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Gestão Esportiva na Prática: a ilusão do controle

A tecnologia ampliou nossa capacidade de monitorar o jogo, mas reduziu a ilusão de que podemos dominá-lo

Tecnologia nos esportes (Foto: Divulgação)
imagem cameraTecnologia nos esportes (Foto: Divulgação)
Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Dia 19/02/2026
07:00
Atualizado há 4 minutos

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Talvez uma das maiores mentiras que contamos no futebol seja a de que estamos no controle.

E essa constatação não nasce de teoria ou de crítica externa. Ela nasce da prática diária, de quem vive a rotina do clube por dentro e se incomoda ao perceber que a conta insiste em não fechar.

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Não falo apenas de resultados, das pressões naturais do cargo ou da rotina intensa que o futebol impõe a quem vive dentro dele. Isso sempre existiu. O incômodo vem de outro lugar. Vem de uma sensação curiosa que começou a aparecer justamente quando, em tese, deveríamos nos sentir mais seguros.

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Hoje temos mais ferramentas de gestão do que em qualquer outro momento da história. Planilhas mais completas, softwares, dashboards, relatórios em tempo real, monitoramento de redes sociais, indicadores para quase tudo. O futebol nunca foi tão profissionalizado do ponto de vista técnico.

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E, paradoxalmente, nunca pareceu tão incontrolável.

Quando olho para trás, para o futebol de vinte ou trinta anos atrás, percebo que trabalhávamos quase no escuro. A informação demorava dias para circular, o erro ficava restrito ao estádio, o bastidor ainda era bastidor. Mesmo assim, a sensação era de que estávamos no comando de tudo.

Hoje é o contrário. Sabemos mais, medimos mais, acompanhamos mais. Só que a cada nova ferramenta surgem dez novas variáveis que fogem completamente do nosso alcance. A notícia nasce pública, a crítica é instantânea, o torcedor virou produtor de conteúdo, o atleta virou mídia, a narrativa deixou de pertencer ao clube.

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E seguimos agindo como se fosse possível controlar esse ambiente

Demorei a admitir, mas talvez o problema nunca tenha sido a falta de ferramentas. Talvez a gente nunca tenha tido o controle que imaginava.

O futebol moderno é um organismo vivo, não uma linha de produção. São muitas decisões acontecendo ao mesmo tempo, interesses diferentes, emoções transbordando, política, imprensa, redes sociais, expectativas financeiras, vaidades pessoais. É um sistema complexo demais para caber na lógica do comando e controle que aprendemos lá atrás.

Quanto antes entendi isso, menos energia passei a gastar tentando segurar o que não depende de mim.

Resultado de jogo. Humor de torcida. Interpretação de entrevista. Narrativa de rede social. Tudo isso muda rápido demais para ser gerenciado no detalhe. Quem tenta controlar cada ruído termina exausto e, quase sempre, frustrado.

Protesto torcida Athletico Arena da Baixada (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
Protesto torcida Athletico Arena da Baixada (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Então a pergunta deixou de ser "como controlar tudo?" e passou a ser "o que realmente está sob minha responsabilidade e alcance?".

A resposta é bem menos glamourosa do que parece.

Está na coerência das decisões, na previsibilidade do comportamento, na clareza do propósito e, principalmente, no exemplo diário. Em ambientes instáveis, as pessoas não seguem cargos. Seguem referências.

Percebi que liderança no futebol tem cada vez menos a ver com dar ordens e cada vez mais com oferecer estabilidade. Não é sobre gritar mais alto. É sobre agir do mesmo jeito quando ganha e quando perde. É sobre construir cultura suficiente para que o clube funcione mesmo quando você não está na sala.

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Controle absoluto é fantasia. Influência é realidade.

Aceitar essa limitação sem cinismo, sem desculpa e sem terceirizar culpa talvez seja gerir com excelência nos dias de hoje. No fim, a tecnologia não aumentou nossa capacidade de medir quase tudo. Apenas expôs, com mais clareza, o que sempre foi verdade.

No futebol, como na vida, ninguém controla o jogo inteiro.

O máximo que podemos fazer é controlar a nós mesmos e liderar pelo exemplo.

E isso, para quem leva o futebol a sério, já é responsabilidade suficiente.

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Felipe Ximenes escreve sua coluna no Lance! todas as quartas-feiras. Confira outras postagens do colunista:

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