Protagonista no Real e na Seleção, Vini Jr. vai além do futebol como líder antirracista

Camisa 7 inspira até atletas da NBA e enfrenta forças poderosas: 'Fora da curva'

PorVicente SedaRio de Janeiro (RJ)
21/06/2026 06:00
Atualizado há 1 minutos
Vini Jr. no lançamento do Vinizinho, personagem e mascote oficial do seu instituto (Foto: Divulgação Instituto Vini Jr.)
Vini Jr. no lançamento do personagem e mascote do seu instituto, o Vinizinho (Foto: Divulgação Instituto Vini Jr.)

A Fifa baixa a cabeça para os Estados Unidos e se curva ao padrão Trump. Vini Jr., não. O mundo da bola grita: "pare de bailar". Vini Jr. dá de ombros. Decide Champions League. É o melhor em campo nas duas primeiras partidas da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. E "baila" na cara da parcela racista da sociedade que tenta fazê-lo se enquadrar ao status quo. A presença de um negro milionário na primeira prateleira do futebol, dizendo e fazendo o que pouquíssimos têm coragem, incomoda demais. Incomoda porque não há como desviar.

O tamanho do camisa 7 do Real Madrid e da Seleção, hoje, é incontornável. Dentro de campo, e talvez mais ainda fora dele. Tanto que inspira, desde crianças até atletas de outras grandes ligas de outros esportes, como a NBA, a marcarem posição nessa luta.

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Na sexta-feira (19), contra o Haiti, Vini Jr. completou 500 jogos como profissional. Foi mais uma vez o melhor do jogo. Decidiu duas vezes a competição mais importante do planeta — fora a Copa do Mundo — no time mais valioso do esporte, o Real Madrid. Cercado de galácticos, ele é protagonista. Isso aos 25 anos (ele completará 26 no dia 12 de julho), idade em que muitos ainda são considerados atletas em desenvolvimento. Mas, desde muito antes disso, mesmo menino, Vini Jr. sempre foi cobrado como gente grande. E por quê?

A personalidade e consciência social de Vini Jr. vêm da infância. Aos 12 anos, dando os primeiros passos na base do Flamengo, já distribuía cestas básicas com o pai. Mas o divisor de águas que o transformou em um personagem muito maior do que um mero jogador de futebol aconteceu em 2023, na partida válida pela La Liga, contra o Valência, da Espanha, em que o brasileiro, além dos cantos racistas da torcida rival, chegou a receber um mata-leão em campo e ainda assim acabou expulso. Doeu. Doeu muito. Mas serviu para chamar a atenção do mundo para o que acontecia naquele país e em boa parte da Europa. E também para deixar claro que ele não se submeteria.

Vinicius Jr. durante a partida contra o Haiti, duelo válido pela segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo.
Vinicius Jr. foi novamente o melhor em campo contra o Haiti (Foto: Jewel SAMAD / AFP)

Não só lá. O Brasil, país da mistura de raças, do povo hospitaleiro, não é exatamente o mesmo Brasil para a população negra — 85% dela afirma já ter sofrido preconceito por conta da cor da pele, de acordo com dados do Ministério da Igualdade Racial em 2025. E, ciente disso, tendo vivido essa estatística, Vini Jr. não deixa os cifrões lhe tomarem a consciência. Transforma seus holofotes em um canhão.

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O diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, Marcelo Carvalho, enxerga toda essa cobrança por outro prisma, que se soma ao clubismo de ter surgido nas categorias de base do Flamengo, detentor do maior número de torcedores do Brasil, mas também de maior rejeição no país, de acordo com dados do instituto Paraná Pesquisas divulgados em novembro do ano passado.

— Aí a gente vai perceber um outro lugar em que as pessoas entendem que o racismo existe, mas não querem ouvir falar a respeito. Eu sei que o racismo existe, eu entendo que você vai fazer uma denúncia, mas faça e saia do ar. Não quero que fique falando, e o Vini, como ele fala de racismo com frequência, a percepção de muita gente é: "Pô, lá vem esse cara chato de novo." E as pessoas começam a olhar para ele com uma análise muito maior no sentido de: "Vamos ver se ele é correto mesmo". Ele reclama, dança, provoca. Nada além do que um jogador faz no dia a dia. A questão é que aí precisa achar algo para dizer que ele não é esse cara iluminado que está aí lutando contra o racismo. Então a gente vive num país que, pelos dados, acredita que o racismo existe, mas onde ninguém comenta racismo.

Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol (Foto: Divulgação)
Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol (Foto: Divulgação)

Aumento de casos de racismo no futebol brasileiro

Carvalho afirma que há uma dificuldade para identificar os racistas no Brasil. E que, mesmo muitas vezes passando despercebido, o racismo está lá, presente, todos os dias. Não é de se estranhar, portanto, que esteja entranhado na forma de cobrar um atleta que reiteradamente se posiciona de forma muito veemente sobre o tema. Os dados mais atuais do observatório dão conta de uma queda de casos de 2023 para 2024 — 136 denúncias de racismo no futebol brasileiro para 109 —, mas no ano passado houve novo aumento: 120.

— Se você fizer essa pergunta para a população brasileira de modo geral, se ela acredita ou não na existência do racismo, cerca de 86% dos brasileiros, brancos e negros, vão dizer que racismo existe. E 13%, mais ou menos, vão dizer que são racistas. Então a gente não sabe quem é o racista. A gente está falando de algo muito além do xingamento de macaco e muito além do insulto. Estamos falando do racismo nosso de cada dia, do cotidiano, que é o segurança do mercado te seguindo, a senhora protegendo a bolsa quando passa por uma pessoa de pele negra. O que as pessoas não entendem é que a gente não fala sobre isso toda hora — explicou Carvalho.

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Vini Jr - Racismo
Vini Jr. já é visto como uma liderança contra o racismo no mundo (Foto: Jose Jordan / AFP)<br>

Mais do que um jogador, Vini Jr. se tornou uma liderança de um movimento muito maior e muito mais importante do que qualquer duelo nos gramados. Quando o adversário é o preconceito, outros atletas e crianças olham para esse líder e enxergam a necessidade de aderir à luta. Por exemplo, Dennis Schroder, armador alemão que hoje defende o Cleveland Cavaliers, da NBA, a liga profissional de basquete americana, citou o brasileiro em agosto do ano passado ao denunciar um torcedor da Lituânia que o xingava da arquibancada na EuroBasket, o campeonato europeu de seleções.

— Se pegarmos a história do futebol brasileiro, tem um ou dois jogadores que falaram sobre isso enquanto estavam em atividade. É algo extremamente fora da curva. E a importância disso, a gente vem monitorando; alguns jogadores já falam que estão se posicionando porque o Vinícius Júnior se posiciona, para mostrar que não é só ele que sofre. Então ele acaba sendo um exemplo. E fora do futebol também. A gente percebe principalmente crianças dizendo que estavam denunciando o caso de racismo porque o Vinícius Júnior fala. Então, mostra que elas também precisam denunciar. Mesmo no futebol, o agressor dirá que aquilo não passou de um mal-entendido, que não foi isso que quis dizer — completou Marcelo Carvalho.

Posicionamento forte na Copa

Nesta Copa do Mundo, a Fifa, chegou ao ponto de não disponibilizar tradução para o idioma de um dos países que sediam a competição. As perguntas dos mexicanos, pelo protocolo da entidade, deveriam ser respondidas em outras línguas, não em espanhol. Em coletivas antes da estreia brasileira na competição, Vini Jr. e o marroquino Hakimi ficaram sem entender o motivo de não poderem responder a uma pergunta em espanhol, idioma que compreendem e falam com fluência.

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A justificativa da falta de tradução não pegou bem, e, quando não pega bem, não é bem assim. Há um erro de interpretação, há uma falha de protocolo, há qualquer coisa, menos o que há de verdade. E Vini Jr. sabe o que há, não é de hoje. Como de praxe, a solução vem quando a repercussão é ruim. O camisa 7 não se furtou em contribuir para reverberar o absurdo. Em uma frase, uma simples sentença, na entrevista seguinte, já depois do jogo, mostrou que não está ali para servir. Ao ouvir uma pergunta em espanhol, fincou pé em suas raízes:

— Estou com o Brasil e vou falar português.

E nesta sexta, também na Copa do Mundo, a força de Vini Jr. foi notada. Não somente pelo futebol apresentado na partida da Seleção Brasileira contra o Haiti, mas no duelo entre Turquia e Paraguai. Almirón recebeu cartão vermelho ao cobrir a boca em discussão no campo. Foi o primeiro a ser punido pelo "protocolo Vini Jr.", adotado pela Fifa após a repercussão mundial do episódio envolvendo o argentino do Benfica Prestianni — que também disse ter sido mal interpretado — em partida contra o Real Madrid pela Champions League.

Momento em que Vini Jr acusa Prestianni de ter dito uma injúria racial após tapar a boca com a camisa em Benfica x Real Madrid
Momento em que Vini Jr. acusa Prestianni de injúria racial após tapar a boca com a camisa em Benfica x Real Madrid pela Champions League (Foto: Patricia De Melo Moreira/AFP)

Instituto com visão além do futebol

Karol Vasconcellos, diretora do Instituto Vini Jr., localizado em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, de onde surgiu o craque, diz que o jogador já se tornou símbolo dessa luta.

— Na verdade, quando você olha para o Vini, você vê o retrato dessa situação criminosa que acontece todos os dias. Então, o Vini é um cara preto retinto que acorda consciente de que ele simboliza uma luta. E, infelizmente, dentro do trabalho dele no futebol, acabou passando por situações muito severas que transtornaram tanto a ele quanto à família e equipe. Então, paralelo ao futebol, tem essa luta que ele traçou em não se calar, dizendo que não pararia de bailar, que não faria diferente, que lutaria. E assim fez.

Crianças atendidas pelo Instituto Vini Jr. se inspiram no exemplo do camisa 7 da Seleção Brasileira e do Real Madrid (Foto: Divulgação Instituto Vini Jr.)
Crianças atendidas pelo Instituto Vini Jr. se inspiram no camisa 7 da Seleção Brasileira e do Real Madrid (Foto: Divulgação Instituto Vini Jr.)

Esse instituto é a concretização da visão do atleta fora das quatro linhas. Não se trata de uma escolinha de futebol, mas de um centro de educação antirracista que já atende dezenas de escolas em diversos estados. Fornece tecnologia, conhecimento e amparo para professores e alunos.

— Iniciamos um trabalho de educação antirracista para o nosso ambiente, o ambiente escolar. Então, nós criamos algumas oficinas que levam dois pontos importantes para dentro da escola: como ser uma educadora antirracista e como lidar com situações de racismo dentro de sala de aula. O resultado dessas oficinas que nós fizemos para todo o corpo docente das escolas é um manual de educação antirracista, que a gente trabalha e é um dos nossos projetos. Mas as situações de racismo não pararam, e aí isso aumenta ainda mais a nossa necessidade de ampliar a questão, a pauta. Então, a gente hoje tem projetos muito maiores, que visam também fazer oficinas para as crianças, construir e ampliar o nosso manual e trazer a pauta para dentro de sala de aula como conteúdo programático — completou.

O Painel de Monitoramento de Justiça Racial aponta que, só em 2025, foram registrados sete mil novos casos de racismo no Brasil. Há, neste momento, 13.440 casos pendentes relacionados a racismo para serem julgados no país. E, em 13 de maio deste ano, Vini Jr. passou a atuar também nessa frente. Dentro do seu instituto, foi criado um escritório de advocacia antirracista. A data não foi escolhida por acaso. Foi o dia em que ele atuou pela primeira vez como profissional do Flamengo, e também a data em que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, em 1888.

Karol Vasconcelos, diretora do Instituto Vini Jr. (Foto: Divulgação Instituto Vini Jr.)
Karol Vasconcelos, diretora do Instituto Vini Jr. (Foto: Divulgação Instituto Vini Jr.)

A iniciativa é bastante recente, mas já acumula casos. Nenhum deles ainda foi para a esfera jurídica — isso depende também da escolha da vítima pela representação. Mas os relatos são muitos, segundo a diretora do instituto.

— É avassalador. É uma coisa absurda. Começamos de uma maneira muito informativa, até porque ninguém sabia que isso existia. Então, a gente sai de dois a três casos por semana, para uma média de seis a oito. É importante falar também que a gente está de olho no que acontece na nossa sociedade. Então, a pessoa pode mandar um e-mail, entrar em contato, e a sua identidade vai ser sempre guardada em sigilo. Mas a gente também vê situações em que a gente toma a frente e pergunta se tem, às vezes, alguma dúvida. Porque, muitas vezes, a pessoa não sabe nem o que está passando pelo racismo.

Marca Vini Jr. se fortalece com patrocínios

Se alguém tem a impressão de que, ao se posicionar desta forma, Vini Jr. enfrenta dificuldades nos bastidores para fechar patrocínios e contratos fora os compromissos de clube, está enganado. Ele está em sexto na lista da Forbes dos jogadores com melhor remuneração do futebol mundial, com vencimentos anuais estimados em US$ 60 milhões (incluindo patrocínios pessoais). Mas pode subir algumas posições dependendo da renovação com o Real Madrid, cujas negociações estão em andamento, ou em eventual mudança de casa.

O rapper Jay-Z controla empresa que cuida da carreira de Vini Jr. (Reprodução Instagram)
O rapper Jay-Z controla empresa que cuida da carreira de Vini Jr. (Reprodução Instagram)

A carreira de Vini Jr. é gerenciada pela Roc Nation Sports Brazil, que tem o empresário Frederico Pena como CEO, ligada à Roc Nation Sports, cujo sócio majoritário é o rapper Jay-Z. A gestão da sua carreira é feita como uma empresa à parte, que conta até com um "family office". Ele conta hoje com 16 patrocinadores ativos. Estima-se que, somente com esses patrocínios, o jogador arrecade cerca de US$ 20 milhões ao ano. Questionado se enfrenta problemas para fechar contratos publicitários por conta dos seus posicionamentos e personalidade, uma das pessoas do staff do jogador afirmou:

— Problemas, sem dúvida. Mas não reflete (negativamente) em termos publicitários. Pelo contrário.

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