André Luiz critica sumiço de laterais no Brasil e cobra mudanças na base
Ex-Seleção vê Brasil previsível sem laterais ofensivos, critica formação na base e cobra mudanças para a Copa de 2030.

O ex-lateral André Luiz fez um diagnóstico duro sobre a formação de jogadores no Brasil e apontou o desaparecimento dos laterais ofensivos como um dos sinais da queda técnica do futebol nacional. Em participação no Fut&Papo, na Casa Ronaldo, o ex-jogador comparou a concorrência de sua geração com o momento atual, criticou a transformação das categorias de base em "balcão de negócios" e afirmou que a Seleção Brasileira perdeu uma de suas principais forças: o jogo pelos lados.
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Para André Luiz, o Brasil deixou de produzir laterais com capacidade de marcar, apoiar, chegar à linha de fundo e participar da construção ofensiva. O ex-jogador lembrou que, em sua época, a disputa por uma vaga na Seleção era intensa.
— Na minha época, eram pelo menos seis laterais esquerdos: eu, Roberto Carlos, Serginho, Júnior, Zé Roberto, Athirson, Felipe. Para vestir a camisa da Seleção naquela época era muito difícil — disse André Luiz.
O ex-lateral também afirmou que a mudança no perfil dos jogadores tornou o Brasil mais fácil de ser marcado.
— Depois que o Brasil perdeu essa força pelos flancos, acabou virando um time previsível. Faz muitos anos que você não vê isso. Depois de Roberto Carlos, Marcelo e Cafu, você não vê mais isso — completou.
André Luiz vê Brasil sem força pelos lados
André Luiz destacou que o lateral brasileiro passou a ser tratado, em muitos casos, como um jogador limitado a cumprir função defensiva. Para ele, isso empobreceu o jogo da Seleção e reduziu o espaço para meias e atacantes criarem.
O ex-jogador citou sua experiência no São Paulo de Telê Santana para explicar a importância dos laterais no modelo de jogo. Segundo ele, Telê incentivava os dois lados a atacarem ao mesmo tempo, com cobertura dos volantes.
— O Telê falava para mim e para o Cafu: os dois apoiam ao mesmo tempo, não tem problema nenhum. O Dinho e o Pintado que se cuidem de fazer a cobertura — contou.
Na avaliação de André Luiz, a ausência desse tipo de jogador deixa o time dependente demais das ações individuais pelo meio. Sem laterais que ultrapassem, cruzem e criem amplitude, os adversários conseguem fechar os espaços com mais facilidade.
— O Brasil sempre teve uma força muito grande jogando pela lateral, esquerda ou direita, até para dar espaço para os atacantes e para os meias. Hoje, os caras fecham a casinha e você não consegue fazer nada — afirmou.

Críticas à base e à perda da criatividade
Além da posição de lateral, André Luiz ampliou a crítica ao processo de formação no futebol brasileiro. O ex-jogador afirmou que os clubes passaram a vender atletas muito cedo, o que impede jovens de criarem identificação, amadurecerem no profissional e construírem história.
— Hoje, os jogadores são vendidos da base com 13, 14, 15 anos. Ninguém joga mais no profissional, ninguém consegue fazer mais uma história no clube — disse.
Ele também apontou a tentativa de copiar o futebol europeu como um problema. Para André Luiz, o Brasil se afastou de características que sempre marcaram seus grandes times: improviso, drible, alegria e capacidade de decidir no um contra um.
— Estão querendo fazer do futebol brasileiro o futebol europeu, tirando a criatividade, tirando a alegria do jogador, do atacante, tirando aquele jogador que gosta de driblar — declarou.
O ex-lateral defende que disciplina tática e liberdade criativa não são ideias opostas. Para ele, a Seleção precisa ter organização, mas sem engessar seus melhores jogadores.
São Paulo de Telê como referência
André Luiz também relembrou o início no time profissional do São Paulo, em 1993, sob o comando de Telê Santana. O ex-jogador contou que foi promovido após se destacar nos treinos da base contra o elenco principal, realizados no CT da Barra Funda.
Segundo ele, Telê preparava as categorias de base de acordo com a forma de jogar do profissional, o que facilitava a transição dos jovens.
— O Telê era aquele treinador que olhava muito para a base e preparava a base de acordo com o que ele fazia no profissional. Quando o jogador subia, já entendia o perfil do time — explicou.
Na estreia como titular, contra o Bragantino, André Luiz recebeu uma orientação simples: defender bem e, quando o time tivesse a bola, ultrapassar pelo lado para receber de Müller.
— Ele falou: você vai marcar bem e, quando a gente tiver a posse, o Müller vai receber a bola e você vai fazer overlapping*. Ninguém vai antecipar o Müller — contou. O primeiro gol da vitória por 2 a 0 saiu justamente de um cruzamento de André Luiz para Raí.
*Overlap (ou overlapping) no futebol é uma jogada tática de ultrapassagem em que um jogador sem a bola corre por trás de um companheiro que está com a posse dela para criar uma opção de passe e desorganizar a defesa.
Ancelotti, Guardiola e a Copa de 2030
Questionado sobre o futuro da Seleção, André Luiz disse acreditar em recuperação no ciclo até a Copa do Mundo de 2030, mas condicionou isso a mudanças internas. A CBF renovou o contrato de Carlo Ancelotti até o Mundial de 2030.
O ex-lateral elogiou Ancelotti, mas afirmou que comandar seleção é diferente de trabalhar em clube. Para André Luiz, o Brasil precisa de um treinador com autoridade para blindar o ambiente, organizar o trabalho e dar padrão de jogo.
Ele citou Pep Guardiola como o nome que teria perfil para recuperar o protagonismo brasileiro.
— O único que pode chegar ao Brasil hoje e dar um padrão de jogo para ser dominante, atacar, ter a bola e pôr medo novamente no adversário é o Guardiola — afirmou.
Apesar das críticas, André Luiz vê talento suficiente para o próximo ciclo. Ele citou Endrick, Estêvão, Rodrygo, Vini Jr e Bruno Guimarães como peças importantes para reconstruir a Seleção.
— A esperança o brasileiro sempre tem. Se fizer um trabalho bem-feito, consistente, com humildade, dureza e escolhendo as pessoas certas, o Brasil pode ter um grande papel em 2030 — concluiu.
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