Raul Costa Jr.: no ar, um intrigante sentimento de passividade com o desempenho da Seleção
O que chama atenção é que existe quase um conformismo com a eliminação na Copa

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Nos últimos dias , principalmente após a eliminação do Brasil, tenho me dedicado a observar o comportamento das pessoas que convivem comigo e que moram em locais próximos. Existe no ar um intrigante sentimento de passividade com o desempenho da Seleção. É um comportamento diferente de tudo que já vi em Copas. A eliminação da Seleção Brasileira sempre foi o pavio para frustrações enormes, com pessoas abatida nas ruas, quase um luto nacional. Foi assim em 66, 74, 82, 90, a famigerada seleção do Lazaroni, que gerou quase que um sentimento de raiva contra o técnico. Lazaroni teve que seguir carreira no exterior, culpado por um desempenho pífio e pelos erros dos jogadores. Foi assim em 98 e em 2010.
O que chama atenção é que agora existe quase um conformismo, existe pouca tristeza. Quase algo como "eu já sabia". Não, não é culpa dos nossos políticos (que não são santos), não é culpa do governo (que pode ajudar, mas não é ali a causa), não é culpa do treinador (ou só dele). É um sentimento estranho de "conformismo inconformado". Ou, pior, é sentimento de que daquele grupo de jogadores não se esperava muito mesmo, apesar da mídia , como sempre, enaltecer jogadores que, em sua maioria, não passam de medianos frente a craques como Gerson, Tostão, Carlos Alberto, Pelé, Romário, Bebeto, Ronaldos e outros não citados aqui.
Mas vendo os jogos da Copa pós-eliminação, vendo o que jogam os times que passaram de fase, o que fica para mim é, depois da certeza de que escapamos de uma goleada nesta fase atual (o que pode provar que Deus é brasileiro mesmo), o exemplo de entrega dos espanhóis, belgas, marroquinos, franceses, noruegueses, o sofrimento autêntico da seleção de Cabo Verde ao ser eliminada. Por maior que seja o atleta, por maior que seja a fama, cada um deles se entrega de corpo e alma. Se entrega de verdade, como se fosse o último jogo.
Mudança além da Seleção
Assistindo à explosão de alegria de Merino por ter marcado o gol salvador da Espanha nos últimos minutos do jogo com a Bélgica (pela segunda vez), a entrega sensacional dos espanhóis que não pararam de correr até o ultimo minuto, apesar da vitória iminente, me faz crer que há algo de diferente nestes atletas. Uma dedicação a mais, um espírito de que o que está em jogo não é um novo contrato na mesa ou mais likes nas redes sociais. O que está em jogo é a esperança e a imagem da Nação. O que está em jogo é o amor por uma bandeira, por um modo de vida. O que está em jogo é a importância do exemplo para as gerações. Isto não se conquista. Isto se constrói. Isto se aprende no berço e nas ruas, nas escolas e nos teatros. Nos livros e na mídia.
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Isto parece algo distante do que temos hoje. O que nos distancia não é só talento. É entrega. Pelé, apesar de ser o Rei do Futebol, o maior jogador da história, chorava pelo Brasil, se entregava como um menino cuidando na primeira chuteira . Carlos Alberto, de quem tive orgulho de ser amigo pessoal e companheiro de longas conversas, era um obcecado. Certa vez o nosso eterno Capita me contou que antes de ser convocado para a Copa de 70 , ele tinha sido expulso em um jogo do Campeonato Brasileiro e o diretor da CBD na época, Antônio dos Passos, disse para Zagallo: "Depois desta expulsão, o Carlos Alberto não pode ser capitão da Seleção". Zagallo respondeu: "Se é para ele não ser capitão, nem convoquem. Impossível!". Capita foi convocado e se consagrou como capitão pela garra e entrega. Este espírito não vejo nem antes, nem durante e nem após os jogos. O que vejo são atletas plugados em celular ou nos fones de ouvido. Precisamos mudar urgentemente para voltarmos a ser a grande Seleção de passado recente. Mas nao é só no campo. Talvez esta mudança tenha que ser além da Seleção. Nas ruas também.


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