Terceira final de Messi simboliza revolução da longevidade no esporte

Cada vez mais atletas vem conseguindo manter um bom desempenho em alta idade

PorTiago Teixeira MendesRio de Janeiro (RJ)
18/07/2026 12:47

Supervisionado porNathalia Gomes,
Lionel Messi, da Argentina, em evento antes da final da Copa do Mundo de 2026 contra a Espanha
Lionel Messi, da Argentina, em evento antes da final da Copa do Mundo de 2026 contra a Espanha (Foto: Elsa/Getty Images/AFP)

Aos 39 anos, Messi voltará a disputar uma final de Copa do Mundo neste domingo (19), diante da Espanha. Será a terceira decisão de Mundial da carreira do argentino, que segue decisivo mesmo na reta final da trajetória profissional e chega ao jogo após participar diretamente de 12 gols na competição. A campanha do camisa 10 reflete uma transformação cada vez mais evidente no esporte de alto rendimento: atletas têm prolongado o auge físico e técnico graças aos avanços da ciência, da medicina esportiva e do planejamento de carreira.

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O Mundial de 2026 ajuda a ilustrar essa mudança. Ao todo, 114 jogadores inscritos têm 35 anos ou mais, número que reforça como a idade deixou de ser, por si só, um limitador para competir em alto nível. Além de Messi, nomes como Cristiano Ronaldo, Luka Modric, Dzeko e Ochoa chegaram ao torneio em estágios avançados da carreira, cenário raro em Copas do Mundo de décadas anteriores.

Nas 22 edições realizadas entre 1930 e 2022, apenas sete atletas haviam entrado em campo em Mundiais após completarem 40 anos. Somente nesta edição, oito jogadores atingiram essa marca, evidenciando uma mudança no perfil dos atletas que permanecem competitivos mesmo em idade considerada elevada para o futebol.

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Para Claudio Fiorito, CEO da "P&P Sport Management", empresa responsável pela gestão da carreira de mais de 150 jogadores ao redor do mundo, a trajetória de Messi sintetiza uma evolução que vai além do talento individual.

– A longevidade do Messi reflete uma nova era no esporte. Antigamente, a carreira de um jogador parecia caminhar para o fim aos 30 anos; hoje, com a evolução da ciência esportiva e da gestão de carreira, eles jogam em alto nível até os 40 ou mais. Gerenciar um atleta agora vai muito além do campo, exige planejar ações que prolonguem seu auge físico e técnico. Além da genialidade, Messi é a prova de que, com planejamento estratégico e cuidado no extracampo, o tempo vira um aliado – afirma.

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Lionel Messi celebra vitória da Argentina sobre a Inglaterra com o braço erguido
Lionel Messi celebra vitória da Argentina sobre a Inglaterra com o braço erguido (Foto: Paul Ellis/AFP)

A permanência de jogadores em alto nível também está diretamente ligada à evolução da medicina esportiva. O acompanhamento constante da carga de trabalho, a prevenção de lesões, a recuperação física e o monitoramento de indicadores fisiológicos passaram a fazer parte da rotina dos principais clubes e seleções.

Segundo Bianca Carneiro, fisioterapeuta esportiva e especialista pela Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva e da Atividade Física (Sonafe Brasil), o esporte moderno passou a olhar para o atleta de maneira muito mais ampla do que apenas durante treinamentos e partidas.

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– Hoje a ciência faz uma distinção importante entre idade cronológica e biológica. Atletas que mantêm hábitos consistentes de treinamento, alimentação, sono e recuperação podem apresentar marcadores fisiológicos compatíveis com pessoas mais jovens. Isso não significa interromper o envelhecimento, mas retardar o declínio funcional. Talvez a maior mudança do esporte moderno seja justamente essa: não se trata mais de treinar mais, e sim de treinar melhor, recuperar melhor e monitorar melhor – explica.

O auge deixou de ter prazo definido

Especialistas ouvidos para o levantamento apontam que a transformação não acontece apenas pela evolução tecnológica ou médica. A forma como os próprios atletas passaram a administrar a carreira também mudou nas últimas décadas, com maior preocupação em relação à preparação física desde as categorias de base, alimentação, descanso e preservação do corpo ao longo das temporadas.

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Na avaliação de Thiago Freitas, COO da "Roc Nation Sports" no Brasil, esse planejamento começa muito antes de o jogador atingir o auge da carreira e influencia diretamente o tempo em que ele consegue permanecer competitivo.

– Estamos diante de uma geração que já iniciou sua carreira consciente de que seu preparo, ainda na adolescência, seria determinante para o quanto jogariam em alto nível. São muitos os que foram bem orientados também sobre os ganhos crescentes de remuneração, e o peso de mais quatro, cinco anos, na formação do patrimônio que vai financiar outras décadas sem os salários como atleta – afirma.

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O coordenador do Núcleo de Saúde do Santos, Rodrigo Zogaib, destaca que a evolução da medicina esportiva aconteceu de forma gradual, a partir da observação do desenvolvimento físico dos atletas ao longo das últimas décadas. Segundo ele, o foco deixou de ser apenas tratar lesões para priorizar ações preventivas desde a infância.

– De forma que foi se constatando, através de observação, o que ocorria com os atletas dos anos 80, anos 90 e o formato de o que eles eram submetidos para tratamentos curativos e tratamentos preventivos. Isso foi se aperfeiçoando através dessas décadas. Hoje o atleta profissional, desde a primeira idade de criança, encontra uma condição muito diferenciada no que diz respeito à prevenção. Então, por exemplo, existe acompanhamento de profissionais da saúde em grandes clubes no Brasil desde seis, sete anos de idade.

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Longevidade também muda outros esportes

Os avanços que permitem a jogadores como Messi permanecerem competitivos perto dos 40 anos não se restringem ao futebol. Especialistas apontam que a combinação entre preparação física, acompanhamento multidisciplinar e evolução da ciência esportiva tem prolongado carreiras em diferentes modalidades, tanto no alto rendimento quanto na prática esportiva ao longo da vida.

Um dos exemplos vem do tênis. Levantamento realizado pelo "Copenhagen City Heart Study" (CCHS), que acompanhou mais de 8.500 pessoas durante até 25 anos, identificou a modalidade como a mais associada ao aumento da expectativa de vida entre os esportes analisados. Segundo o estudo, praticantes de tênis vivem, em média, 9,7 anos a mais do que pessoas sedentárias. Os pesquisadores relacionam o resultado à combinação entre atividade física, benefícios cardiovasculares, estímulo cognitivo e interação social.

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Para Danilo Gaino, presidente da Federação Paulista de Tênis, o esporte ilustra como a evolução da preparação física tem permitido que atletas permaneçam em alto nível por mais tempo, ao mesmo tempo em que favorece uma prática esportiva duradoura para a população em geral.

– O tênis é uma das modalidades que melhor demonstra como a prática esportiva pode acompanhar uma pessoa por toda a vida. No alto rendimento, vemos atletas competindo em nível de excelência mesmo após os 35 anos, resultado da evolução da preparação física, da ciência do esporte e do planejamento de carreira. Ao mesmo tempo, nas competições da Federação Paulista de Tênis, é comum encontrarmos atletas na terceira idade em atividade, o que mostra que o esporte também é uma ferramenta importante para qualidade de vida e envelhecimento saudável – comenta.

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Outras modalidades também oferecem exemplos recentes. Aos 47 anos, o maratonista Paulo de Paula segue competindo em provas de alto nível. Neste mês, participou da NB 42K, em Porto Alegre, e terminou à frente do queniano Eliud Kipchoge, um dos maiores nomes da história da maratona. No judô, Rafael Silva, o Baby, encerrou a carreira aos 37 anos depois de conquistar três medalhas olímpicas e se tornar o judoca olímpico mais longevo do Brasil.

Eliud Kipchoge vence a NN Mission Marathon em Twente, na Holanda.
Eliud Kipchoge vence a NN Mission Marathon em Twente, na Holanda. (NN Marathon Mission/Divulgação)

Para Victor Schildt, triatleta e CFO da "Recoma", empresa especializada em infraestrutura esportiva, a longevidade precisa ser encarada também como consequência da ampliação do acesso ao esporte e da criação de ambientes adequados para sua prática.

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– Precisamos pensar na longevidade por meio do esporte. É um hábito que pode ser adquirido na infância e mantido ao longo de toda a vida, trazendo benefícios físicos e sociais. Quanto mais pessoas praticarem esporte em boas condições, maior será esse impacto para a saúde da população. Investir em infraestrutura esportiva também faz parte desse processo – afirma.

Estrutura e acompanhamento ampliam carreiras

A permanência dos atletas em alto rendimento também está ligada ao ambiente criado por clubes e entidades esportivas. Para Emerson Appel, gerente de Esportes e Relações Institucionais do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), a longevidade deixou de ser vista apenas como consequência do talento ou da preparação física e passou a depender de uma estrutura capaz de acompanhar o atleta durante toda a carreira.

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– O treinamento planejado, respeitando os princípios da periodização e da recuperação, aliado a uma alimentação equilibrada, ao sono de qualidade e ao acompanhamento multiprofissional, contribui para a prevenção de lesões, para a manutenção da capacidade física e cognitiva e para o prolongamento do desempenho esportivo em níveis elevados. Esses fatores permitem que o atleta desenvolva uma carreira mais sustentável, preservando sua saúde e ampliando suas possibilidades de evolução técnica e competitiva – afirma.

Segundo Appel, esse cenário depende de investimentos contínuos em centros de treinamento e equipes multidisciplinares, capazes de oferecer suporte permanente aos atletas desde as categorias de base até o alto rendimento.

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– Instalações adequadas, centros de treinamento, equipes compostas por treinadores, preparadores físicos, fisioterapeutas, médicos, nutricionistas, psicólogos e demais profissionais especializados criam condições para uma formação esportiva contínua e de excelência – completa.

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