Gestão Esportiva na Prática: a dor quer encontrar um culpado. O futuro exige um diagnóstico
Depois de seis ciclos sem o título, precisamos entender não apenas por que fomos eliminados, mas para que esta eliminação pode servir

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O Brasil foi eliminado pela Noruega, mas não perdeu a sua sexta Copa consecutiva em 90 minutos. A partida apenas encerrou, de maneira dolorosa, um processo iniciado muito antes de a bola rolar em Nova Jersey. O placar pertence ao presente; as causas foram construídas no passado.
Desde o pentacampeonato de 2002, caímos diante de França, Holanda, Alemanha, Bélgica, Croácia e, agora, Noruega. Foram seis eliminações consecutivas para seleções europeias. Em 24 anos, não disputamos uma final e chegamos a apenas uma semifinal. Neste ciclo, tivemos quatro treinadores, terminamos as Eliminatórias na quinta colocação, com 28 pontos e 51% de aproveitamento, e confiamos que a liderança de um grande nome organizaria rapidamente aquilo que permaneceu desorganizado durante anos.
Esses dados não explicam tudo, mas precisam nos impedir de atribuir tudo a um pênalti perdido, uma substituição equivocada ou uma atuação abaixo do esperado. Se eu olhasse apenas para o jogo, encontraria erros. Se observasse o ciclo, encontraria improvisação. Ao examinar as últimas seis Copas, encontrei algo mais profundo: o futebol brasileiro vem trocando respostas sem revisar as perguntas.
Ancelotti não é o grande vilão da eliminação do Brasil
Carlo Ancelotti não pode ser absolvido de suas escolhas, mas transformá-lo no grande vilão seria repetir o erro cometido quando o tratamos como salvador. O primeiro estrangeiro a dirigir o Brasil em uma Copa talvez tenha sido menos a causa do problema do que o seu maior sintoma. Pressionados por setores que na sua maioria vivem no entorno, e não dentro do futebol, fomos buscar fora uma solução que já não acreditávamos ser capazes de produzir internamente.
Esse movimento, aliado ao resultado da Copa, pode provocar algo ainda mais perigoso: uma cisão entre os treinadores brasileiros e a alta gestão do futebol brasileiro. A contratação de Ancelotti foi interpretada por muitos como uma declaração de incompetência coletiva dos nossos profissionais. Se a derrota for usada para fechar o debate, todos perderemos. Não precisamos escolher entre valorizar o conhecimento brasileiro e aprender com o estrangeiro. Precisamos de diálogo permanente, franco e tecnicamente qualificado.
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A continuidade de Ancelotti também não pode ser decidida apenas pelo resultado. Deve passar por uma conversa profunda sobre seu comprometimento com as mudanças estruturais de que o futebol brasileiro necessita. Não basta preparar o próximo time. Precisamos saber se ele está disposto a dialogar com nossos treinadores, aproximar-se das seleções de base, compartilhar conhecimento e participar da reconstrução de uma identidade. Sua experiência pode servir apenas a uma equipe ou contribuir para transformar um ecossistema.
Há outra ruptura que nós, profissionais do futebol, precisamos interromper: a transformação da polarização partidária em critério para julgar profissionais. Não encontraremos soluções escolhendo quais jornalistas merecem ser ouvidos conforme nosso espectro político, demonizando repórteres por suas opiniões ou distribuindo os papéis de heróis e vilões aos atletas pelo número escolhido na urna. Quando a preferência eleitoral substitui o argumento, perdemos a capacidade de escutar, discordar e aprender. A Seleção pertence a todos.
A reconstrução deve apoiar-se nas categorias de formação e em três pilares indispensáveis. O primeiro é a educação, entendida como formação contínua de treinadores, dirigentes, atletas e de todos que tomam decisões. O segundo é a redução do número de atletas nas categorias de base. Acumular jovens não significa formar melhor; muitas vezes significa dividir atenção, minutos, estrutura e responsabilidade. Precisamos trabalhar com menos atletas, mais acompanhamento individual e melhores formadores.
O terceiro pilar é um grande projeto de comunicação interna. CBF, federações, clubes, treinadores, atletas e famílias precisam compartilhar diagnósticos, conceitos, objetivos e responsabilidades. Sem uma linguagem minimamente comum, cada instituição continuará tentando resolver sozinha um problema que pertence ao sistema inteiro.
O grupo de trabalho criado pela CBF para discutir as categorias de base, do qual tenho a responsabilidade de participar, pode ser um ponto de partida. Sua relevância não será medida pelas reuniões ou pelo documento produzido, mas pela capacidade de transformar escuta em prioridades, prioridades em decisões e decisões em mudanças verificáveis.
Esses pilares precisam ser protegidos por uma governança técnica que sobreviva a presidentes, treinadores e resultados episódicos. Também precisamos abandonar a obsessão de montar apenas o próximo time. O desafio é formar uma geração capaz de atravessar diferentes treinadores e três Copas com competitividade. Entre 1994 e 2002, o Brasil disputou três finais consecutivas, conquistou dois títulos e um vice-campeonato, com atletas que se alternavam como os melhores do mundo e atuavam nos maiores clubes do planeta. Aquilo não nasceu de uma convocação nem de um único treinador. Foi uma geração construída durante anos.
O presente que hoje lamentamos é consequência de escolhas feitas no passado. O futuro será consequência das escolhas feitas agora. O hexa não começará quando encontrarmos quem perdeu esta Copa, mas quando decidirmos, juntos, o que não aceitaremos repetir até a próxima.


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