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Espanha troca tiki-taka por agressividade e desafia a Argentina na final da Copa

Espanhóis mantêm posse de bola como marca, mas time é mais vertical que o de 2010

PorThiago BragaSão Paulo (SP)
19/07/2026 06:00
Atualizado em 19/07/2026 13:38
Yamal com os braços erguidos jogando pela Espanha
Yamal na partida entre Espanha e Áustria na Copa (Imagem: Charlotte Wilson/Getty Images/AFP)

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Há dezesseis anos, a Espanha conquistava a Copa do Mundo na África do Sul e mudava para sempre a maneira como o futebol passou a enxergar o jogo de posse. O time de Vicente del Bosque transformou o chamado tiki-taka em uma referência mundial, empilhando passes até retirar do adversário qualquer possibilidade de respirar. Agora, outra geração recoloca La Roja na decisão do torneio, desta vez diante da Argentina, preservando a velha convicção de que a bola deve permanecer sob seu controle, embora percorra caminhos bem diferentes até chegar ao gol.

Existe um fio que liga as duas equipes. Ele nasce nas ideias de Johan Cruyff, o homem que ajudou a moldar o futebol moderno tanto dentro quanto fora do Barcelona. O holandês, eleito três vezes melhor jogador do mundo, finalista da Copa do Mundo de 1974 e treinador do clube catalão por oito temporadas, sintetizou sua visão em uma frase que atravessou gerações:

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— Se você tem a bola, o rival não a tem — definiu o holandês.

Mais do que uma frase célebre, a máxima virou um princípio da formação espanhola. A seleção e o Barcelona aprenderam a tratar a posse como ferramenta de ataque e de defesa ao mesmo tempo. Quando perdem a bola, não recuam imediatamente para proteger a própria área. O primeiro movimento é cercar o adversário e tentar recuperá-la no menor espaço de tempo possível.

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Essa lógica permanece intacta na equipe de Luis de la Fuente. O que mudou foi a velocidade com que tudo acontece.

Espanha preserva controle com mais velocidade

Comparar a campeã de 2010 com a finalista de 2026 pode induzir a um erro comum: imaginar que ambas jogam exatamente da mesma forma apenas porque gostam de ficar com a bola. O ponto de partida realmente é parecido. O caminho até o gol, porém, mudou bastante.

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A equipe de Vicente del Bosque era paciente quase ao extremo. Com Xavi, Andrés Iniesta, Sergio Busquets, Xabi Alonso e David Silva, o jogo parecia desacelerar. A circulação da bola desgastava o rival pouco a pouco até surgir um espaço mínimo para decidir a partida. Não por acaso, todos os confrontos eliminatórios daquela campanha terminaram em vitórias por 1 a 0.

Cucurella é lateral-esquerdo da seleção da Espanha
O lateral-esquerdo Cucurella é um dos destaquea da Espanha (Foto: Charly Triballeau/AFP)

A seleção atual prefere outro ritmo. Continua dona da posse, mas troca a contemplação pela agressividade. Em vez de dezenas de passes antes da infiltração, acelera assim que identifica um corredor livre. Os extremos ganharam protagonismo, a circulação ficou mais vertical e os ataques passaram a buscar profundidade sem abrir mão do controle.

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Para o correspondente da Agência EFE no Brasil, Carlos Meneses, a essência continua reconhecível, embora o comportamento em campo revele uma transformação importante.

— A maior semelhança entre a Espanha campeã de 2010 e a equipe de Luis de la Fuente está na filosofia de jogo. As duas seleções gostam de controlar a posse de bola e assumir o protagonismo das partidas. Não são equipes que esperam em bloco baixo para explorar contra-ataques. A ideia sempre foi comandar o jogo por meio da circulação da bola — afirmou Carlos Meneses.

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Na avaliação do jornalista, o parentesco praticamente termina nesse ponto.

— Embora compartilhem essa identidade, as diferenças são maiores do que as semelhanças. A Espanha de 2010, e também as versões de 2014, 2018 e 2022, praticava uma posse mais paciente, construída lentamente, valorizando a circulação até encontrar o momento ideal para atacar. A equipe atual é muito mais vertical. Sob o comando de Luis de la Fuente, a seleção procura acelerar as jogadas, aumentar o ritmo do ataque e chegar ao gol com muito mais rapidez — continuou o jornalista.

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O jornalista espanhol Eduardo Alvarez enxerga a mesma mudança, embora utilize outra referência para ilustrar o contraste entre as duas gerações.

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— São dois times que jogam de uma forma muito parecida, com esse estilo que já virou quase uma marca da Espanha: muita posse de bola, controle do jogo e busca constante pelo jogador livre. A principal diferença é que esta seleção é mais ofensiva, gosta mais de atacar e procura sempre acelerar em direção ao gol. A equipe de 2010 valorizava mais a conservação da bola — explicou Eduardo Alvarez.

A alteração aparece também na distribuição das peças. Em 2010, a equipe girava em torno de um meio-campo considerado por muitos um dos melhores da história. Hoje, sem abandonar a inteligência coletiva, a seleção aceita decidir partidas em velocidade, explorando jogadores capazes de romper linhas no um contra um.

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É justamente aí que surge a figura de Lamine Yamal.

Se a geração campeã do mundo dependia muito menos do brilho individual, a equipe de 2026 encontrou em seu camisa 19 um elemento que não existia naquela versão. O atacante do Barcelona pode passar boa parte do jogo distante do gol e, ainda assim, resolver tudo em um lance. Ao lado dele, Nico Williams representa outro perfil praticamente inexistente na Espanha campeã mundial: o ponta explosivo, que acelera em campo aberto e obriga o marcador a defender olhando para o próprio gol.

Como resume Carlos Meneses, essa talvez seja a transformação mais visível da seleção.

— Outra diferença importante está nas características dos jogadores de lado do campo. Em 2010, o ataque era formado por atletas como David Silva, Andrés Iniesta, Xavi, Xabi Alonso e Fernando Torres, jogadores extremamente técnicos e inteligentes, mas sem a explosão e a verticalidade dos pontas atuais. Hoje, a seleção conta com perfis como Lamine Yamal e Nico Williams, que atacam o espaço, enfrentam marcadores no um contra um e aceleram constantemente o jogo. Nesta Copa do Mundo, Nico Williams perdeu espaço por causa das lesões, mas foi peça decisiva no título da Eurocopa de 2024 ao lado de Lamine Yamal — analisou o correspondente da Agência EFE no Brasil.

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Para Eduardo Alvarez, há outro detalhe que ajuda a explicar por que os ataques espanhóis de hoje parecem tão diferentes dos de dezesseis anos atrás.

— A seleção de 2010 tinha dois atacantes. Fernando Torres não vivia seu melhor momento, mas David Villa provavelmente atravessava o auge da carreira. A Espanha atual não tem um centroavante com esse perfil. Mikel Oyarzabal, apesar do incrível aproveitamento com a camisa da seleção, não oferece a mesma presença ofensiva de Villa — explicou Eduardo Alvarez.

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Ao mesmo tempo, o jornalista acredita que a geração atual ganhou uma arma que seus antecessores não possuíam.

— Por outro lado, aquele time também não tinha uma estrela com o potencial que Lamine Yamal demonstra ter para os próximos anos.

A bola continua sendo o centro de tudo. A diferença é que, se em 2010 ela servia para controlar o relógio, hoje também funciona como um gatilho para acelerar o jogo. É essa combinação entre uma ideia antiga e uma execução muito mais vertical que levou a Espanha de volta à final da Copa do Mundo e transformou a herdeira do tiki-taka em uma equipe bastante diferente daquela que encantou o planeta na África do Sul.

Projeto que vem desde a base

O futebol costuma consagrar gerações pelo talento que exibem em campo. A história desta Espanha, porém, também passa pelos anos que antecederam a chegada à seleção principal. O trabalho de Luis de la Fuente não começou na Copa do Mundo, nem na conquista da Eurocopa. Ele foi construído lentamente dentro da própria Federação Espanhola, acompanhando uma geração desde as categorias inferiores até transformá-la na espinha dorsal da equipe que agora disputará o título mundial.

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Escolhido para substituir Luis Enrique no fim de 2022, depois da eliminação para o Marrocos nas oitavas da Copa do Mundo do Catar, o treinador chegou respaldado por um currículo pouco comum entre técnicos de seleções principais. Durante mais de uma década trabalhou exclusivamente na base espanhola, passando pelo sub-17, sub-19, sub-21 e seleção olímpica. Nesse período conquistou o Europeu Sub-19, venceu o Europeu Sub-21 em 2019 e ainda conduziu a equipe à medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Luis de la Fuente é o técnico da Espanha
Luis de la Fuente se destaca na Copa no comando da Espanha (Foto: Ronaldo Schemidt/AFP

A convivência diária com jogadores que hoje ocupam posições-chave ajudou a criar uma identidade que aparece naturalmente durante as partidas. Rodri, Fabián Ruiz, Mikel Merino, Unai Simón e vários outros cresceram sob a mesma metodologia, assimilando princípios que hoje parecem automáticos dentro de campo.

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Desde janeiro de 2023, Luis de la Fuente perdeu apenas três partidas e chega à final da Copa do Mundo sustentado por uma sequência de 37 jogos de invencibilidade. Antes disso, já havia conduzido a Espanha aos títulos da UEFA Nations League, em 2023, e da Eurocopa, em 2024, consolidando um ciclo que agora tenta alcançar seu ponto mais alto.

Para Carlos Meneses, essa construção explica também uma mudança importante na forma como o treinador administra o elenco.

Luis de la Fuente trabalha de maneira diferente. Depois dos títulos recentes, ganhou respaldo para tomar decisões sem se prender ao peso dos nomes. Quem não rende perde espaço, independentemente do currículo. O principal exemplo nesta Copa do Mundo é Pedri. Mesmo sendo um dos jogadores mais talentosos da seleção e titular absoluto do Barcelona, ele não vinha fazendo um bom torneio e acabou deixando a equipe para a entrada de Fabián Ruiz, do Paris Saint-Germain — afirmou.

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Nem mesmo o principal símbolo da nova geração escapou desse critério.

— O mesmo vale para Lamine Yamal. Apesar de ser um dos protagonistas da Eurocopa de 2024, chegou à Copa do Mundo sem estar no melhor nível físico após uma lesão. Por isso, deixou de ser titular em parte da competição, enquanto Álex Baena ganhou oportunidades. A mensagem do treinador é clara: ninguém tem vaga assegurada apenas pelo nome.

Para Eduardo Alvarez, esse ambiente explica por que a seleção parece funcionar com tanta naturalidade mesmo diante de mudanças na escalação.

Agora, todo esse projeto encontrará seu exame mais exigente. Do outro lado estará a Argentina, atual campeã da Copa do Mundo, liderada por Lionel Messi, que chega a mais uma decisão depois de conduzir a equipe em uma campanha marcada por viradas e demonstrações de força emocional.

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O componente emocional também faz parte da preparação espanhola. A imagem de Messi dando banho em um bebê chamado Lamine Yamal, há quase duas décadas, voltou a circular nos últimos dias.

— Acho que esse será um aspecto importante do trabalho de Luis de la Fuente. Messi é um ídolo para muitos desses jogadores, mas dentro de campo precisa ser tratado como qualquer outro adversário. Para ganhar o respeito do seu ídolo, é preciso enfrentá-lo de igual para igual. Se precisar fazer falta, faz falta. Se precisar desarmá-lo, desarma. Não existe espaço para excesso de respeito em uma final de Copa do Mundo, porque, se isso acontecer, o jogo pode escapar ainda no primeiro tempo — afirmou Eduardo Alvarez.

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No domingo, quando a bola começar a rolar em Nova Jersey, a comparação entre 2010 e 2026 deixará de ser apenas um exercício de memória. A nova Espanha terá a oportunidade de provar que preservou a essência do futebol que encantou o mundo, embora tenha encontrado um caminho próprio para chegar até ela. Do outro lado estará uma Argentina acostumada a sobreviver às noites mais difíceis. É desse encontro entre duas escolas consolidadas que sairá a próxima campeã da Copa do Mundo.

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