Gestão Esportiva na Prática: quando o medo decide
A busca pelo controle absoluto é a forma mais sofisticada de insegurança no futebol

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Existe uma presença constante nas salas de reunião do futebol brasileiro.
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Ela não aparece nas fotos oficiais, não concede entrevistas e não assina contratos. Mas influencia decisões todos os dias.
É o medo
O medo de perder. O medo do julgamento público. O medo da crítica organizada. O medo de parecer fraco. E o principal deles: o medo de não ter todas as respostas.
Ele atua em silêncio. E, quando não é reconhecido, passa a decidir.
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Técnicos sentem a pressão de encontrar o time ideal como se existisse uma formação definitiva capaz de eliminar o risco. Gestores acreditam que precisam oferecer respostas imediatas para cada oscilação, como se liderança fosse sinônimo de reação permanente.
Onde nasce a ilusão
Quanto maior a ansiedade por controle, maior a probabilidade de decisões precipitadas. Ajusta-se demais. Muda-se demais. Antecipam-se receitas. Rompem-se planejamentos. Interrompem-se processos ainda em maturação. Tudo para aliviar o desconforto momentâneo.
Daniel Kahneman demonstrou que somos mais sensíveis à perda do que ao ganho. No futebol, essa característica humana é amplificada pela exposição. A derrota é barulhenta. A construção é silenciosa.
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E o barulho costuma vencer a serenidade. O problema é que soluções mágicas quase sempre são respostas definitivas para problemas temporários. E decisões definitivas, quando tomadas sob pressão emocional, colocam em risco o futuro da instituição.

Buscar controle absoluto é compreensível. Mas é ilusório
O futebol é um sistema complexo. Lesões, arbitragem, ambiente, emoção coletiva, imprevisibilidade competitiva. Nenhuma planilha elimina isso. Nenhum discurso neutraliza isso.
Ambientes maduros não são aqueles que eliminam o medo. São os que não permitem que ele determine o rumo.
Os técnicos não precisam da escalação perfeita. Precisam de convicção. Gestores não precisam de popularidade instantânea. Precisam de coerência estratégica.
Coragem, no futebol, não é inventar em busca de aplauso. É sustentar o projeto quando o ruído externo tenta encurtar o horizonte. Perder faz parte do jogo. Desorganizar-se por causa do medo é escolha.
Escrevi há algum tempo um livro com o seguinte título: O certo é certo, mesmo dando errado. Não é uma frase de efeito. É o retrato da minha vida. É uma defesa de caráter institucional. É a convicção de que decisões bem fundamentadas não deixam de ser corretas apenas porque o placar foi adverso. É, no final das contas, uma redefinição do que é sucesso para mim.
Talvez o verdadeiro diferencial competitivo não esteja em descobrir como ganhar sempre. Esteja em decidir bem mesmo sabendo que o resultado não é garantido. Porque, no fim, o futebol expõe tudo. Até mesmo aqueles que decidem com medo.
E o certo continuará sendo certo. Mesmo quando o medo insistir em dizer o contrário.
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Felipe Ximenes escreve sua coluna no Lance! todas as quartas-feiras. Confira outras postagens do colunista:
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