Análise: evolução do Brasil de Ancelotti leva Seleção às oitavas

Brasil supera dificuldades, muda durante o jogo e bate o Japão em Houston

PorMárcio IannaccaEnviado Especial
29/06/2026 18:50
Atualizado há 3 minutos
Seleção Brasileira posada para o jogo contra o Japão, em Houston, nos Estados Unidos
Jogadores do Brasil posados para a foto antes do jogo contra o Japão, em Houston, pela Copa do Mundo (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

HOUSTON, TX (EUA) - A análise da classificação do Brasil para as oitavas de final passa, necessariamente, por um entendimento da evolução da equipe de Carlo Ancelotti ao longo da Copa do Mundo. A vitória por 2 a 1 sobre o Japão, nesta segunda-feira (29), em Houston, não foi a atuação mais brilhante da Seleção Brasileira, mas talvez tenha sido a que melhor retrate o processo de construção de uma identidade. Um time que ainda busca refinamento nos setores, mas que já apresenta padrões claros de jogo e, principalmente, uma capacidade de competir até o último minuto.

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Antes mesmo da estreia, Ancelotti já havia mostrado que não chegaria preso a convicções. A ideia inicial de sistema, o 4-2-4, foi sendo modificada durante os amistosos preparatórios até ganhar uma versão definitiva na abertura da Copa do Mundo. Contra o Marrocos, o treinador apresentou um Brasil organizado em um 4-4-2 sem a bola, com o meio-campo em losango, desenho que permanece até hoje. Com a posse, porém, a equipe transforma completamente a estrutura, ocupando o campo em um 3-2-5, modelo que virou a assinatura tática da Seleção.

A estreia, entretanto, esteve longe do ideal. O empate por 1 a 1 com o Marrocos mostrou um Brasil pouco criativo, com dificuldades para romper as linhas defensivas em sua estreia na Copa do Mundo. O gol de Vini Jr. nasceu muito mais da genialidade individual do atacante, aproveitando um passe preciso de Bruno Guimarães, do que de uma construção coletiva bem executada.

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Na segunda rodada, diante do Haiti, já apareceram sinais importantes de evolução. O Brasil fez um primeiro tempo dominante, abriu vantagem de 3 a 0 e controlou o jogo durante boa parte da partida na Filadélfia. Ainda sofreu nos minutos finais, quando permitiu pressão haitiana, mas a equipe mostrou muito mais coordenação na circulação da bola e na ocupação dos espaços.

Contra a Escócia, veio talvez a atuação mais consistente da primeira fase. A vitória por 3 a 0 confirmou uma equipe mais segura defensivamente e muito confortável utilizando a amplitude ofensiva. A estrutura ficou ainda mais evidente. Na saída de bola, Danilo fechava ao lado de Marquinhos e Gabriel Magalhães, formando uma linha de três defensores. Casemiro e Bruno Guimarães eram responsáveis pela proteção e pelo início da construção, cabendo a Bruno acelerar o jogo com passes verticais. À frente, cinco jogadores ocupavam toda a largura do campo.

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Lesões abrem caminho para adaptações de Ancelotti

A lesão de Wesley obrigou Ancelotti a fazer uma mudança importante justamente no setor que vinha sendo uma das principais armas da equipe. Sem o lateral, o treinador inverteu o lado da profundidade. Douglas Santos passou a ganhar liberdade pelo corredor esquerdo, enquanto Lucas Paquetá passou a ocupar um papel híbrido, funcionando quase como um terceiro meio-campista, protegendo as subidas do lateral e liberando Vini Jr. para permanecer aberto ou atacar o espaço entre os zagueiros. Do outro lado, Rayan manteve a missão de oferecer amplitude pelo corredor direito.

A proposta permaneceu diante do Japão, mas encontrou um adversário muito mais fechado. O plano brasileiro de atacar o espaço nas costas da defesa simplesmente não encontrou brechas. Restaram os chutes de média distância e muita circulação de bola sem profundidade. A equipe controlava a posse, mas criava pouco. E justamente em uma saída de bola equivocada sofreu o gol japonês, vendo um roteiro que parecia controlado se transformar em pressão.

Foi então que apareceu outra característica importante deste Brasil: a capacidade de adaptação. Com Paquetá deixando o gramado mancando, Ancelotti lançou Endrick e desmontou o losango. Matheus Cunha passou a ajudar mais na recomposição do meio, enquanto Endrick ocupou definitivamente a referência ofensiva como um camisa 9 no jogo que teve mais minutos na Copa do Mundo.

A mudança alterou completamente o comportamento brasileiro. Sem conseguir infiltrar por dentro, o Brasil passou a atacar pelos lados e utilizar mais cruzamentos. Foi assim que chegou ao empate. Gabriel Magalhães levantou a bola na área e Casemiro apareceu para marcar. A pressão aumentou, Vini Jr. passou a encontrar mais espaços e quase virou a partida em uma jogada individual.

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Na reta final, Ancelotti fez mais duas alterações que acabaram sendo decisivas. Fabinho entrou na vaga de Casemiro, também com problemas físicos, e Gabriel Martinelli substituiu Matheus Cunha para formar uma dobradinha pelo lado esquerdo ao lado de Vini Jr., com o jogador do Arsenal tendo a liberdade de atuar mais por dentro. A intenção era clara: atrair ainda mais a marcação sobre Vinícius e abrir espaços para infiltrações e tabelas curtas.

Com o passar do tempo, Ancelotti ainda fez mais uma mudança tática com o jogo em andamento. Endrick passou a atuar pelo lado do campo, e Rayan ficou mais centralizado. O ex-jogador do Vasco subiu de produção e foi fundamental para a virada da Seleção Brasileira.

A jogada da vitória, já nos acréscimos, simboliza muito do que este Brasil vem construindo durante a Copa. Não nasceu de uma posse longa ou de um lance isolado de talento. Veio da pressão alta. Rayan recuperou a bola ainda no campo ofensivo, Bruno Guimarães apareceu dentro da área com inteligência para dar o passe e Martinelli finalizou colocado para garantir a classificação.

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Não foi um lance isolado. Contra o Haiti, o Brasil também marcou após recuperar a posse, acelerando pelo corredor central, além de construir gols em jogadas individuais. Diante da Escócia, o primeiro gol surgiu novamente de uma recuperação de bola de Rayan, Vini Jr. marcou de cabeça após cruzamento pela direita e Matheus Cunha balançou as redes recebendo assistência de Bruno Guimarães.

Os gols ajudam a explicar a evolução da equipe. O Brasil de Ancelotti ainda não é uma Seleção que encanta durante os 90 minutos. Ainda encontra dificuldades diante de defesas muito compactas e depende de ajustes para transformar posse de bola em volume ofensivo. Mas já apresenta padrões claros, alterna formas de atacar, pressiona melhor sem a bola e, principalmente, começa a vencer jogos de maneiras diferentes. Em uma Copa do Mundo, essa capacidade de adaptação costuma valer tanto quanto o futebol vistoso. E foi exatamente isso que colocou a Seleção nas oitavas de final.

Casemiro comemora o gol de empate do Brasil com o Japão, e é cercado pelos jogadores que estavam no banco de reservas pela Copa do Mundo
Casemiro comemora o gol de empate da Seleção Brasileira com o Japão pela Copa do Mundo (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Quando é o próximo jogo da Seleção de Ancelotti?

O próximo compromisso da Seleção Brasileira na Copa do Mundo será no domingo, dia 5 de julho, às 17h (de Brasília), em Nova Jersey, nos Estados Unidos. O time de Carlo Ancelotti aguarda o vencedor do confronto entre Costa do Marfim e Noruega, que será definido nesta terça-feira (30).

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