Luis de la Fuente: o técnico cuja trajetória simboliza a dominante Espanha
Profissional comandou coletiva Fúria ao título na 'Copa dos protagonistas'

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Na Copa do Mundo dos protagonistas, a campeã foi a seleção mais coletiva: a Espanha. O jogo sem egoísmo é simbolizado na figura do técnico Luis de la Fuente, de 65 anos, personalidade pouco conhecida no restante do planeta até assumir a equipe do seu país. Sem sucesso com o renomado Luis Enrique, a Fúria foi atrás de um treinador que conhecia muito bem os jogadores e, principalmente, a essência do futebol espanhol, o mais influente e vitorioso do século XXI.
Nas décadas de 2000 e 2010, "La Roja" venceu duas Eurocopas, sua primeira Copa do Mundo e influenciou o globo inteiro com o "tiki-taka", enquanto Barcelona e Real Madrid ainda faturavam boa parte dos principais títulos europeus. Até o melhor jogador da última geração, Lionel Messi, formou-se atleta na nação europeia, apesar de ser argentino.
Durante todo esse processo de consolidação, De la Fuente lá estava, bebendo da fonte de grandes nomes como Pep Guardiola, Vicente del Bosque e Luis Aragonés. O treinador foi, ao mesmo tempo, aluno e professor no futebol espanhol. Ao contratá-lo, a Espanha não apostou em um salvador, mas sim na soberania da própria identidade esportiva.
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Luis de la Fuente dedicou a vida ao futebol espanhol
Nascido na pequena cidade de Haro, Luis de la Fuente é filho de um mercador marítimo, que passava boa parte do ano viajando. O espanhol e seus quatro irmãos, então, foram criados pela mãe. Em entrevistas, o técnico já reforçou que era um núcleo muito unido, que sofria junto a ausência do pai e se apoiava incondicionalmente. Até hoje, também mantém as amizades da época. Não é por acaso que o senso de coletividade e o afeto são valores fundamentais no seu trabalho.
O gosto pela prática do futebol começou nas ruas do vilarejo. Mas foi a 100 km dali, em Bilbao, que a paixão virou profissão. Depois de fazer base no Athletic Bilbao, defendeu o time profissional basco por nove anos. Apesar de carreira discreta como lateral-esquerdo, sem nenhuma convocação para a seleção espanhola principal, fez parte de elenco histórico que conquistou o Campeonato Nacional duas vezes consecutivas, em 1983 e 1984. Também vestiu as camisas de Sevilla e Alavés antes de se aposentar dos gramados em 1994, aos 33 anos.
Três anos após pendurar as chuteiras, De La Fuente começou a carreira de treinador, de ascensão constante e cautelosa. O início foi no pequeno Portugalete, em 1997. Depois, passou pelo Aurrera até a primeira grande chance: o comando do Sevilla FC Juvenis, equipe sub-19 do time espanhol. Por lá, curiosamente, foi apresentado a um tal de Lionel Messi.
Antes da final da Copa do Mundo contra a Argentina, o treinador espanhol relembrou que o primeiro confronto com o ídolo argentino, o duelo entre os times de base de Sevilla e Barcelona pela Copa do Rei Sub-19 de 2004, terminou com um fim trágico para o seu lado. No entanto, mais de 20 anos depois, o técnico conseguiu parar o astro na decisão mais importante de sua carreira.
— Vou contar uma coisa muito engraçada sobre o Messi. Conheci o Lionel Messi quando eu era treinador do sub-19 do Sevilla. Jogamos uma partida da Copa do Rei contra o Barcelona. Me falaram muito bem de um garoto chamado Messi. Então, obviamente, fizemos uma marcação individual nele. No minuto 70, empatávamos em 0 a 0. Quando deram um cartão amarelo para o jogador que estava marcando o Messi, eu troquei ele. Em 15 minutos, o Messi fez 4 gols — contou em coletiva.
Confira os gols de Messi no jogo citado:
A Luis De La Fuente le preguntaron cómo marcar a Messi. Recordó este partido:
— Juez Central (@Juezcentral) July 18, 2026
"Conocí a Lionel cuando entrenaba al juvenil de Sevilla y jugamos vs Barça. Le pusimos una marca desde el inicio y en el Min 70 sustituí al que lo marcaba. Después hizo 4 goles" pic.twitter.com/i4LCzVo4OM
Depois de quatro anos em Sevilla, Luis voltou ao Athletic Bilbao para seis temporadas à frente de diferentes divisões de base. Por lá, teve um aprendizado especial na formação de jogadores: o Bilbao não contrata atletas de fora do país basco e sobrevive, portanto, de talentos lapidados nos seus domínios. E o sucesso do projeto é tão grande que, ainda assim, é um dos únicos três clubes nunca rebaixados na primeira divisão espanhola, ao lado de Barcelona e Real Madrid.
Após rápida passagem pelo Alavés, De la Fuente chegou à seleção espanhola com bagagem expressiva no futebol de base. Entre 2013 e 2018, comandou o time sub-19, com o qual foi campeão europeu. Na sequência, passou a gerir a equipe sub-21, trabalho consolidado com mais um título da Eurocopa.
Após a Copa do Mundo de 2022, o treinador foi chamado para a seleção principal na vaga do badalado Luis Enrique, que viria a ser bicampeão da Champions League com o PSG. E o experiente profissional não sentiu a pressão. No cargo de maior responsabilidade da vida, continuou construindo um trabalho de excelência, passo a passo (ou passe a passe). Em 2023, ganhou a Nations League. Em 2024, a Eurocopa. Agora, em 2026, levanta o Mundial como técnico mais velho a triunfar na história do torneio.

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Reencontro entre mestre e aprendiz
Luis de la Fuente nunca quis desenvolver apenas os próprios conhecimentos, mas ajudar na evolução do futebol na Espanha e no mundo. Por isso, após se vincular à federação espanhola, também passou a ministrar cursos de treinador na entidade (RFEF), nos quais teve o adversário da final mundial, Lionel Scaloni, como um dos alunos. Em campo, os aprendizados são nítidos: o argentino também construiu uma Albiceleste com apreço pela bola. No entanto, o mestre superou o aprendiz na decisão, com vitória por 1 a 0 e 68% da posse de bola.
Contudo, o encontro entre os dois últimos treinadores campeões do mundo não beneficiou apenas o espanhol, como ele fez questão de ressaltar após a final:
— Eu dei um abraço (em Scaloni) e agradeci. E eu aproveito para agradecê-lo publicamente por tudo que me ensinou. Tivemos conversas sobre futebol. O difícil que é estar aqui, competir em algo como Copa do Mundo. Eu escuto muito, gosto de aprender sempre. Eu lamento sua tristeza, mas tem que estar muito feliz pela história que leva na seleção argentina. É jovem, mais jovem que eu. Para mim, resta menos futebol do que para ele. Mas, hoje, nós merecemos.

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De la Fuente formou família de talentos na Espanha
O sucesso de De la Fuente na seleção não se dá apenas pelo conhecimento de futebol e da identidade cultivada pela Espanha, mas por ter profunda familiaridade com os jogadores com os quais trabalha. Antes de assumir a primeira equipe da Fúria, o técnico acompanhou na base o desenvolvimento de peças como Unai Simón, Marc Cucurella, Rodri, Fabián Ruiz, Dani Olmo, Pedri e Mikel Merino.
Com a confiança dos atletas e o tratamento afetuoso, o comandante, que tanto sentia falta do contato diário com o pai durante a infância, virou uma figura paternal para a família espanhola.
— Eu tenho muito orgulho dessa geração de jogadores que foram crescendo com essa ideia, dando exemplo de grupo, de família. Grandes jogadores com um talento excepcional. Sinto orgulho por ter acompanhado isso e felicidade pelos nossos jogadores extraordinários. Alguns estão trabalhando conosco há muitos anos, 12 anos. Passamos por toda essa trajetória juntos, é um orgulho para mim, somos quase uma família – celebrou, em entrevista ao "SporTV".

Fora dos gramados, De la Fuente é casado, mas não divulga a identidade da esposa, e pai de três filhos, entre os quais o mais conhecido é Alberto, de 31 anos, também funcionário da federação espanhola. Apesar da discrição, sabe-se que o treinador é bastante religioso e apreciador de história e filosofia, como fica evidente em suas entrevistas.
— Há muito sobre sofrimento no futebol. É habitual falarmos sobre isso. Não há sucesso sem sofrimento, dizia Júlio César. Gosto muito do mundo romano. Outra expressão que eu gosto bastante é: se quer algo importante na vida, conquistar, há que se deixar algo pelo caminho. Sofrer muito. E nós viemos dispostos a isso, a sofrer — disse no decorrer da Copa.
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Vitória da força coletiva
A Copa do Mundo de 2026 era chamada de "Copa dos protagonistas" até a final: Mbappé, Messi, Haaland e companhia correspondiam às altíssimas expectativas do público. No fim, a equipe vitoriosa foi a mais coletiva. E a Bola de Ouro, entregue pela Fifa ao craque da competição, condecorou o volante Rodri, jogador muito mais importante por garantir o funcionamento do conjunto espanhol do que por decidir as partidas individualmente.

Já a maior referência técnica da Fúria é Lamine Yamal, de 19 anos, que terminou o Mundial com apenas uma participação em gol. Fez bom torneio, mas não precisou ser protagonista como muitas vezes é no Barcelona. Isso tudo passa por De la Fuente, que sempre fez questão de controlar as expectativas em cima do jovem atacante e reforçar o poder do trabalho coletivo.
A consequência de uma seleção tão coesa e direcionada em prol de um modelo de jogo de dominância sobre o adversário foi o apagamento do brilho dos craques adversários: Cristiano Ronaldo, Mbappé e Messi, por exemplo, pouco fizeram diante da Espanha.
— O mérito é trabalhar como equipe. Há grandes seleções, mas nós demonstramos que somos um grande time e uma grande família — refletiu De la Fuente.

O futebol tão unido da seleção espanhola não deixa espaços para o ego, fator considerado pelo treinador na montagem do elenco.
— É preciso saber eleger os companheiros de viagem; isso é o mais importante. Se você se equivoca nessa escolha, pode ter problemas. O nosso grupo trabalha com um objetivo em comum, com o mesmo alvo. Gente normal, gente generosa, que busca o bem comum antes do bem pessoal. Nós temos os melhores acompanhantes de viagem — explicou, após vitória sobre a França na semifinal.
O exemplo, claro, começa em quem comanda: um técnico discreto, humilde, pouco conhecido, mas extremamente competente. Se depender de Luis de la Fuente, o trabalho por mais um título mundial já começa agora. Mas sempre da forma que conduziu toda sua trajetória no esporte: tijolo a tijolo, degrau a degrau, jogo a jogo.
— Depois do jogo, houve jogadores que disseram: o que falta ganhar? Ganhamos tudo. A conclusão é que falta ganhar o próximo jogo, porque somos incansáveis — falou após a histórica conquista.
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