Yamal, Messi e o capítulo final de uma incrível história que começou com uma foto
Como o destino cruzou os caminhos de um jovem argentino e um bebê filho de imigrantes

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Em dezembro de 2007, um fotógrafo entrou em um vestiário improvisado no antigo centro de treinamento do Barcelona para registrar uma campanha beneficente. Havia uma banheira de plástico, um bebê de cinco meses, uma mãe observando tudo de perto e um jovem de 20 anos que começava a chamar a atenção do futebol europeu. O roteiro parecia destinado a terminar esquecido em algum arquivo de jornal.
Quase duas décadas depois, aquela fotografia reapareceu para ganhar outro significado. O bebê virou Lamine Yamal, principal rosto da renovação da Espanha. O jovem que segurava a criança nos braços tornou-se Lionel Messi, campeão do mundo, oito vezes vencedor da Bola de Ouro e líder da Argentina. No domingo (19), os dois estarão frente a frente na final da Copa do Mundo, encerrando uma história que ninguém imaginava escrever quando a água ainda mal cobria os pés do garoto.
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Há imagens que sobrevivem porque registram um momento importante. Outras resistem porque o tempo decide transformá-las em símbolo. A fotografia feita por Joan Monfort pertence ao segundo grupo.
Um bebê de Rocafonda e um encontro improvável
A sessão aconteceu para um calendário solidário organizado pelo jornal catalão Sport, em parceria com o Barcelona e o UNICEF. Todos os anos, jogadores do elenco principal participavam de ações semelhantes ao lado de crianças escolhidas entre famílias da Catalunha. Centenas passaram diante das câmeras. Quase todas aquelas fotos permaneceram apenas como lembrança privada.
Com Lamine Yamal, o acaso decidiu outro caminho.
Filho de Mounir Nasraoui, marroquino, e de Sheila Ebana, nascida na Guiné Equatorial, o menino foi selecionado entre famílias do bairro de Rocafonda, em Mataró, município localizado a cerca de 30 quilômetros de Barcelona. A mãe aparece em várias imagens do ensaio ajudando a dar banho no filho, enquanto Messi, ainda um jovem tímido, tentava descobrir como segurar aquele bebê diante das câmeras.

O próprio fotógrafo lembra que nada aconteceu com naturalidade no início.
— Foi difícil. O Messi é uma pessoa bastante introvertida e tímida. Tinha 18 ou 20 anos e saiu do vestiário para, de repente, encontrar em outro vestiário uma banheira de plástico cheia de água com um bebê dentro. Foi complicado. No começo, ele nem sabia como pegar o bebê — disse o fotógrafo Joan Monfort.
Na época, ninguém poderia imaginar que aquele garoto seguiria o mesmo caminho do argentino dentro do Barcelona. Muito menos que pisaria no maior palco do futebol para enfrentá-lo.
O próprio UNICEF confirmou recentemente a autenticidade da fotografia.
— Sim, as fotos que vocês viram são reais. Há mais de 18 anos, um bebê chamado Lamine Yamal e sua mãe, Sheila, conheceram Lionel Messi em uma sessão de fotos para arrecadação de fundos do UNICEF.
A entidade destacou ainda que hoje ambos atuam como embaixadores da organização, utilizando a visibilidade conquistada no esporte para defender direitos das crianças ao redor do mundo. Essa coincidência ampliou ainda mais o peso simbólico daquele encontro ocorrido muito antes de qualquer um imaginar a dimensão que ambos alcançariam.
— É um verdadeiro milagre do destino. Se isso fosse roteiro de filme, ninguém acreditaria — afirmou Joan Monfort em entrevista à BBC.
Para o fotógrafo de 58 anos, torcedor do Barcelona, a final da Copa do Mundo colocando os dois personagens da sua foto frente a frente é o desfecho inimaginável para uma história que começou há quase 20 anos.
— É um final feliz. Acho que estamos encerrando o ciclo da história deles. Sou torcedor do Barcelona e acho que, para Messi, seria perfeito encerrar a carreira conquistando a Copa do Mundo pela segunda vez. Ele merece. Para Lamine, ele ainda tem muito tempo para conquistar outros troféus. Mas, se ele vencer agora, esse título valeria mais do que os outros que já conquistou. É muito difícil para mim. Meu coração está dividido em dois — afirmou Monfort.
Lamine e Yamal, dois amigos e o segredo de um nome
A fotografia ficou esquecida durante anos. Enquanto isso, o menino crescia em Rocafonda, um bairro marcado pela forte presença de famílias imigrantes e por índices de pobreza acima da média espanhola.
Os primeiros anos foram vividos em uma realidade distante da imagem de estrela internacional. Em entrevistas, Yamal costuma lembrar dos sacrifícios feitos pelos pais para mantê-lo no futebol, das dificuldades financeiras e do ambiente em que cresceu.
— Minha mãe me teve aos 16 anos. Depois, meu pai teve que se virar, sair e catar sucata na rua para poder trazer comida para casa. Isso sim, é pressão de verdade. Tudo o que eu tenho que fazer é jogar e fazer o povo espanhol feliz — disse à rádio espanhola Cadena SER quando lhe perguntaram sobre a pressão de jogar pela seleção.
A história da família foi contada pelo craque no podcast Resonancia de Corazón, do jornalista espanhol José Ramón de la Morena.
— A primeira a chegar, pelo lado do meu pai, foi a minha avó, que veio sozinha de ônibus do Marrocos. Ela entrou escondida no ônibus, passou por Algeciras e Granada até conseguir chegar a Mataró. Começou a trabalhar de manhã, de tarde e de noite para conseguir trazer o meu pai, que tinha ficado no Marrocos. Quando minha avó conseguiu juntar algum dinheiro, pagou uma mulher para trazer meu pai e minha tia, que vieram para a Espanha quando tinham três anos de idade.
O pai de Yamal, Mounir Nasraoui, conheceu Sheila Ebana, mãe do atacante, quando ainda eram adolescentes. Depois da gravidez, ele trabalhou como pintor de prédios e teve outros empregos, mas o dinheiro nem sempre era suficiente para bancar o aluguel e as despesas. Foi quando o casal recebeu a ajuda de dois amigos, chamados Lamine e Yamal, que acabaram sendo homenageados com o nome de batismo do bebê. O nome completo do craque é Lamine Yamal Nasraoui Ebana, com o sobrenome do pai e da mãe.
A história se tornou conhecida e reproduzida por diversos veículos da imprensa espanhola e europeia por causa de depoimentos de amigos da família, mas nunca foi confirmada publicamente por Yamal nem por seus pais. Mounir e Sheila se separaram quando Yamal tinha três anos. Mas permaneceram amigos.
Sheila se mudou para Granollers, outro município vizinho a Barcelona, passou a trabalhar numa rede de fast food e acabou conhecendo o coordenador da escolinha de um clube local, o CF La Torreta. Foi onde o pequeno Yamal deu seus primeiros passos no futebol até ser descoberto por olheiros do Barcelona, que o levaram para La Masia, a famosa academia que forma os talentos da base do clube.
Mas é o bairro de Rocafonda que aparece nas lembranças de Yamal quase como um personagem permanente. Não por acaso, toda vez que marca um gol, o atacante cruza os dedos formando o número 304. A comemoração faz referência aos três últimos dígitos do código postal do bairro (08304) onde passou a infância. É uma maneira de responder aos episódios de racismo e preconceito que enfrentou ao longo da carreira sem abandonar as próprias origens.

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Neste domingo, Yamal estará no maior palco do futebol mundial para buscar o título com que todo menino sonha ao jogar futebol. A sua mãe estará no estádio com o irmãozinho, Keyne, de 3 anos, fruto do segundo casamento. O pai não viajou aos EUA. Epiléptico, preferiu ficar em casa, torcendo pelo filho, orgulhoso.
A história do craque ajuda a explicar por que sua ascensão extrapolou o aspecto esportivo. Filho de imigrantes, criado longe dos bairros mais ricos da Catalunha, Lamine Yamal se tornou referência para uma geração que passou a enxergar nele uma representação muito maior do que apenas um talento do futebol.
A imagem daquele bebê ao lado de Messi, hoje, parece resumir toda essa caminhada em um único enquadramento.
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