'Caçador' do Palmeiras, Paulinho quebra tabus e levanta a voz contra a intolerância religiosa
Atacante explica o significado da tradicional comemoração e reforça a importância do respeito à liberdade religiosa

"Okê Arô, meu Pai Oxóssi. Okê Arô". Mais do que uma saudação a Oxóssi, orixá nas religiões de matrizes africanas, como a Umbanda e o Candomblé, a comemoração representa a fé de Paulinho. Repetida após os gols marcados pelo Palmeiras, assim como o gesto de puxar uma flecha imaginária, ela se tornou uma marca do camisa 10 e um símbolo da identidade que o atacante nunca escondeu.
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É justamente por essa escolha de viver a própria crença de forma pública dentro de campo que o jogador também decidiu falar, mais uma vez, sobre intolerância religiosa e respeito. E também da importância de manifestar a sua fé diante de todos, na tentativa de acabar com preconceitos e também quebrar tabus.
— Para nós é uma filosofia de vida muito particular, muito pessoal mesmo, mas que de alguma forma precisava ser mostrada para o mundo, não digo que comigo, mas de alguma forma as pessoas precisavam conhecer um pouco mais, e acho que precisam ainda. As pessoas conhecem muito de forma superficial e precisam conhecer mais pelo tanto de preconceito que a gente sofre — disse Paulinho durante entrevista à TV Palmeiras.
Na crença iorubá, o orixá foi um grande rei da cidade de Ketu (no atual Benim), e na Umbanda é o chefe da falange espiritual dos Caboclos. Odé ou Oxóssi é o senhor da caça, da floresta, da fartura e do conhecimento. E Paulinho faz seu papel de ajudar a "desmistificar" de forma natural, como ele mesmo diz.
— Quando realmente mostraram para o mundo qual era a minha religião, foi algo de muita naturalidade da minha parte. Muitas pessoas no futebol já sabiam, só que a imprensa não sabia, e teve a repercussão que teve. Então, quando eu fiz a comemoração na Olímpiada, no primeiro gol contra a Alemanha, fiz a flecha, e o narrador era o Gustavo Villani. Então ele fala que foi "para Exu aplaudir" — relembra Paulinho, citando a narração daquele gol, nas Olimpíadas de Tóquio, em 2021.

— Eu tinha escrito uma carta para uma revista contando minha história e da minha parte religiosa e algumas pessoas já sabiam. Na Olimpíada que todos ficaram sabendo o que eu realmente seguia, que minha família seguia... e foi de extrema importância. Ali eu vi que a gente estava precisando mesmo mostrar para a galera que tinha que acabar com aquele preconceito que a gente sofre até hoje — completou Paulinho, que sempre está com sua Guia (fio sagrado de proteção) de cor azul clara - que representa Oxóssi - no pescoço.
Exu, também sempre citado por Paulinho, é uma divindade fundamental nas religiões afro-brasileiras. Ele é o mensageiro divino, o guardião dos caminhos e o princípio de tudo que dá movimento à vida. Ele conecta o mundo humano ao espiritual.
Em razão de expressar livremente sua crença, o jogador chegou a ser alvo de intolerância religiosa muitas vezes, principalmente na época da Seleção Olímpica. Depois, quando defendeu o Atlético-MG, voltou a ser alvo de preconceito, principalmente nas redes sociais.
Na ocasião, em 2023, o clube mineiro chegou a fazer uma publicação defendendo o atacante e repudiando os ataques sofridos pelo atleta, que começou a receber muitas mensagens de ódio em razão de sua fé.
— Força, Paulinho. Que sua fé te proteja da maldade alheia — dizia um trecho da publicação, que também lembrou que intolerância religiosa é crime.
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Paulinho e o Candomblé
A mãe de Paulinho, Ana Christina, já contou em entrevistas que o jogador teve seu contato mais próximo com a religão aos 17 anos, quando se iniciou no Candomblé. E foi por amor, por querer se descobrir e buscar a espiritualidade, segundo a matriarca da família.
O ato de se ajoelhar para fazer a comemoração de arco e flecha está diretamente ligada à ancestralidade e à força da fé que Paulinho carrega, transformando a celebração do gol em um símbolo de resistência e respeito à liberdade de expressar sua religião.
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