Como Ancelotti aprendeu português, cantou o hino na Copa e conquistou a torcida
Treinador fez questão de ter uma imersão na cultura brasileira

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Antes do segundo compromisso do Brasil na Copa do Mundo, as câmeras encontraram Carlo Ancelotti no banco de reservas. Enquanto o hino brasileiro era executado, o treinador acompanhava a melodia e articulava as palavras em português. Não era uma repetição mecânica de sílabas decoradas. Havia familiaridade suficiente para seguir a letra do começo ao fim. A cena surpreendeu parte do público. Para Roberto Piantino, porém, ela apenas confirmava um traço que conheceu de perto ao longo de meses de convivência: quando decide aprender alguma coisa, Ancelotti transforma a tarefa em rotina.
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O professor de português do treinador italiano faz uma ressalva logo de saída. A iniciativa de decorar o hino nunca partiu dele. Foi uma escolha do próprio comandante da Seleção Brasileira, movido pelo mesmo comportamento que o acompanhou em praticamente todos os países onde trabalhou.
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A preparação de Ancelotti para assumir a Seleção nunca ficou restrita aos treinos, às observações de jogadores ou às reuniões na CBF. Desde os primeiros dias no cargo, o italiano passou a reservar parte da agenda para estudar português. Era uma extensão natural da maneira como encara cada novo desafio. Entre a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde passou a viver perto da sede da CBF, e Vancouver, no Canadá, cidade em que mantém residência com a esposa, o idioma ganhou espaço na rotina ao lado das análises de adversários, das convocações e das viagens.
Ancelotti buscou aprender português
O contato entre professor e treinador começou pouco depois da partida entre Brasil e Paraguai, em Itaquera. Dois dias depois do jogo, eles conversaram por telefone pela primeira vez. Ancelotti avisou que faria uma breve pausa depois de uma sequência intensa de compromissos. Havia deixado o Real Madrid diretamente para assumir a Seleção, praticamente sem férias. Combinou que retomariam o assunto algumas semanas depois. Quando as aulas começaram, Piantino descobriu que o aluno já estudava sozinho por aplicativos.
— Ele sempre foi muito simpático, muito solícito e muito dedicado. Você vê que não partiu de mim a questão do aprendizado do hino. Foi ele quem fez questão de aprender. É um cara que faz questão de demonstrar interesse e respeito pela nossa cultura, por meio da língua, do conhecimento sobre fatos culturais do país. E isso não acontece só aqui. Sei que, quando foi para o Bayern de Munique, ele também fez aulas de alemão. Ele morava em Vancouver naquele período sabático. Nessa época, fez aulas de alemão em uma universidade de Vancouver e me contou que achou a língua bem complicada — conta Piantino.
A disciplina aparecia desde os primeiros encontros. O formato variava entre videoconferências e aulas presenciais, dependendo da agenda da Seleção, mas a dedicação permanecia a mesma. Em pouco tempo, as conversas deixaram de girar apenas em torno de gramática, pronúncia e vocabulário. O futebol naturalmente ocupava espaço.
Fluente em italiano, espanhol, francês, alemão e inglês, Ancelotti encontrava no português algumas armadilhas curiosas, principalmente na pronúncia e nas expressões típicas do Brasil. Ainda assim, segundo Piantino, o idioma nunca foi tratado apenas como uma ferramenta prática de comunicação. Aprender português significava compreender melhor o ambiente que passaria a representar.
A disposição para mergulhar na cultura local não surgiu pela primeira vez no Brasil. Em cada passagem por um novo país, Ancelotti procurou aprender a língua do lugar, ainda que já pudesse se comunicar em outros idiomas.
O comportamento também se refletia nas aulas. Em vez de encontros protocolares, as conversas frequentemente se estendiam para temas ligados ao futebol, à cultura brasileira e às experiências acumuladas em décadas de carreira. O ambiente era suficientemente leve para que surgissem histórias de bastidores e comentários sobre o cotidiano da Seleção.
Aula de "cinema"
Foi nesse período que uma aula comum acabou registrando um momento pouco conhecido. Na Quarta-feira de Cinzas, em fevereiro, o encontro entre professor e aluno recebeu visitantes inesperados: a equipe responsável pelo documentário sobre a vida de Carlo Ancelotti.
— Não sei exatamente qual será o enfoque, mas o diretor é o Paolo Sorrentino, um dos maiores cineastas vivos hoje, também italiano. Nesse dia de aula, em fevereiro, na Quarta-feira de Cinzas, toda a aula foi gravada. Não sei se, no corte final do documentário, vai entrar essa parte dele fazendo aula, mas houve a gravação. Fizemos uma aula normal, nada encenado — recordou Piantino.
O episódio parece combinar com outro interesse antigo do treinador. Admirador de cinema, Ancelotti já contou em diferentes ocasiões histórias ligadas ao universo cinematográfico italiano. O documentário dirigido por Paolo Sorrentino, portanto, aproxima duas paixões do técnico: o futebol e a sétima arte.
A rotina de estudos acabou envolvendo também a família. A esposa do treinador participou de algumas aulas, embora os compromissos profissionais tenham impedido a continuidade.
— A esposa dele chegou a fazer aulas comigo também, no fim do ano passado. Não continuou por causa da agenda, muitas viagens de trabalho, então ficou difícil conciliar os horários. Mas ela fez algumas aulas, e isso também me indicava, tanto por parte dele quanto dela, o interesse em dar sequência ao trabalho. Mesmo sem ele nunca ter me confidenciado nada sobre uma possível renovação de contrato, eu já sentia que a coisa seguiria, porque era um trabalho muito mais tranquilo do que ele tinha nos clubes anteriores, com treino diário, contato constante com imprensa, dirigentes, toda aquela rotina mais desgastante. Lendo nas entrelinhas, eu já imaginava que muito provavelmente ele renovaria, como realmente aconteceu — afirmou o professor.

Nas aulas, a gramática dividia espaço com assuntos bem mais sensíveis. Piantino conta que, em determinados momentos, Ancelotti comentava possibilidades de convocação antes mesmo de elas se tornarem públicas. O professor nunca revelou nomes e transformou o compromisso com o sigilo em parte da relação de confiança construída entre os dois.
— Tirando o que eu já tinha contado naquela matéria de novembro, a gente conversava muito durante as aulas, não apenas sobre questões linguísticas, mas também sobre futebol. Conversávamos bastante sobre jogadores, inclusive vários que hoje estão convocados. Às vezes ele comentava: "Acho que vou chamar o jogador tal". Numa dessas ocasiões, depois ele até brincou comigo: "Você está sabendo coisas que os jornalistas não sabem". Na convocação seguinte, aquele jogador realmente apareceu na lista. Não está na Copa hoje, mas foi convocado naquela época. Ele era bem aberto para falar dessas coisas. Indiretamente, até agradeço pela confiança que ele depositava em mim, sabendo que eu jamais revelaria esses detalhes específicos nem citaria nomes. Eu até brincava dizendo que a aula era como um confessionário: ele podia falar tranquilo porque nada sairia dali — disse Piantino.
"Não" às ordens
Entre os episódios que mais marcaram o professor, um deles surgiu durante uma atividade aparentemente simples. A proposta era estudar verbos no imperativo. A resposta de Ancelotti acabou oferecendo uma pequena janela para compreender sua forma de liderar.
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— Preparei uma aula sobre verbos no imperativo, para dar ordens, e ele fez a atividade normalmente, mas comentou: "Eu não me comunico assim. Não é meu estilo dar ordens de forma direta". Na hora pensei: faz todo sentido. Pela convivência que tive com ele e por tudo que li nos livros dele — só não li o mais recente, lançado no fim do ano passado —, essa característica aparece o tempo todo — explicou o professor.
A observação ajuda a explicar a imagem construída por Ancelotti ao longo da carreira. Em vez de um treinador conhecido por discursos inflamados ou cobranças públicas, consolidou a reputação de gestor capaz de ouvir antes de decidir.
Para Piantino, contudo, o desafio não era apenas ensinar. Havia também a responsabilidade de lidar com um personagem que acompanhava desde a adolescência.
— Eu lembro que, na primeira vez em que falei com ele ao vivo, cara a cara, foi a única vez na minha vida, como professor, em que tremi. Fiquei nervoso por estar diante de um cara do tamanho dele. Sempre fui fã. Não era uma situação fria, de alguém que desconhecia a importância dele. Eu acompanhei o fim da carreira dele como jogador. Era fanático pelo futebol italiano, pelo Milan daquela época. Assistia aos jogos no fim dos anos 1980 e começo dos anos 1990. Depois acompanhei toda a carreira dele como treinador. Eu já seguia muito de perto o futebol europeu e jamais passou pela minha cabeça que um dia teria a oportunidade de trabalhar com uma pessoa da importância dele. No começo, isso me emocionou muito. Depois vira rotina. Você passa a conversar com a pessoa toda semana e tudo fica mais natural. Mas aqueles primeiros momentos foram de muita emoção e muito orgulho por ter trabalhado com ele.
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Quando Ancelotti apareceu cantando o hino brasileiro diante das câmeras, muita gente enxergou apenas um gesto simbólico. Para quem acompanhou de perto o processo de adaptação do treinador, era apenas a continuação de um hábito cultivado em silêncio, aula após aula, palavra após palavra, dentro da mesma lógica que levou o treinador a aprender idiomas por onde passou: antes de dirigir uma equipe, Carlo Ancelotti procura compreender o lugar que escolheu representar.
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