Lúcio de Castro: 'Pra tudo se acabar na quarta-feira'
Flamengo e Cruzeiro deixam decisão para o jogo de volta, sob a poesia imortal da Vila Isabel

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Martinho da Vila bem poderia ter feito a crônica do Flamengo x Cruzeiro da última quarta-feira. Anteontem, diriam os mais íntimos. Nem espetacular, nem ruim. Aceitável, agora que vamos nos recuperando daquela ressaca pós-copa que sempre bate e esse ano bateu mais fundo do que nunca. Um choque de realidade com o futebol que jogamos por aqui que chegou a doer. Principalmente nos olhos. Mas a coisa vai dando uma assentada.
O fato é que Flamengo e Cruzeiro conseguiram fazer um empate onde, a bem da verdade, os dois levaram a sério a velha máxima do "jogo de 180 minutos" e preferiram deixar os riscos maiores para a volta, mas sem fazer algo cansativo. Tedioso. "Boring", para usar a palavra que algumas torcidas inglesas usavam como canto nos estádios nos anos 80 naquele pré-Premier League em que o futebol praticado por lá era um coletivo de chutões e chuveirinhos. Era "boring" demais. Como era "boring" também eles cantando "boring" durante boa parte do jogo.
No fim, os dois seguraram, mas não foi um programa ruim de se ver. O fato é que ficou mesmo tudo para quarta-feira. Um dos gigantes cai. Numa Libertadores convidativa. Sem bicho-papão argentino, com Palmeiras aos trancos e barrancos. Na quarta, um dos dois vai seguir. Provavelmente como favorito, tendo que errar bastante para não botar a glória eterna no bolso. No fim, como cantou Martinho, é "sonho de rei, de pirata e jardineira/Pra tudo se acabar na quarta-feira". Quarta que vem tem mais.
Lembro desses versos imortais de 1993 e me obrigo a dizer, antes de pular para outro tema aqui nessa coluna, que Vila danada de poetas. Noel, o pai de todos eles. Gênio da raça. Fez tudo o que fez até os 27 anos de idade. É tão surreal pensar nisso. Veio Martinho. Que coisa, o Brasil todo ali na malemolência do bibarrense Martinho José Ferreira. Depois, vieram dois artistas dos versos mais ferinos e encantadores, André Diniz e Evandro Bocão. Não sei o que botam na água dessa Vila. Só sei que sai poesia.
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Polícia para quem precisa de polícia
Aconteceu de novo. Mais uma, outra. Sempre. Torcedores do Flamengo agredidos na entrada do Mineirão. É um ritual sádico que se repete a cada jogo por lá. Não é só a torcida do Flamengo a vítima. São todas do Rio. E não é só em Minas. Em São Paulo também é assim. Os relatos da última quarta são impactantes. Agressão pelo nada. Não seria leviano falar aqui sem saber. Já vi isso algumas vezes. Como plateia e também trabalhando. Sem razão alguma. Por esporte. É uma aberração.
Tem método. Primeiro deixam a torcida visitante retida na chegada de Belo Horizonte. Esperam o estádio lotar. Quando o espaço para o visitante está tomado, liberam. Evidentemente aí começa a confusão. E em boa parte das vezes começa na entrada. Aleatoriamente, com agressão da polícia militar aos visitantes. Seja qual for o governo do turno. É sistemático. É atestado de incompetência que nenhuma autoridade veja isso. Também é omissão deliberada. Assim como também não é razoável que a diretoria dos clubes visitantes se omita no lugar de um veemente protesto e exigência de providências.
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"Lúcio de Papo": a entrevista com o repórter que mais conhece os bastidores da Fifa
Neném Prancha, parte imensa das lendas do futebol, dizia que jogador de futebol tem que ser como sorveteria: ter várias qualidades. Jornalista também precisa atacar em várias frentes. Saber apurar, entrevistar, escrever... O mundo moderno e novas tecnologias acrescentaram algumas exigências ainda, já não fossem poucas.
Particularmente gosto da estiva da reportagem. Mergulhar num fio da meada complexo, ir puxando o fio do novelo, ter vontade de desistir tamanho emaranhado e tantas camadas que por vezes aparecem, até que tudo fica nítido. A luz aponta onde está o desvio. O "deviant", aquele que foge ao padrão. Tão estiva quanto prazeroso. Nunca fui muito da entrevista. Sabe-se lá por que. Me faltou esse sorvete, diria Neném Prancha. Tem que fazer, ossos do ofício, mas nunca foi o maior prazer. Fiz muitas, mas não era, como dito, o maior prazer.
Exceção para um determinado momento da carreira, ali pelo início da década dos 2000, quando eu e o imenso Victorino Chermont, repórter maior, fizemos um programa de entrevistas no Sportv que se chamava "Encontros Para a História". Deixarei as trombetas da vaidade me traírem por um minuto. O que aconteceu é de difícil repetição.
A ideia era juntar sempre alguém ligado ao esporte com uma alma semelhante por algum traço. O malandro, o genial, o perfeccionista... com a condição de ser também um notável de outra área. Amparados e com respaldo total de Emanuel Mello Mattos, o diretor que fez uma revolução num canal e inventou do zero uma grade (e um canal), que, de tão boa, perdura em suas criações até hoje (um programa de jornalismo pela manhã, um no início da tarde e outro de noite, e no meio deles, eventos ao vivo), veio algo irrepetível.
Juntamos Zeca Pagodinho e Romário numa resenha dos dois malandros geniais. Teve "Encontros" com os dois gênios da busca insaciável da perfeição, Bernardinho e Ivo Pitanguy. Teve também Drauzio Varella e Dr. Sócrates, o humanismo dos guardiões da vida numa resenha espetacular. Cruzamos fronteira, teve Eduardo Galeano e Reinaldo. Teve Pelé e Renato Aragão. Volte atrás. Veja os nomes. Não irá se repetir. Foi um daqueles milagres, tanta excelência num mesmo momento. Até acabar.
O último "Lúcio de Papo" me trouxe um pouco dessa nostalgia, por isso o resgate acima. Mesmo não muito afeito ao papel de entrevistador, foi um prazer imenso. Que deixa com gostinho de quero mais para novas empreitadas.
Nesse momento em que o esporte tem uma pauta apenas, e é normal que seja isso e deve ser, ouvir Tariq Panja, repórter do New York Times que cobre FIFA há duas décadas, o que mais sabe daquelas entranhas, foi um prazer de novo. E aqui rasgo as trombetas da vaidade: nesse caso, o mérito é todo do entrevistado. Pois vá lá ver como o que ele está falando é absolutamente necessário para entender o que está acontecendo no mundo do futebol.
E como em jornalismo não se faz nada sozinho, ao fim, preste atenção no nome dos créditos. Gratidão total à equipe que fez e faz comigo esse "Lúcio de Papo". Com nível de entrega e excelência dos grandes.
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