Copa do Mundo chega sob ameaça de calor extremo e riscos à saúde
Médicos alertam Fifa para perigo aos atletas e impacto ambiental do evento

No dia 17 de julho de 1994, Brasil e Itália entraram no gramado do Rose Bowl, em Pasadena, para decidir a Copa do Mundo. Trinta e dois anos depois, o Mundial está de volta à América do Norte, desta vez, porém, os Estados Unidos dividem a tarefa de sediar a competição com os vizinhos México e Canadá. Reflexo do aumento de países participantes, de 24 para 48. Em comum, a competição de 94 e a atual, que começa daqui a dois dias, têm um fator que cresceu na mesma medida que o número de equipes: o calor.
TUDÃO DA COPA DO MUNDO: DIA 8 DA SELEÇÃO BRASILEIRA NOS EUA
Milhões de torcedores, jogadores, trabalhadores e toda a comunidade do futebol que vai se deslocar pelo continente vão sofrer com os efeitos climáticos durante a Copa do Mundo.
Além da onda de calor, há ainda as variáveis que acontecem por ela, como chuvas e tempestades, que nos Estados Unidos podem significar atraso nos eventos.
A competição, que começa nesta semana, será a maior da história, com 104 partidas espalhadas por três países e milhões de pessoas cruzando o continente durante um mês.
Uma carta aberta enviada à Fifa em maio deste ano, assinada por médicos, pesquisadores do clima e especialistas em desempenho esportivo, alertou que os protocolos atuais da entidade para enfrentar o calor extremo são insuficientes e podem colocar em risco a saúde de jogadores, árbitros e trabalhadores envolvidos no torneio. Entre os signatários estão especialistas de instituições como University College London, Universidade de Sydney, Universidade de Connecticut, Universidade de Toronto e London School of Hygiene & Tropical Medicine. Eles argumentam que os limites atualmente utilizados pela Fifa para determinar pausas e possíveis suspensões de partidas estão acima do que a ciência considera seguro para atividades físicas intensas.
Como Eriksen segue em campo cinco anos após parada cardíaca
O relatório "Pitches in Peril", produzido pelas organizações Football for the Future, Common Goal e Jupiter Intelligence, concluiu que dez das 16 cidades-sede da Copa apresentam risco muito alto de calor extremo durante o período do torneio. Quatorze dos 16 estádios já registraram em 2025 condições climáticas consideradas perigosas para a prática esportiva, incluindo ondas de calor, chuvas intensas e risco de enchentes.
Em cidades como Dallas, Houston, Miami, Atlanta, Kansas City e Monterrey, os índices de Temperatura de Bulbo Úmido — métrica que combina temperatura, umidade, radiação solar e vento — ultrapassaram durante semanas os níveis considerados seguros para atividades físicas intensas. Em algumas localidades, os registros chegaram próximos do limite apontado por especialistas como o máximo suportável para adaptação do organismo humano.
Milhões de torcedores, funcionários, jornalistas, voluntários e trabalhadores estarão expostos às mesmas condições climáticas. A diferença é que boa parte deles enfrentará longos deslocamentos, filas sob o sol, transporte público lotado e horas de permanência em áreas abertas.
➡️ Siga o Lance! no WhatsApp e acompanhe em tempo real as principais notícias do esporte
Para Laura Moraes, diretora de campanhas do Terra FC, a discussão sobre a Copa vai muito além do que acontece dentro das quatro linhas.
— O que torna uma Copa diferente de outros eventos é a concentração de muitas pessoas se deslocando para os mesmos lugares e vivendo um período intenso em grandes centros urbanos. Isso gera uma produção enorme de lixo, impacto no transporte público, no escoamento e no reuso da água, além de uma pressão muito grande sobre a infraestrutura das cidades. Talvez a gente não veja sempre o espetáculo técnico mais bonito dentro de campo porque os atletas também sofrem com o calor extremo — analisou.
A própria Fifa reconheceu o risco. Depois das críticas recebidas durante o Mundial de Clubes de 2025, realizado nos Estados Unidos e considerado um ensaio geral para a Copa, a entidade anunciou um novo protocolo obrigatório de hidratação. As partidas passarão a ter interrupções automáticas para reidratação dos atletas, independentemente da temperatura registrada no local.
Durante o Mundial de Clubes, o calor não foi o único problema. Tempestades também provocaram interrupções frequentes. Segundo levantamento do Terra FC, seis das 56 partidas da competição precisaram ser paralisadas por alertas climáticos severos. Oito das 11 cidades que receberão jogos nos Estados Unidos estão localizadas em áreas de risco para tempestades com raios.
Nos Estados Unidos, protocolos de segurança obrigam a interrupção de eventos esportivos ao ar livre quando há risco de descargas elétricas atmosféricas nas proximidades.
A combinação entre calor extremo e tempestades cria um cenário inédito para uma Copa do Mundo.
Ao mesmo tempo em que a Fifa tenta proteger os atletas dentro dos estádios, cresce a preocupação com o impacto ambiental do próprio torneio. Estimativas dos Scientists for Global Responsibility apontam que a Copa de 2026 poderá gerar cerca de nove milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, quase o dobro da média registrada nas últimas quatro edições do Mundial.
O aumento é explicado principalmente pela expansão do torneio, pelo crescimento do número de partidas e pela necessidade de deslocamentos entre três países.

A Fifa afirma que pretende reduzir suas emissões em 50% até 2030 e alcançar a neutralidade climática em 2040. Mas organizações ambientais avaliam que a dimensão do evento torna esse desafio cada vez mais complexo.
— Existe uma oportunidade gigantesca para falar sobre mudanças climáticas com pessoas que talvez não tenham contato com esse debate em outros contextos.
Ela defende medidas práticas que vão além das pausas para hidratação.
Garantia de acesso gratuito à água, ampliação de áreas sombreadas para torcedores, revisão de horários de partidas em situações extremas, sistemas de reuso de água, melhorias na eficiência energética dos estádios e redução do uso de materiais descartáveis estão entre as ações defendidas por especialistas.
O debate, porém, não diz respeito apenas ao futuro da Copa do Mundo. Para Laura, muitas vezes o problema já está acontecendo diante dos olhos das pessoas.
— A gente não precisa ir muito longe para enxergar isso. Em São Paulo, por exemplo, estádios e bairros inteiros sofrem com alagamentos todos os anos. Muitas vezes o lixo nem chega a um aterro. Ele fica dentro da cidade, bloqueando a drenagem e gerando impactos imediatos — explicou.
➡️ Aposte nas partidas do seu time!
*É preciso ter mais de 18 anos para participar de qualquer atividade de jogo de apostas. Jogue de forma responsável.
Pela primeira vez, uma Copa do Mundo será disputada sob um consenso científico de que as mudanças climáticas já afetam diretamente o futebol profissional. O debate não é mais sobre projeções para o fim do século. Ele acontece no calendário de jogos, na preparação física dos atletas, nos horários das partidas e na infraestrutura necessária para receber milhões de pessoas.
A final de 1994 ficou marcada pelas altas temperaturas enfrentadas por Brasil e Itália. Trinta e dois anos depois, o calor continua presente.
Tudo sobre
Sugerida para você!






Mais LANCE!












