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Empresa que vigia manipulação na Copa do Mundo vê 'risco muito baixo'

Responsável por monitorar apostas na América do Sul crê que nova agência da PF aumentará eficiência de investigações

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Vicente Seda
Rio de Janeiro (RJ)
Dia 07/06/2026
10:00
Especialista vê baixo risco de manipulação em jogos da Copa do Mundo (Imagem gerada por IA)
imagem cameraAlta vigilância torna remota a chance de manipulação de resultados na Copa do Mundo (Imagem gerada por IA)

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A manipulação de resultados atualmente já é combatida com monitoramento ostensivo do mercado de apostas nas principais competições do planeta. Para a Copa do Mundo, a responsável por essa vigilância é a SportRadar, que tem contrato com a Fifa e também cuida na América do Sul dos campeonatos organizados por CBF e Conmebol. O responsável pela operação da empresa na América Latina, Felippe Marchetti, vê um risco muito baixo para a competição que se inicia no próximo dia 11.

Só existe um caso relacionado a Copas do Mundo de manipulação de resultados comprovada. Ocorreu em 2016, nas Eliminatórias africanas para a Copa de 2018 na Rússia. Na ocasião, o árbitro Joseph Lamptey marcou um pênalti inexistente na vitória da África do Sul sobre o Senegal por 2 a 1. Identificada a fraude, a partida foi repetida, com vitória de Senegal, que então assegurou a classificação para o Mundial.

— Ele marca um pênalti aos 40 minutos do primeiro tempo para a África do Sul, mas a bola bate no joelho do Koulibaly, não na mão. Esse é um exemplo que a gente usa nos treinamentos, quando a gente explica como é que funciona o nosso monitoramento. Esse jogo foi detectado pela SportRadar na época no mercado de total de gols do primeiro tempo. Foi detectado que tinha entrado um volume anormal de apostas ali. E, como não saía o gol, o árbitro vai lá e marca esse pênalti. Aí depois tem uma investigação da Fifa e das autoridades, e se constata que o árbitro estava envolvido — lembrou Marchetti.

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Gráfico gerado por IA com dados de relatório anual da SportRadar
Imagem gerada por IA com dados da SportRadar sobre manipulação de resultados no mundo

Com o avanço do monitoramento no futebol, é notória a migração de casos suspeitos de manipulação de resultados para outras modalidades, e o mercado ilegal de apostas pelo mundo ainda representa forte ameaça a torneios menos rentáveis, com atletas mal remunerados e, portanto, mais vulneráveis ao aliciamento. De acordo com relatório da SportRadar divulgado em fevereiro deste ano, o futebol ainda responde por 55% dos casos suspeitos de manipulação, mas de 2024 para 2025, por exemplo, há um aumento significativo em modalidades como basquete, tênis de mesa e críquete.

— Sempre vai existir risco. Enquanto a gente tem um mercado de apostas e tem um jogo de qualquer modalidade acontecendo, o risco sempre existe. Mas, se a gente fosse classificar, a Copa do Mundo é a que tem a menor probabilidade de acontecer uma manipulação por vários aspectos. É que nem se a gente for pensar na teoria básica do crime. Onde há maior propensão de acontecer o crime? Onde há maior vulnerabilidade, menor vigilância e atores mais suscetíveis a isso.

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Felippe Marchetti, gerente da Sportradar para a América Latina
Felippe Marchetti, gerente da SportRadar para a América Latina (Divulgação)

Além de a Fifa ter uma força-tarefa própria que envolve outras empresas além da SportRadar para essa vigilância, Marchetti explica que também pelo lado dos atletas, tanto em função do patamar financeiro quanto pelo desejo de disputar a competição, a possibilidade de serem aliciados fica ainda mais remota.

— A Copa do Mundo é o sonho de praticamente todo jogador de futebol. A maioria dos atletas que disputam a competição já está com uma condição financeira bem estabelecida na carreira. E a visibilidade que tem sobre as competições é muito grande, tem mais de 50 câmeras aí na partida que pegam cada detalhe. Cada gesto um pouquinho mais estranho do jogador vai ser analisado. Então, tem um nível de visibilidade e de supervisão realmente que é muito grande.

No Brasil, o número de casos suspeitos vem caindo com consistência nos últimos anos,, segundo Marchetti, e uma iniciativa recente pode mudar o jogo no que diz respeito à efetividade de investigação dos casos e condenação dos responsáveis. No mês passado, foi anunciada a criação de uma divisão especial da Polícia Federal para centralizar a distribuição de investigações e o fluxo de informação. A Base Apostas, nova força-tarefa, tem seu foco em combate à manipulação de resultados, lavagem de dinheiro e crimes financeiros, e contará, por exemplo, com especialistas em rastreamento financeiro e recuperação de ativos.

Grupo da PF facilitará fluxo de informação

Para Marchetti, o Brasil hoje tem uma das regulações mais robustas do mundo contra a manipulação de resultados e está no caminho para se tornar referência mundial no tema. E a criação da Base Apostas pode ser um divisor de águas no que diz respeito à punição dos responsáveis. Porém, de acordo com o site oficial da Polícia Federal, a princípio a estrutura funcionará somente por um ano, podendo posteriormente ser "prorrogada conforme avaliação da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção".

— A realidade que a gente via era de muita discussão para ver a questão de competência, quem ia investigar, se era Ministério Público, se era Polícia Federal, se era Polícia Civil. Não tinha uma troca de informação. Então, por exemplo, o jogo era manipulado lá no Espírito Santo e tinha um atleta que já estava jogando no Amapá. Não tinham uma conexão. Uma não sabia da investigação da outra, não trocavam informações. Não tinham informação sobre o histórico daquele atleta, conhecimento sobre como funciona o mercado de apostas, compreensão das informações dos relatórios. Dependia muito de para quem ia cair (a investigação) e também da capacidade operacional daquela delegacia ou daquele Ministério Público. E do interesse também. Tinha casos que acabavam sendo investigados, outros não, e agora, com a criação desse hub de inteligência, vai ficar muito mais fácil — explicou Marchetti.

Questionado sobre como é esse fluxo em relação aos casos no Brasil com a CBF, ele reforçou que, apesar de a entidade receber todos os relatórios de casos suspeitos, fica de mãos atadas no que diz respeito à apuração dos fatos e punição.

— Depende exclusivamente da investigação criminal. A CBF não pode simplesmente pegar o relatório e sair punindo. O relatório, na verdade, é o primeiro indício de manipulação baseado nas informações colhidas do mercado de apostas. Mas aí, para isso, para comprovar a fraude, precisa realmente de uma quebra de um sigilo telemático, sigilo bancário, de informações mais concretas para mostrar que realmente o crime se concretizou. Os relatórios já embasaram algumas condenações internacionais, mas aqui no Brasil se entende que precisa, sim, de uma investigação mais aprofundada para provar.

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Nos números gerais da América do Sul, de acordo com o relatório da SportRadar, houve uma queda relevante de casos suspeitos de 2024 para 2025: de 209 para 132 casos. Também foi notada redução na Europa e, em proporção bem mais modesta, na Ásia. O maior aumento do número de casos nesse mesmo período foi na África: de 51 jogos sob suspeita em 2024 para 98 no ano passado. A estatística das Américas Central e do Norte combinadas mostra crescimento de 31 para 44 casos suspeitos. No total mundial em 2025, foram 618 jogos de futebol sob suspeita.

— A gente estava com uma média de dois anos seguidos com mais de 150 casos no futebol do Brasil. A gente conseguiu baixar, e, no ano passado, foram 54. E, para este ano, a expectativa é ficarmos abaixo de 30. Talvez até menos. Então, é uma redução, no período de três anos, de quase 80% do número de casos (em 2023 foram 110 casos no total). Isso falando só do futebol. Hoje o Brasil já tem números, em termos proporcionais, melhores do que os números globais.

Brasil tem regulação robusta

Marchetti explicou também a migração para outras modalidades na América do Sul com o crescimento da vigilância no futebol. Afirmou que o basquete vem chamando a atenção do mercado ilegal de apostas.

— A gente vê um movimento acontecendo na América do Sul de migração do futebol para o basquete, em algumas competições, não só no Brasil. E é isso, quanto mais entidades vão tendo monitoramento, medidas educacionais, investigações da polícia, mais se consolida um ecossistema mais eficiente, a tarefa dos criminosos fica mais difícil — completou.

Sobre a questão da regulação de apostas esportivas no Brasil, Marchetti afirmou que o país tem tudo para se tornar referência mundial no assunto e já conta com uma das legislações mais robustas. Ele citou a portaria publicada em 2024 para prevenção à lavagem de dinheiro (Portaria SPA/MF Nº 1.143/2024).

— O Brasil tem uma das regulamentações mais robustas do mundo. Apesar de toda a questão política ao redor disso, que a gente sabe as motivações, mas o trabalho técnico que vem sendo feito, tanto pela Secretaria de Prêmios e Apostas quanto pelo Ministério do Esporte. Tem espaço para evoluir em alguns pontos, principalmente relacionados à integridade. Um exemplo: foi lançada recentemente uma portaria de prevenção à lavagem de dinheiro. Eu acho que, no futuro, um caminho natural seria o lançamento também de uma portaria de integridade, definindo quais são as métricas, o que é uma partida suspeita, quando o operador deve reportar para o governo, para melhorar esses fluxos de comunicação. Porque, senão, cada um reporta o que quer, se você não tem um critério objetivo.

O especialista destacou, contudo, que o mercado brasileiro de apostas ainda é relativamente novo e, mesmo assim, avançou rapidamente em questões de regulações que prosseguem de forma mais vagarosa em outras nações.

— O mercado regulamentado do Brasil tem só um ano e meio, nem isso, e vejo de maneira muito positiva todos os avanços que já ocorreram nesse período. Vejo o Brasil com potencial para ser um exemplo para os outros mercados da América do Sul. A gente tem países como Chile ou Paraguai que estão discutindo a regulamentação agora, e o Brasil é um modelo. A gente ainda tem muito aquele complexo de vira-lata. Mas eu vejo que a regulamentação do Brasil não perde para nenhuma regulamentação do mundo. Inclusive, eu acho que a América Latina tem condição de não só igualar o que existe na Europa, mas ser melhor e ser um exemplo para o mundo.

IA contra a manipulação

Outro novo componente que ganha cada vez mais importância no monitoramento de manipulação de resultados é a inteligência artificial. De acordo com o relatório da SportRadar, o número de casos identificados com auxílio da tecnologia subiu de 436 em 2024 para 682 no ano passado. Ainda assim, Marchetti afirma que a avaliação humana ainda é crucial.

— A inteligência artificial ajuda bastante na questão de predizer o comportamento dos mercados. Tem um comportamento esperado dessas odds. Então já tem modelos matemáticos para isso. Se tem uma discrepância muito grande entre a cotação real e a cotação esperada, ela alerta. Mas, muitas vezes, há uma explicação. Por exemplo: em um jogo marcado para a altitude, o time da casa, com esses fatos, provavelmente entra com odds de favorito. Mas aí o jogo muda de local, as odds mudam drasticamente. A IA provavelmente alertará sobre a discrepância, e tem essa razão. Por isso são necessários analistas humanos, não é possível se basear 100% na IA.

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