Luiz Gomes: 'É preciso que se cumpram os protocolos estabelecidos para combater o racismo no futebol'
'É preciso que o assunto seja tratado como tem de ser, como um crime, com uma legislação que se aplique além do futebol'

Ainda sobre o tema do racismo.
Dessa vez, o meia Fred foi a vítima, hostilizado com palavrões, objetos jogados da arquibancada e gestos que imitavam macacos, quando se preparava para cobrar um escanteio na vitória do United sobre o City no clássico de Manchester pela Premier League.
Nada de novo até aqui. Nada diferente do que aconteceu com Taison e Dentinho, que atuam pelo Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, no jogo contra o Dínamo de Kiev, no mês passado. Ou do que tem se visto também na Itália, na Turquia e, principalmente em outros países do Leste Europeu. A novidade foi a prisão pela polícia inglesa, menos de 24 horas depois da partida, de um dos suspeitos da agressão a Fred. Chris Hill, superintendente da divisão que executou a prisão, deu o tom da ação: "Qualquer tipo de racismo não tem lugar no futebol ou em nossa sociedade e espero que essa prisão mostre que estamos levando esse assunto extremamente a sério", afirmou.
A fala do policial britânico é alvissareira. O momento é de decisão. De notas oficiais de clubes e confederações repudiando atos discriminatórios e prometendo providências para punir os responsáveis o mundo já está cheio. É preciso, simples assim, partir efetivamente para ação. É preciso que se cumpram os protocolos estabelecidos para combater o racismo no futebol e que se abandone de vez a contemporização com fatos desse tipo. É preciso que o assunto seja tratado como tem de ser, como um crime, com uma legislação que se aplique além do futebol.
Ou se faz isso agora ou a coisa vai sair de controle num mundo, fora de campo, cada vez mais contaminado pelas ideologias retrógradas e xenófobas de governantes de ocasião. É preciso radicalizar.
No confronto dos Manchesters foi inadmissível o comportamento do árbitro desprezando as determinações que a Uefa criou e que deveriam ser aplicadas em todo o continente, mesmo nos jogos das ligas nacionais. Ou seja: um aviso pelo sistema de som do estádio, a interrupção da partida e sua suspensão em caso de continuidade das agressões. O que vai acontecer com esse tolerante senhor do apito?
Ora, se a Uefa não consegue cumprir seus próprios protocolos que a Fifa intervenha. Que a própria Uefa, e no caso a Premier League, sejam punidas, então. Que as determinações passem a ser globais, passem a valer como regra tão obrigatórias quanto as regras do jogo. Sim, pois a prática do racismo não é um problema apenas europeu, é corriqueiro do lado de cá do Oceano Atlântico, especialmente em jogos da Libertadores. E aqui no Brasil, que se diga, também estamos longe de nos ver livres dessa praga.
O que fazer? Punir, punir e punir. Multas e a perda de um ou dois mandos de campo e a exigência de jogos com portões fechados não têm se mostrado efetivos. Não basta ameaçar, tem de se paralisar de fato os jogos em que houver manifestação racista. E, qualquer que seja o resultado de momento em campo, o time do torcedor infrator deve perder os pontos. E, se a federação de algum país não se adequar, que também ela seja punida com o impedimento de participar de competições internacionais, seja de seleções ou de clubes.
Na década de 1980, a Inglaterra teve seus clubes suspensos por até seis anos das competições internacionais por conta da ação dos hooligans. A tragédia de Bruxelas acabou com 39 pessoas mortas na final da Champions de 1985 entre Liverpool e Juventus e mudou o futebol para sempre. Com vontade política, reforma dos estádios, leis mais severas e um trabalho permanente de inteligência os ingleses conseguiram domar o vandalismo quando a situação parecia incontrolável. É de algo semelhante – e tão rigoroso quanto - que o futebol precisa agora contra o racismo. Não apenas no reino de Elisabeth mas por todo o planeta bola.

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