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Vitória sobre o Haiti alivia pressão, mas Brasil ainda deixa dúvidas para Ancelotti

Seleção enfrenta a Escócia, na quarta, no encerramento da participação na fase de grupos

PorThiago BragaSão Paulo (SP)
20/06/2026 07:00
Jogadores do Brasil comemorando contra o Haiti na Copa do Mundo
Brasil venceu o Haiti por 3 a 0 (Foto: ROBERTO SCHMIDT / AFP)

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A vitória por 3 a 0 sobre o Haiti devolve a tranquilidade ao ambiente da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Depois do empate diante do Marrocos na estreia, o resultado era praticamente uma obrigação para uma equipe que chegou ao torneio cercada por expectativa e comandada por um treinador acostumado a disputar títulos. O Brasil venceu, assumiu a liderança do Grupo C e teve momentos de domínio claros. Ainda assim, a atuação deixa uma sensação ambígua: houve avanços importantes, especialmente no funcionamento ofensivo, mas também ficaram evidentes algumas limitações que podem cobrar um preço alto quando o nível dos adversários aumentar.

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A partida revelou um Brasil mais confortável com a bola, mais organizado para criar oportunidades e, sobretudo, mais dependente da inspiração de alguns jogadores específicos. Vinícius Júnior, Matheus Cunha e Lucas Paquetá foram os rostos mais visíveis dessa melhora. Ao mesmo tempo, a fragilidade do Haiti impede conclusões definitivas.

Defesa: segurança, mas poucos testes reais

O dado mais chamativo da noite talvez não tenha sido um gol brasileiro. Foi a ausência completa de finalizações haitianas durante todo o primeiro tempo.

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Ancelotti adota método que mantém elenco pronto no Brasil

Desde o duelo contra a Escócia na Copa de 1990, o Brasil não passava uma etapa inicial inteira de um jogo de Mundial sem permitir um único chute adversário. O número ajuda a ilustrar o tamanho do controle exercido pela equipe de Carlo Ancelotti nos 45 minutos iniciais.

O Haiti terminou a primeira etapa com apenas 38% de posse, não criou nenhuma grande chance de gol. Isso não significa, porém, que a defesa tenha sido amplamente testada.

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Nos 90 minutos, o cenário mudou um pouco. O Haiti conseguiu finalizar sete vezes e obrigou Alisson a fazer três defesas.

Meio-campo: a mudança de Ancelotti apareceu

A principal novidade da noite não esteve em um nome específico, mas no desenho da equipe.

O Brasil partiu formalmente de um 4-3-3, mas a movimentação de Matheus Cunha transformava constantemente o sistema em algo próximo a um losango no meio-campo. Em vez de atuar preso entre os zagueiros adversários como um centroavante tradicional, Cunha recuava para participar da construção das jogadas.

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Esse movimento gerou dois efeitos imediatos. O primeiro foi oferecer mais uma linha de passe durante a saída de bola. O segundo foi abrir corredores para Vinícius Júnior e Raphinha atacarem os espaços deixados pela defesa haitiana.

A seleção terminou o jogo com 523 passes contra 399 do adversário e fechou a primeira etapa com 279 trocas de bola diante de apenas 174 do Haiti. Os números ajudam a explicar por que o controle da partida quase nunca saiu das mãos brasileiras.

Lucas Paquetá talvez não tenha sido o personagem mais lembrado da noite, mas foi um dos responsáveis por dar fluidez ao jogo. Quando o Brasil acelerava, ele aparecia próximo aos atacantes. Quando a equipe precisava organizar a posse, voltava para participar da circulação. Sua movimentação ajudou a evitar que o time ficasse excessivamente partido, um problema recorrente nos jogos anteriores.

A presença de um meio-campista mais posicional permitiu que o restante do setor atuasse com mais liberdade. Ainda assim, permanece uma questão importante: contra adversários de maior qualidade técnica, será suficiente ter apenas Casemiro como principal sustentação defensiva?

Ataque: Vinícius protagonista

Os números ajudam a explicar por que Vinícius Júnior saiu novamente como principal destaque brasileiro.

Vinícius Júnior foi o principal protagonista do ataque brasileiro no primeiro tempo. Muito participativo, o atacante tocou 23 vezes na bola, acertou nove dos 11 passes que tentou e esteve constantemente próximo da área adversária, registrando seis toques dentro da área haitiana. Além de finalizar quatro vezes, criou uma oportunidade para um companheiro e participou diretamente dos dois gols brasileiros antes do intervalo, ao marcar uma vez e distribuir uma assistência. Os números ajudam a explicar a sensação deixada em campo: praticamente todas as jogadas mais perigosas da seleção passaram pelos pés do camisa 7.

Vini Jr marca o terceiro gol do Brasil diante do Haiti
Vini Jr marca o terceiro do Brasil sobre o Haiti (Foto: Roberto Schmidt/ AFP)

Foi uma atuação de protagonista. Mais do que marcar e participar de outro gol, Vinícius concentrou boa parte das ações ofensivas da seleção. Dos quatro gols marcados pelo Brasil nesta Copa até agora, ele participou diretamente de três: marcou dois e deu uma assistência. O único gol em que não aparece diretamente surgiu após um rebote gerado por uma finalização sua.

Com Matheus Cunha ocupando espaços entre as linhas, Vinícius recebeu mais liberdade para atacar em velocidade e encontrar situações de um contra um. Os dois gols naturalmente colocam Cunha entre os destaques da partida. Mas sua contribuição vai além da área.

Desde que Ancelotti assumiu a seleção, o Brasil costuma funcionar melhor quando ele está em campo. Parte disso acontece porque Cunha oferece algo raro entre os atacantes brasileiros atuais: capacidade de participar da construção sem perder presença ofensiva.

Matheus Cunha ,marcou dois gols no primeiro tempo de Brasil x Haiti na Copa do Mundo
Matheus Cunha comemora seu segundo gol sobre o Haiti (Foto: Mauro PIMENTEL / AFP)

Ele atua como uma espécie de terceiro meia quando a equipe inicia suas jogadas e como atacante quando a jogada se aproxima da área.

Os dois gols nasceram justamente em situações de transição rápida, algo que já se tornou uma marca da seleção sob o comando do treinador italiano. Dos 30 gols marcados pelo Brasil desde a chegada de Ancelotti, cinco surgiram em contra-ataques semelhantes.

O que o resultado esconde

O placar final sugere uma atuação dominante. Os números também apontam superioridade brasileira: 57% de posse de bola e quatro grandes chances criadas contra nenhuma do adversária. Ainda assim, há sinais de alerta.

O Haiti ofereceu muito espaço. Em vários momentos, o Brasil encontrou campo aberto para acelerar transições que dificilmente aparecerão diante de seleções mais fortes.

A equipe continua dependente de lampejos individuais para transformar controle em gols. Em alguns momentos, a circulação de bola permanece lenta. Em outros, a distância entre setores ainda parece maior do que deveria.

Ancelotti mexeu menos do que parte da torcida imaginava depois da estreia. Ajustou algumas peças e encontrou uma configuração ofensiva mais funcional. Foi suficiente para superar o Haiti.

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A dúvida passa a ser outra. Se contra o Haiti o talento individual resolveu, contra a Escócia e, principalmente, no mata-mata, será necessário apresentar um nível coletivo mais consistente.

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