Como Eriksen segue em campo cinco anos após parada cardíaca
Jogador desmaiou em campo cinco anos após episódio grave

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Quando Christian Eriksen levou a mão ao peito e caiu no gramado durante o amistoso entre Dinamarca e Ucrânia, no último domingo, foi impossível não associar a cena ao ocorrido na Eurocopa de 2021: o meia desacordado em campo, os companheiros formando um círculo ao seu redor e médicos lutando para reanimá-lo após uma parada cardíaca.
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Desta vez, porém, o desfecho foi diferente. Horas depois, o próprio jogador tratou de acalmar torcedores ao explicar que tudo não passou de um susto provocado pelo cardiodesfibrilador implantável (CDI) que carrega no peito desde aquele episódio que mudou sua vida.
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Naquele dia, durante a estreia da Dinamarca contra a Finlândia na Eurocopa, seu coração parou de bombear sangue adequadamente. Os médicos iniciaram imediatamente manobras de reanimação cardiopulmonar e utilizaram um desfibrilador externo para restaurar o ritmo cardíaco. A rapidez do atendimento foi determinante para sua sobrevivência.
Casos como o de Eriksen podem ocorrer por diferentes razões. Em alguns pacientes, os impulsos elétricos que coordenam os batimentos cardíacos deixam de funcionar corretamente. Em outros, inflamações, alterações estruturais do músculo cardíaco, infecções ou condições genéticas podem desencadear arritmias graves. Em parte dos casos, inclusive, a causa exata nunca é completamente esclarecida.
Após a recuperação, os médicos optaram pela implantação de um cardiodesfibrilador implantável, conhecido pela sigla CDI.
— O cardiodesfibrilador implantável é um dispositivo eletrônico implantado que fica próximo ao coração Ele tem como função fundamental identificar e tratar automaticamente arritmias cardíacas potencialmente graves, como a taquicardia ventricular e a fibrilação ventricular. Diante dessas alterações graves do ritmo cardíaco, o aparelho pode atuar de duas formas: ele pode realizar uma estimulação elétrica rápida para interromper a arritmia ou, quando necessário, aplicar um choque elétrico. Esse choque é semelhante ao dos desfibriladores externos que costumamos ver em hospitais e locais públicos, mas, nesse caso, o dispositivo está implantado dentro do corpo. Quando necessário, ele restaura o ritmo cardíaco normal com alta eficácia — detalha Alessandra Geisler, médica especialista em cardiologia do esporte e cardiologia pediátrica.
O aparelho tem tamanho semelhante ao de um pequeno marca-passo e permanece conectado ao coração por cabos finos. Sua função é vigiar continuamente a atividade elétrica cardíaca, 24 horas por dia.
Foi justamente esse sistema que, segundo a equipe médica da seleção dinamarquesa, foi fundamental no episódio ocorrido neste domingo.
Para o atleta, os sinais podem variar. Em alguns momentos, a arritmia provoca apenas palpitações ou sensação de mal-estar. Em outros, surgem tontura, falta de ar, perda de consciência e até desmaio. Quando o CDI consegue interromper rapidamente a alteração do ritmo cardíaco, a recuperação costuma acontecer em segundos. Se o aparelho precisa aplicar um choque, o paciente geralmente sente uma pancada intensa no peito, descrita por muitos como um impacto súbito, embora de curta duração.
Diretrizes médicas internacionais recomendavam que pacientes com CDI evitassem praticamente todos os esportes competitivos mais intensos. O receio era de que uma arritmia durante a prática esportiva pudesse provocar lesões graves, que o dispositivo falhasse em interromper o problema ou que o próprio aparelho sofresse danos durante a competição.
A mudança começou a ocorrer quando pesquisadores passaram a acompanhar atletas que decidiram continuar competindo mesmo após a implantação do dispositivo.
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O principal trabalho sobre o tema foi conduzido pelo ICD Sports Safety Registry, coordenado por pesquisadores da Universidade Yale. O estudo acompanhou 440 atletas portadores de cardiodesfibrilador implantável ao longo de vários anos, incluindo praticantes de corrida, basquete e futebol.
Durante o acompanhamento, não houve mortes relacionadas a arritmias durante a prática esportiva, nem falhas do aparelho em interromper eventos graves. Também não foram registrados casos de lesões provocadas por perda de consciência ou por choques do dispositivo durante competições.

Os pesquisadores observaram que alguns atletas receberam choques apropriados durante treinos e jogos, o que significa que o aparelho realmente precisou agir para interromper arritmias potencialmente perigosas. Ainda assim, os eventos foram revertidos sem consequências fatais.
— Quando o cardiodesfibrilador identifica a arritmia e consegue revertê-la rapidamente, o fluxo sanguíneo é restabelecido e o coração recupera seu funcionamento normal em questão de segundos. Quando o aparelho precisa aplicar um choque, o paciente costuma sentir um impacto forte no peito, descrito por muitos como um chute ou uma pancada intensa. No entanto, é uma sensação de curta duração. Um dos principais benefícios do tratamento é reduzir o risco de eventos graves e preservar a saúde do paciente, evitando complicações que poderiam gerar consequências muito mais sérias — explica a médica Alessandra Geisler.
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Essas evidências transformaram as recomendações internacionais. Em vez de uma proibição automática, ganhou força o conceito de decisão compartilhada entre médicos e atletas.
Hoje, especialistas europeus costumam analisar quatro fatores principais, conhecidos como os "quatro Ds": danger (perigo), disease (doença), device (dispositivo) e dysrhythmias (arritmias). A decisão leva em conta a doença cardíaca de base, o risco individual do atleta, o funcionamento do aparelho e o histórico de alterações do ritmo cardíaco.
Por isso, não existe uma resposta única para todos os casos. O próprio Eriksen se tornou um dos maiores símbolos dessa mudança de paradigma.
Após a cirurgia, sua passagem pelo futebol italiano chegou ao fim porque as normas médicas locais não permitem que atletas atuem profissionalmente com um CDI implantado. A trajetória do dinamarquês parecia encerrada.
Mas em outros países as regras são diferentes. Depois de avaliações detalhadas, ele recebeu autorização para voltar a jogar. Primeiro pelo Brentford, na Inglaterra. Depois pelo Manchester United. E também pela seleção dinamarquesa.
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