar apenas na permanência do investidor e passou a priorizar a preservação da operação, do patrimônio e do projeto esportivo.

Os dois casos reforçam uma mudança na forma como o mercado enxerga as SAFs. Enquanto a primeira fase do modelo foi marcada pela chegada de grupos econômicos e pelos valores investidos, a etapa atual amplia a importância da governança corporativa como fator determinante para garantir estabilidade diante de mudanças no controle acionário.
Estrutura passa a ser parte do valor do clube
Essa lógica começou a ser construída com a criação da Lei da SAF, em 2021. Além de permitir que clubes se transformassem em empresas aptas a receber investimentos privados, a legislação introduziu mecanismos voltados à reorganização financeira, à proteção de credores, à separação patrimonial e à adoção de práticas de administração inspiradas no ambiente corporativo.
Na avaliação de especialistas, esses instrumentos passaram a representar um diferencial competitivo para os clubes, especialmente em um cenário em que investidores podem enfrentar oscilações financeiras ou mudanças estratégicas.
– O amadurecimento das SAFs acontece quando o clube deixa de depender da solidez financeira de uma única pessoa e passa a contar com uma estrutura capaz de atravessar diferentes ciclos econômicos. Investidores podem mudar, grupos podem ser reestruturados e o mercado passa por oscilações, mas o clube precisa continuar operando. É justamente por isso que uma boa SAF é construída sobre governança, contratos bem desenhados, mecanismos de proteção e uma visão de longo prazo. Quando esses pilares existem, o ativo permanece atrativo para novos investidores e o projeto esportivo ganha continuidade, independentemente de quem esteja no controle naquele momento – comenta Pedro Weber, sócio-fundador da Chenus Holdings e especialista em negócios do esporte.
A sucessão de episódios envolvendo Botafogo e Vasco consolidou uma nova etapa para as SAFs no Brasil. Se, no início do modelo, o mercado direcionava sua atenção principalmente ao capital aportado pelos investidores, o debate agora passa a incorporar a capacidade das estruturas societárias de preservar o funcionamento dos clubes mesmo em momentos de instabilidade financeira de seus controladores. Isso faz com que contratos, governança e mecanismos de proteção deixem de ser apenas instrumentos administrativos e passem a integrar o próprio valor estratégico dos ativos do futebol brasileiro.
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