Análise: evolução do Brasil de Ancelotti leva Seleção às oitavas
Brasil supera dificuldades, muda durante o jogo e bate o Japão em Houston

HOUSTON, TX (EUA) - A análise da classificação do Brasil para as oitavas de final passa, necessariamente, por um entendimento da evolução da equipe de Carlo Ancelotti ao longo da Copa do Mundo. A vitória por 2 a 1 sobre o Japão, nesta segunda-feira (29), em Houston, não foi a atuação mais brilhante da Seleção Brasileira, mas talvez tenha sido a que melhor retrate o processo de construção de uma identidade. Um time que ainda busca refinamento nos setores, mas que já apresenta padrões claros de jogo e, principalmente, uma capacidade de competir até o último minuto.
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Antes mesmo da estreia, Ancelotti já havia mostrado que não chegaria preso a convicções. A ideia inicial de sistema, o 4-2-4, foi sendo modificada durante os amistosos preparatórios até ganhar uma versão definitiva na abertura da Copa do Mundo. Contra o Marrocos, o treinador apresentou um Brasil organizado em um 4-4-2 sem a bola, com o meio-campo em losango, desenho que permanece até hoje. Com a posse, porém, a equipe transforma completamente a estrutura, ocupando o campo em um 3-2-5, modelo que virou a assinatura tática da Seleção.
A estreia, entretanto, esteve longe do ideal. O empate por 1 a 1 com o Marrocos mostrou um Brasil pouco criativo, com dificuldades para romper as linhas defensivas em sua estreia na Copa do Mundo. O gol de Vini Jr. nasceu muito mais da genialidade individual do atacante, aproveitando um passe preciso de Bruno Guimarães, do que de uma construção coletiva bem executada.
Na segunda rodada, diante do Haiti, já apareceram sinais importantes de evolução. O Brasil fez um primeiro tempo dominante, abriu vantagem de 3 a 0 e controlou o jogo durante boa parte da partida na Filadélfia. Ainda sofreu nos minutos finais, quando permitiu pressão haitiana, mas a equipe mostrou muito mais coordenação na circulação da bola e na ocupação dos espaços.
Contra a Escócia, veio talvez a atuação mais consistente da primeira fase. A vitória por 3 a 0 confirmou uma equipe mais segura defensivamente e muito confortável utilizando a amplitude ofensiva. A estrutura ficou ainda mais evidente. Na saída de bola, Danilo fechava ao lado de Marquinhos e Gabriel Magalhães, formando uma linha de três defensores. Casemiro e Bruno Guimarães eram responsáveis pela proteção e pelo início da construção, cabendo a Bruno acelerar o jogo com passes verticais. À frente, cinco jogadores ocupavam toda a largura do campo.
Lesões abrem caminho para adaptações de Ancelotti
A lesão de Wesley obrigou Ancelotti a fazer uma mudança importante justamente no setor que vinha sendo uma das principais armas da equipe. Sem o lateral, o treinador inverteu o lado da profundidade. Douglas Santos passou a ganhar liberdade pelo corredor esquerdo, enquanto Lucas Paquetá passou a ocupar um papel híbrido, funcionando quase como um terceiro meio-campista, protegendo as subidas do lateral e liberando Vini Jr. para permanecer aberto ou atacar o espaço entre os zagueiros. Do outro lado, Rayan manteve a missão de oferecer amplitude pelo corredor direito.
A proposta permaneceu diante do Japão, mas encontrou um adversário muito mais fechado. O plano brasileiro de atacar o espaço nas costas da defesa simplesmente não encontrou brechas. Restaram os chutes de média distância e muita circulação de bola sem profundidade. A equipe controlava a posse, mas criava pouco. E justamente em uma saída de bola equivocada sofreu o gol japonês, vendo um roteiro que parecia controlado se transformar em pressão.
Foi então que apareceu outra característica importante deste Brasil: a capacidade de adaptação. Com Paquetá deixando o gramado mancando, Ancelotti lançou Endrick e desmontou o losango. Matheus Cunha passou a ajudar mais na recomposição do meio, enquanto Endrick ocupou definitivamente a referência ofensiva como um camisa 9 no jogo que teve mais minutos na Copa do Mundo.
A mudança alterou completamente o comportamento brasileiro. Sem conseguir infiltrar por dentro, o Brasil passou a atacar pelos lados e utilizar mais cruzamentos. Foi assim que chegou ao empate. Gabriel Magalhães levantou a bola na área e Casemiro apareceu para marcar. A pressão aumentou, Vini Jr. passou a encontrar mais espaços e quase virou a partida em uma jogada individual.
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Na reta final, Ancelotti fez mais duas alterações que acabaram sendo decisivas. Fabinho entrou na vaga de Casemiro, também com problemas físicos, e Gabriel Martinelli substituiu Matheus Cunha para formar uma dobradinha pelo lado esquerdo ao lado de Vini Jr., com o jogador do Arsenal tendo a liberdade de atuar mais por dentro. A intenção era clara: atrair ainda mais a marcação sobre Vinícius e abrir espaços para infiltrações e tabelas curtas.
Com o passar do tempo, Ancelotti ainda fez mais uma mudança tática com o jogo em andamento. Endrick passou a atuar pelo lado do campo, e Rayan ficou mais centralizado. O ex-jogador do Vasco subiu de produção e foi fundamental para a virada da Seleção Brasileira.
A jogada da vitória, já nos acréscimos, simboliza muito do que este Brasil vem construindo durante a Copa. Não nasceu de uma posse longa ou de um lance isolado de talento. Veio da pressão alta. Rayan recuperou a bola ainda no campo ofensivo, Bruno Guimarães apareceu dentro da área com inteligência para dar o passe e Martinelli finalizou colocado para garantir a classificação.
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Não foi um lance isolado. Contra o Haiti, o Brasil também marcou após recuperar a posse, acelerando pelo corredor central, além de construir gols em jogadas individuais. Diante da Escócia, o primeiro gol surgiu novamente de uma recuperação de bola de Rayan, Vini Jr. marcou de cabeça após cruzamento pela direita e Matheus Cunha balançou as redes recebendo assistência de Bruno Guimarães.
Os gols ajudam a explicar a evolução da equipe. O Brasil de Ancelotti ainda não é uma Seleção que encanta durante os 90 minutos. Ainda encontra dificuldades diante de defesas muito compactas e depende de ajustes para transformar posse de bola em volume ofensivo. Mas já apresenta padrões claros, alterna formas de atacar, pressiona melhor sem a bola e, principalmente, começa a vencer jogos de maneiras diferentes. Em uma Copa do Mundo, essa capacidade de adaptação costuma valer tanto quanto o futebol vistoso. E foi exatamente isso que colocou a Seleção nas oitavas de final.

Quando é o próximo jogo da Seleção de Ancelotti?
O próximo compromisso da Seleção Brasileira na Copa do Mundo será no domingo, dia 5 de julho, às 17h (de Brasília), em Nova Jersey, nos Estados Unidos. O time de Carlo Ancelotti aguarda o vencedor do confronto entre Costa do Marfim e Noruega, que será definido nesta terça-feira (30).
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