Gestão Esportiva na Prática: um título que não pode virar manual
A Supercopa do Corinthians, o mérito de Dorival e o perigo de glamourizar o caos como estratégia

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Há clubes que funcionam como projetos. E há clubes que funcionam como forças da natureza. O Corinthians pertence ao segundo grupo. Não se explica por planilhas, organogramas ou discursos bem escritos. Ele acontece. Mesmo quando tudo indica que não deveria.
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Em um domingo ensolarado, no Estádio Mané Garrincha, venceu o Flamengo por 2 a 0 e conquistou a Supercopa do Brasil. E não venceu um Flamengo qualquer, mas o elenco mais caro e badalado das últimas décadas do futebol nacional, na estreia da maior contratação da história do país, em uma decisão que deveria representar o melhor do nosso futebol.
Não representou.
O gramado, em condições muito ruins, foi um destaque negativo. Incompatível com o tamanho do jogo, dos clubes envolvidos e do produto que o futebol brasileiro precisa vender melhor. Um detalhe que não é detalhe. É parte do contexto em que o nosso futebol segue operando, resolvendo o extraordinário dentro de estruturas ordinárias.
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Nada parece importar para quem venceu. Talvez porque, para o Corinthians, nunca importe totalmente.
O clube vem de um 2025 que desafiou qualquer manual de gestão. Dívidas que ultrapassaram a casa dos bilhões. Um presidente afastado por denúncias de gestão temerária. Instabilidade política. Ruído institucional. E, ainda assim, dois títulos. O Campeonato Paulista e a Copa do Brasil, e no último dia do primeiro mês de 2026 já levantou mais uma taça...
E é justamente aqui que mora o risco da leitura superficial.
Isso não pode virar exemplo. Não pode ser naturalizado. E, muito menos, glamourizado.
Dívidas estratosféricas já não podem ser consideradas como inevitáveis no futebol moderno. Ela é, quase sempre, consequência de escolhas ruins, adiadas ou mal explicadas. O fato de o Corinthians competir e vencer apesar desse cenário não transforma o caminho em virtuoso. Apenas revela a excepcionalidade de um clube específico.
Não tente fazer isso em casa.
O DNA de um clube não se constrói em uma gestão, nem em um ciclo vitorioso. Ele é resultado de décadas de história, vitórias improváveis, derrotas inesquecíveis, lágrimas, traumas e muito pertencimento. Pouquíssimas instituições no futebol brasileiro possuem essa blindagem simbólica, emocional e cultural.
O Corinthians não vence por estar endividado
Quando clubes médios ou menores olham para esse roteiro e concluem que "é possível competir mesmo endividado", cometem um erro grave de interpretação. O que para poucos é resiliência histórica, para a maioria é o caminho mais curto para a irrelevância esportiva ou para o colapso institucional.
O Corinthians não vence por estar endividado. Ele vence apesar disso. Minha honestidade intelectual me obriga a dizer isso com todas as letras. Mas toda força da natureza, quando encontra direção, potencializa seus efeitos. E é aqui que entra o outro protagonista da tarde.
Dorival Júnior segue acumulando títulos
Discreto fora do campo, intenso na beira dele, Dorival Júnior segue acumulando títulos em torneios decididos em jogos finais. Não por acaso. Não por sorte. E definitivamente não por improviso.
Dorival entende que finais não se jogam para agradar. Jogam-se para controlar, sobreviver e vencer. Ele lê como poucos o contexto, extrai o máximo possível de cada atleta e transforma equilíbrio emocional em vantagem competitiva. Sem vaidade excessiva. Sem apego a narrativas. Com decisão.
Enquanto um lado carregava expectativas, marketing e a necessidade quase estética de confirmar favoritismo, o outro entrou para competir. E finais, quase sempre, premiam quem compete melhor, não quem parece melhor.
Podemos tirar duas lições claras dessa tarde noite na capital federal.
A primeira: há clubes que são exceção, não modelo.
A segunda: há treinadores que vencem porque entendem o jogo real, não o idealizado.
Quando uma força da natureza encontra direção, o resultado aparece.
Isso não transforma o caminho em regra, nem o errado em certo.

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