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Organizações de direitos humanos criticam Fifa e 'práticas cruéis' dos EUA

Entidades atacam tratamento a imigrantes, uso da Copa como propaganda política e falta de inclusão

PorVicente SedaRio de Janeiro (RJ)
17/07/2026 17:40
Representantes de entidades em defesas dos direitos humanos criticaram EUA e Fifa
Representantes de entidades de defesa dos direitos humanos criticaram EUA e Fifa (Foto: Reprodução)

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Organizações internacionais de direitos humanos realizaram uma apresentação sobre a Copa do Mundo na quinta-feira (16) com severas críticas à Fifa e ao governo americano liderado pelo presidente Donald Trump. Entre os principais pontos levantados estão os problemas com a imigração e a diferença de tratamento para determinados países, além do uso do esporte como ferramenta para propaganda política. O debate girou em torno das declarações da entidade organizadora de que esta é a maior e mais inclusiva Copa do Mundo de todos os tempos.

Participaram do evento a diretora de iniciativas globais da Human Rights Watch, Minky Worden; o professor da Pacific University e autor de Red Card: The 2026 World Cup, Sportswashing, and the FIFA Greed Machine (Cartão Vermelho: a Copa do Mundo de 2026, Sportswashing e a máquina de ganância da Fifa), Jules Boykoff; Daniel Noroña, diretor de defesa de direitos nas Américas da Anistia Internacional dos Estados Unidos; o diretor executivo da Football Supporters Europe (Torcedores de Futebol da Europa), Ronan Evain; a especialista sênior da Ilga World (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo), Lily Dong Li Rosengard; a diretora executiva da Sport & Rights Alliance, Andrea Florence; e a chefe de assuntos globais do Comitê de Proteção aos Jornalistas, Gypsy Guillen Kaiser.

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Worden, que mediou a conversa, afirmou que, apesar de a Copa do Mundo proporcionar momentos de entretenimento e união, existe um outro lado de abuso do governo americano com conivência da Fifa, que, segundo ela, não seguiu suas próprias diretrizes em prol dos direitos humanos.

— Jogadores, torcedores e comunidades na Copa criaram incontáveis momentos de inegável alegria, inspiração e união. Mas, além dessas histórias que aquecem o coração, essa Copa foi disputada com um pano de fundo de repressão abusiva do governo dos Estados Unidos à imigração e de falha da Fifa em manter seus padrões de defesa dos direitos humanos.

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Protesto em Seattle no lado de fora do estádio onde os EUA venceram a Austrália no dia 19 de junho
Protesto em Seattle do lado de fora do estádio onde os EUA venceram a Austrália no dia 19 de junho (Foto: Reuters/Folhapress)

Uso da Copa como propaganda política

Boykoff abordou a questão do uso da máquina de propaganda mundial da Copa do Mundo para fins políticos. Destacou que há uma diferença grande em como certas ações são percebidas em um cenário internacional e pelo público americano.

— Um exemplo: os Estados Unidos barraram um árbitro da Somália, Omar Artan, o que pareceu grosseiramente injusto para o resto do mundo. Mas, para uma audiência doméstica, o Trump está dizendo: "Lembra daqueles somalis de que eu falava, chamando de lixo no passado? Estou sendo coerente sobre isso." Ou se lembram quando Trump interveio para revogar o cartão vermelho do Balogun (atacante da seleção americana)? O resto do mundo ficou pasmo, dizendo que isso estava colocando a isonomia em perigo, mas para o público doméstico ele pode dizer: "Ei, eu sou um homem forte que faz essas instituições internacionais se curvarem ao meu desejo" — explicou Boykoff.

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O professor enxergou referências nazistas no discurso americano. Citou especificamente uma postagem na rede social "X" feita pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA (Department of Homeland Security, ou DHS, na sigla em inglês).

— Quando você vê o Departamento de Segurança Interna publicando uma série de "tweets" anti-imigrantes... Vou citar um para entenderem a questão. Logo após os Estados Unidos vencerem a sua primeira partida, publicaram um "tweet" dizendo: "Defenda a pátria. Uma nação, uma pátria, um time". Parece que foi escrito por um nazista, porque os nazistas usaram uma frase muito similar na Segunda Guerra Mundial: "Um povo, um reino, um líder". Então, novamente, sinalizando para uma audiência doméstica que ele está no comando. Não se preocupem, esses imigrantes podem estar nos visitando como turistas, mas voltarão para casa e tudo voltará ao normal.

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Violência do ICE aumentou durante a Copa

Daniel Noroña, da Anistia Internacional, reforçou a atuação do governo americano contra imigrantes por meio do ICE (sigla para Immigration and Customs Enforcement, a agência federal de controle de imigração americana). Ele destacou que a Fifa não usou o seu poder de influência para garantir um tratamento igualitário a todos os visitantes.

— A Fifa não usou o seu poder de influência nesse torneio. Prometeu uma Copa em que todos poderiam se sentir seguros, incluídos, e exercer seus direitos com liberdade. Mas a verdade é que as políticas que vieram da Casa Branca levaram a uma divisão. Desde o começo desse governo, comunidades viveram o horror do perfil racial, o uso da polícia local para aplicar leis de imigração e agentes federais armados atacando suas casas. Ao mesmo tempo, esses agentes se comportam de forma consistente em um estilo de operações paramilitares e repetidamente alvejaram comunidades latinas, negras, asiáticas e outras, detendo pessoas de forma violenta e arbitrária, incluindo crianças em suas casas, escolas, locais de trabalho e de prática de sua fé. As mortes nos centros de detenção continuam a aumentar, tornando este ano o mais mortal na história de detenção do ICE — disse.

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Omar Artan
Omar Abdulkadir Artan, árbitro somali eleito melhor da África em 2025, foi barrado pelos EUA e não atuou na Copa do Mundo (Foto: Reuters/Folhapress)

Noroña afirmou que houve uma onda sem precedentes de operações do ICE nos EUA, com a detenção de até 10.000 pessoas em um período de apenas cinco dias em julho, o que culminou em tiroteios fatais envolvendo imigrantes e agentes do ICE em Houston (Texas) e Biddeford (Maine).

— Enquanto o mundo estava fascinado com as fases eliminatórias, o governo dos EUA conduzia uma escalada aterrorizante de ações militarizadas de controle migratório longe das luzes dos estádios. Não podemos permitir que esse padrão de violência sistêmica, perpetrado por um país-sede da Copa do Mundo, seja mascarado pelo esporte e esquecido. Lorenzo Salgado Araujo e Johan Sebastian Guerrero deveriam estar vivos; seus países de origem, México e Colômbia, deveriam estar celebrando o desempenho de suas seleções nacionais, em vez de lamentar a perda de seus cidadãos pelas mãos do ICE. São algumas das práticas mais cruéis e desumanas anti-imigração que já vimos.

Vista grossa para abusos sexuais

Andrea Florence, diretora da Sport & Rights Alliance, trouxe também o debate sobre a participação de jogadores que enfrentam processos criminais em curso ou graves acusações de violência sexual. Ela afirmou que, embora o Código de Conduta Antidiscriminação e de Salvaguarda da Fifa determine que jogadores e dirigentes devem declarar qualquer investigação ou condenação por crimes sexuais ou outros atos de violência, não se sabe se a entidade tomou alguma medida em decorrência disso. Minky Worden, da Human Rights Watch, ressaltou que "esta foi a primeira Copa do Mundo disputada com pelo menos sete jogadores que enfrentavam queixas policiais ou acusações de abuso sexual".

— É hora de a FIFA finalmente levar a sério o problema generalizado de abusos no esporte. Sobreviventes estão exigindo que as entidades esportivas ouçam as pessoas afetadas, comuniquem-se de forma transparente e implementem uma política clara e consistente, que reconheça o impacto de oferecer uma plataforma global a atletas acusados ​​de crimes sexuais.

As críticas também se estenderam ao tratamento às comunidades LGBTQIA+. De acordo com Lily Dong Li Rosengard, especialista sênior em identidade de gênero da Ilga World, o governo de Donald Trump implementou políticas hostis e a Fifa pouco fez para cumprir sua promessa de fazer da Copa do Mundo nos EUA uma festa da inclusão.

— Devido a políticas de imigração hostis a pessoas trans e à crescente retórica e políticas anti-LGBT em todos os EUA, inúmeros torcedores de futebol que sonhavam em assistir à Copa do Mundo tiveram de tomar a decisão dolorosa de ficar em casa. A Fifa prometeu uma celebração da diversidade e da inclusão, mas fez muito pouco para tornar isso realidade.

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Ronan Evain, diretor executivo da Football Supporters Europe, entidade que representa os torcedores no continente europeu, criticou o tratamento diferenciado a torcedores de outras localidades.

— Com base em nosso monitoramento, reunimos poucas ou nenhuma evidência de torcedores da África e da Ásia que tenham de fato obtido vistos para vir aos Estados Unidos. O público diversificado era composto quase inteiramente por comunidades locais da diáspora ou por pessoas com dupla cidadania que não precisavam de visto para comparecer, o que mascara as falhas da Fifa em garantir uma Copa do Mundo que realmente incluísse o mundo todo. Foi uma recepção reservada a um grupo privilegiado. Europeus, noruegueses, escoceses, que dispõem de poder aquisitivo para viajar aos EUA, não precisam de visto, e têm condições de pagar os preços exorbitantes.

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Chefe de assuntos globais do Comitê de Proteção aos Jornalistas, Gypsy Guillen Kaiser, ressaltou dificuldades e desistências de jornalistas de diversos países para cobrir a Copa. E criticou o fato de confederações de futebol serem responsáveis por aprovar credenciamentos.

— Jornalistas não fazem parte das delegações dos países. Eles são totalmente independentes. Portanto, a ideia de que deveriam ser credenciados pelas associações nacionais de futebol é absurda e não deveria ser assim.

Kaiser também criticou o presidente da Fifa, Gianni Infantino, por se furtar a comparecer diante da imprensa e responder a questionamentos sobre os problemas da Copa.

— Faz muita diferença quando Infantino não realiza uma coletiva de imprensa, pois assim não há oportunidade de responder diretamente a perguntas críticas e bem fundamentadas dos jornalistas. Perguntas que abordam todas as questões levantadas pelos meus colegas aqui no painel. E isso é realmente problemático, porque a mensagem que se passa é: "Não presto contas a ninguém". A mensagem é: "Vou montar um espetáculo e tenho o controle do sportswashing".

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