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O que explica as campanhas perfeitas de Argentina, França e México na Copa do Mundo

Seleções chegam ao mata-mata com 100% de aproveitamento

PorThiago BragaSão Paulo (SP)
29/06/2026 08:00
Messi comemora gol da Argentina sobre a Jordânia na Copa do Mundo
Messi comemora o terceiro gol da Argentina sobre a Jordânia, o seu 19º na história das Copas (Foto: Paul Ellis/AFP)

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A fase de grupos da Copa do Mundo de 2026 terminou e nenhuma seleção apresentou desempenho tão consistente quanto Argentina, França e México. Em um torneio ampliado para 48 seleções, era de se esperar que os favoritos tivessem um caminho facilitado. Não foi o que aconteceu. Apenas três equipes conseguiram atravessar os três jogos iniciais com aproveitamento perfeito, com três vitórias nos três jogos.

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A Argentina mantém a força do atual campeão mundial e continua impulsionada por um Lionel Messi que amplia recordes a cada partida. A França reúne o ataque mais eficiente do torneio e revive números ofensivos que o país não alcançava desde 1958. O México construiu uma campanha baseada na força coletiva, na solidez defensiva e na comunhão criada com sua torcida em um Mundial disputado em casa.

Os atuais campeões do mundo, os vice-campeões de 2022 e os mexicanos tiveram 100% de aproveitamento, mas agora precisam superar um desafio que nenhuma seleção consegue desde o Brasil de 2002. A seleção do penta ganhou todas as sete partidas.

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Mbappé comemora gol pela França com Olise (Foto: FRANCK FIFE / AFP)
Mbappé comemora com Olise: um é o artilheiro da França, o outro, o garçom (Foto: FRANCK FIFE / AFP)

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Argentina e França voltam a ocupar o centro das atenções depois de protagonizarem a decisão da última Copa do Mundo, disputada no Catar. Naquela oportunidade, os argentinos conquistaram o tricampeonato mundial ao vencerem nos pênaltis, depois de empate por 2 a 2 no tempo regulamentar e igualdade por 1 a 1 na prorrogação.

Quatro anos mais tarde, as duas seleções voltam a apresentar desempenho dominante desde o início da competição. O México completa esse grupo seleto impulsionado por um contexto particular. Uma das sedes do Mundial, a equipe comandada por Javier Aguirre transformou o apoio popular em combustível para construir uma campanha segura, consistente e sem sofrer um único gol.

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Argentina: todos ao redor de Messi

A Argentina encerrou a fase de grupos reafirmando a impressão deixada desde a conquista do título no Catar: a estrutura montada por Lionel Scaloni continua funcionando com naturalidade, independentemente das mudanças promovidas durante os jogos.

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Líder do Grupo J com nove pontos, a seleção venceu Argélia por 3 a 0, superou a Áustria por 2 a 0 e fechou a campanha derrotando a Jordânia por 3 a 1, resultado conquistado mesmo depois de o treinador promover nove alterações na equipe titular. Com a liderança assegurada, Lionel Messi começou no banco de reservas e entrou apenas na etapa final. Bastaram vinte minutos para alterar novamente a história da competição.

Scaloni conversa com Messi durante pausa para hidratação em Argentina x Jordânia, na Copa do Mundo
Scaloni conversa com Messi durante pausa para hidratação em Argentina x Jordânia, na Copa do Mundo (Foto: David Ramos/AFP)

A cobrança de falta convertida aos 80 minutos representou muito mais do que o sexto gol do camisa 10 na disputa pela artilharia. Messi tornou-se o primeiro jogador da história a marcar em sete partidas consecutivas de Copa do Mundo, superando a sequência de seis jogos registrada por Just Fontaine, em 1958, e Jairzinho, em 1970. Aos 39 anos, o capitão argentino ainda lidera a corrida pelo prêmio de goleador do torneio depois de marcar três vezes contra a Argélia, duas diante da Áustria e mais uma diante da Jordânia.

Os recordes coletivos acompanham o desempenho individual de seu principal jogador. A Argentina chegou a nove partidas consecutivas sem derrota em Copas do Mundo, sequência formada por sete vitórias e dois empates, e tornou-se apenas a terceira seleção da história a alcançar cinquenta triunfos em Mundiais, marca superada apenas por Brasil e Alemanha. A equipe também tenta quebrar outro jejum histórico. Desde o Brasil bicampeão em 1962, nenhuma seleção consegue conquistar duas Copas do Mundo consecutivas.

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Controle no meio-campo com toques curtos

Os números ajudam a explicar essa regularidade. A equipe argentina soma 1.966 passes na competição, média de 655,3 por jogo, com 1.788 passes certos e aproveitamento elevado na circulação da bola. Números explicados pelo estilo de jogo implantado por Scaloni, com um meio-campo combativo e habilidoso, formado por De Paul, McAllister e Enzo Fernandez, que formam uma espécie de losango com Messi e Almada. Ao contrário de várias seleções, a Argentina não joga com pontas abertos e concentra a sua força nesse controle do meio-campo e da aproximação dos jogadores, com toques curtos. Mas de vez em quando, acelera o jogo, acionando a velocidade de Lautaro Martinez.

Os argentinos marcaram oito gols, média de 2,7 por partida, finalizaram 35 vezes, sendo 15 chutes na direção do gol, produziram vinte conclusões dentro da área e quinze de média distância. O controle emocional também aparece nas estatísticas disciplinares. Foram apenas dois cartões amarelos e nenhuma expulsão ao longo das três partidas.

A profundidade do elenco reforça a candidatura argentina. Apenas um jogador convocado ainda não estreou em Copas do Mundo, justamente o terceiro goleiro. A partida diante da Jordânia mostrou que mesmo com ampla rotação do elenco, a seleção manteve organização, intensidade e controle das ações. Agora, enfrentará Cabo Verde na fase de mata-mata, em Miami, carregando o favoritismo natural diante da estreante africana.

França: ataque recordista

Se a Argentina se apoia na liderança de Messi, a França impressiona pela força ofensiva apresentada desde a estreia. Os comandados de Didier Deschamps encerraram a primeira fase com dez gols marcados, desempenho que remete imediatamente à geração de Raymond Kopa e Just Fontaine na Copa da Suécia, em 1958. Naquela edição, os franceses balançaram as redes onze vezes nos três primeiros jogos. O grupo atual aparece logo atrás, com dez gols, melhor início ofensivo do país em um grande torneio desde então.

Dembélé, com a camisa branca da França, aponta para a própria cabeça na comemoração de um dos gols contra a Noruega
Dembélé marcou um hat-trick no primeiro tempo de França x Noruega (Foto: JUSTIN SETTERFIELD / GETTY IMAGES)

A comparação ganha ainda mais relevância porque a França vinha apresentando desempenhos bem mais discretos nas fases de grupos recentes. Em 2018, quando conquistou o título mundial, marcou apenas três gols nos três primeiros jogos. No Catar, em 2022, terminou essa etapa com seis gols. Nesta edição, ultrapassou a soma das duas campanhas ao alcançar dez gols em apenas três partidas.

O desempenho coletivo explica essa evolução. Pela primeira vez em um torneio internacional sob o comando de Deschamps, a França marcou em todas as três partidas iniciais. A equipe derrotou Senegal na estreia, goleou o Iraque e encerrou a campanha vencendo a Noruega por 4 a 1. O resultado confirmou o primeiro lugar do Grupo I e colocou os franceses diante da Suécia na segunda fase, terça-feira, em Nova York.

O ataque concentra boa parte desse protagonismo. Kylian Mbappé marcou quatro gols. Ousmane Dembélé repetiu a mesma marca e chega ao mata-mata embalado por marcar três gols em apenas 25 minutos diante da Noruega. Bradley Barcola e Désiré Doué também deixaram suas marcas. Michael Olise ainda não balançou as redes, embora apareça entre os principais garçons da Copa, com três assistências. Mbappé distribuiu duas, enquanto Dembélé e Barcola contribuíram com um passe para gol cada. Entre os meio-campistas, apenas Aurélien Tchouaméni e Adrien Rabiot aparecem na lista de assistentes, com uma assistência cada, reforçando o peso decisivo do setor ofensivo.

As estatísticas confirmam essa superioridade. A França lidera entre as equipes invictas com 48 finalizações, média de dezesseis por partida. Foram vinte e duas conclusões na direção do gol, vinte e oito finalizações realizadas dentro da área e 44 cruzamentos, o maior número entre as três seleções com campanha perfeita. A equipe também demonstra controle disciplinar, registrando apenas um cartão amarelo e nenhuma expulsão.

Embora tenha sofrido dois gols na fase de grupos, o conjunto transmite segurança em praticamente todos os setores do campo. O volume ofensivo reduz o tempo em que a defesa permanece sob pressão e ajuda a explicar por que os Bleus chegam ao mata-mata apontados entre os principais candidatos ao título.

Mexicanos dançam e celebram nas ruas da capital a vitória sobre a Tchéquia: 100% de aproveitamento (Foto by Claudia Rosel / AFP)

México se apoia na força defensiva e na torcida

O México percorreu um caminho diferente. A equipe não apresenta o poder ofensivo da França nem a posse de bola da Argentina, embora tenha construído uma campanha marcada por organização coletiva, equilíbrio defensivo e um ambiente de enorme identificação entre elenco e torcida.

Javier Aguirre conseguiu consolidar um grupo experiente, no qual praticamente todos os jogadores já viveram experiências internacionais importantes, e a construção de uma identidade coletiva tornou-se prioridade desde o início do ciclo.

O México venceu a Tchéquia por 3 a 0 e seguiu invicta na Copa do Mundo
O meia Edson Álvarez comemora a classificação invicta do México para o mata-mata da Copa do Mundo (Foto: Alfredo ESTRELLA / AFP)

A seleção encerrou a primeira fase com três vitórias, seis gols marcados e nenhum sofrido. Trata-se da única equipe da Copa que atravessou toda a fase de grupos sem ser vazada. O desempenho defensivo sustenta uma campanha construída com menos brilho ofensivo do que França e Argentina, embora igualmente eficiente.

Os dados mostram diferenças interessantes entre as três campanhas. O México trocou 1.373 passes, média de 457,7 por partida, número inferior aos registrados pelos outros invictos. Finalizou exatamente 35 vezes, mesma quantidade da Argentina, produziu treze chutes no alvo e concentrou vinte e três finalizações dentro da área. Também lidera em cobranças de lateral, com cinquenta e oito, indicador que ajuda a entender uma equipe acostumada a explorar amplitude e intensidade física.

A campanha mexicana representa algo maior do que uma sequência de resultados positivos.

Nas ruas do país, a classificação provocou uma mobilização rara. Mais de 400 mil pessoas reuniram-se ao redor do Anjo da Independência para celebrar o desempenho da equipe. A festa rapidamente deixou de simbolizar apenas a passagem para o mata-mata. Transformou-se na manifestação de um sentimento coletivo alimentado pela condição de país-sede e pela percepção de que a seleção finalmente atua como um conjunto sólido, capaz de competir em igualdade com adversários tradicionais.

O México agora terá pela frente o Equador, na Cidade do México, tentando transformar o apoio das arquibancadas em vantagem esportiva durante a fase eliminatória.

Vista aérea da praça Anjo da Independencia, na Cidade do México, mostra uma multidão de torcedores celebrando a vitória da seleção
Vista aérea da praça do Anjo da Independencia, na Cidade do México, mostra multidão de torcedores celebrando a vitória da seleção (Foto Claudia Rosel / AFP)

A "maldição" do Brasil

A presença de Argentina, França e México entre os únicos donos de campanhas perfeitas também desperta uma curiosidade histórica. Desde a Copa do Mundo de 2002, nenhuma seleção que venceu os três jogos da fase de grupos conseguiu levantar o troféu. O último país a quebrar essa lógica foi justamente o Brasil pentacampeão, que derrotou Turquia, China e Costa Rica antes de conquistar o título na Coreia do Sul e no Japão.

Desde então, todas as campanhas perfeitas terminaram antes da consagração. A Espanha caiu nas quartas em 2002 e novamente em 2006. Alemanha terminou em terceiro em 2006. Portugal foi quarto colocado naquele mesmo Mundial. O Brasil parou nas quartas em 2006. A Argentina caiu nas quartas em 2010 e terminou como vice em 2014. A Holanda foi vice-campeã em 2010 e terceira colocada em 2014. A Bélgica alcançou quartas em 2014 e terceiro lugar em 2018. A Croácia terminou como vice em 2018. O Uruguai caiu nas quartas na Rússia. Nenhuma dessas seleções conseguiu repetir o feito brasileiro.

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O retrospecto não altera o favoritismo construído por Argentina e França nem reduz o entusiasmo mexicano. Apenas reforça que a Copa do Mundo costuma mudar de natureza quando começam os confrontos eliminatórios. A margem para recuperação desaparece, os detalhes ganham peso decisivo e campanhas impecáveis deixam de oferecer qualquer vantagem prática.

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