EXCLUSIVO PARA ASSINANTES

Gramados híbridos da Copa do Mundo desafiam a Fifa e dividem opiniões

Entidade máxima do futebol precisou se adaptar aos diferentes climas

PorPedro WerneckRio de Janeiro (RJ)
01/07/2026 15:59
Gramado do Lumen Field recebe tratamento com luz articial para jogos da Copa do Mundo
Gramado do Lumen Field recebe tratamento com luz articial para jogos da Copa do Mundo (Foto: Steph Chambers / AFP)

Carregando conteúdo exclusivo...

Com 16 estádios divididos por três países (Canadá, Estados Unidos e México), a Copa do Mundo de 2026 precisa de adaptações constantes para a garantia da qualidade dos campos. A Fifa optou por gramados híbridos: 90% grama natural, 10% grama artificial, proporção também adotada no Maracanã, por exemplo. A elogiada Arena Corinthians, por sua vez, usa 4% de grama artificial.

continua após a publicidade

Em entrevista ao Lance!, Christian Eberlin, gerente sênior de Desenvolvimento de Mercado da Yara Brasil, marca que desenvolve fertilizantes para gramados de futebol, explicou por que a entidade máxima do futebol fez esta escolha:

— O grande trunfo do gramado híbrido é a durabilidade. Máquinas especializadas inserem milhares de fibras sintéticas abaixo da superfície do campo. Com o crescimento da grama, as raízes se entrelaçam nessas fibras, formando uma estrutura muito mais resistente. Na prática, isso reduz a formação dos famosos divots (tufos de grama que saem durante carrinhos e arrancadas), mantendo o campo mais nivelado, estável e seguro, mesmo após muitos jogos. Não por acaso, essa tecnologia já é amplamente utilizada nas principais ligas da Europa. No Brasil, os gramados híbridos também vêm ganhando espaço em arenas que recebem um calendário intenso de partidas e eventos, permitindo que o campo mantenha alta qualidade durante toda a temporada.

continua após a publicidade

➡️ Siga o Lance! no WhatsApp e acompanhe em tempo real as principais notícias do esporte

Adaptações e desafios na Copa do Mundo

As diferentes sedes, tão afastadas umas das outras, impõem o desafio das variações climáticas. Desde o início do Mundial, Miami, na costa leste dos Estados Unidos, já ultrapassou os 35ºC, enquanto San Francisco, no oeste, registrou temperaturas abaixo dos 20ºC. Por isso, uma equipe especializada da Fifa implementou um projeto de pesquisa nos últimos anos, em parceria com as universidades do Tennessee e Michigan, para criar um gramado uniforme, dividido em dois tipos: para frio e calor.

— A escolha da grama depende principalmente do clima. Em regiões quentes, predominam as gramas do tipo Bermuda, conhecidas por suportarem altas temperaturas, muito pisoteio e rápida recuperação. No inverno, elas podem perder parte da coloração verde. Já em países de clima frio, a preferência é pelo Ryegrass, que mantém um verde intenso mesmo em baixas temperaturas, mas sofre quando exposto ao calor. Além disso, em regiões de clima mais variável, é comum a prática do chamado overseeding, no qual, durante o inverno, se planta o Ryegrass sobre a Bermuda para manter o campo verde e em ótimas condições ao longo de todo o ano — esclarece Eberlin.

continua após a publicidade

Além dos climas variados, os estádios têm características diferentes que impactam diretamente no cuidado dos gramados. Muitas arenas, por exemplo, têm coberturas que dificultam a entrada de luz solar e circulação natural do ar.

O AT&T Stadium, em Dallas, e o NRG Stadium, em Houston, são climatizados para evitar o impacto das altíssimas temperaturas do verão nas cidades americanas. Durante a Copa do Mundo, registros dos gramados com coloração rosa nas vésperas de jogos chamaram atenção, inclusive antes do duelo entre Brasil e Japão. Mas não, os gramados não foram pintados. Nas imagens, recebiam luz artificial por meio de equipamentos móveis com lâmpadas especiais que simulavam o sol nas áreas de sombra, mantendo a fotossíntese da grama e favorecendo o seu desenvolvimento.

NRG Stadium recebe luz artificial em tratamento antes do jogo entre Brasil e Japão pela Copa do Mundo de 2026
NRG Stadium recebe luz artificial em tratamento antes do jogo entre Brasil e Japão pela Copa do Mundo de 2026 (Foto: Márcio Iannacca / Lance!)

Outras tecnologias também são utilizadas em diversas arenas para simular um clima ideal: ventiladores ajudam a circular o ar e reduzir o risco de doenças causadas por fungos, enquanto sistemas de drenagem subterrâneos aceleram a retirada de água e auxiliam no controle da temperatura do solo.

Estádios da Copa do Mundo receberão até nove jogos em um intervalo de 40 dias. A manutenção, então, envolve outros cuidados básicos essenciais. Muitas vezes, a má qualidade dos gramados no Brasil passa pela impossibilidade de aplicação ideal de tais medidas, devido ao calendário tão agitado. No Maracanã, por exemplo, a dupla Fla-Flu joga pelo menos uma vez por semana.

— Manter um gramado de alto nível exige uma rotina diária de cuidados e um trabalho contínuo de uma equipe especializada. A manutenção envolve diversas etapas, desde o corte até o equilíbrio nutricional com aplicação de fertilizantes, de forma a garantir condições ideais para a prática esportiva — acrescenta Eberlin. Entre os cuidados citados, estão:

  1. Corte frequente do gramado na altura recomendada para garantir a velocidade da bola e uniformidade da superfície;
  2. Recuperação após as partidas conforme a ação de uma equipe de manutenção, que entra no campo para recolocar tufos e corrigir imperfeições;
  3. Monitoramento constante dos gramados por meio de sensores, que fornecem dados relacionados à umidade, firmeza e compactação do solo;
  4. Uso correto de fertilizantes, como nitrogênio (crescimento e coloração), potássio (fortalecimento e resistência), fósforo (estimulação das raízes), entre outros.
Equipe de manutenção apara a grama do gramado do San Francisco Bay Area Stadium para jogos da Copa do Mundo
Equipe de manutenção apara a grama do San Francisco Bay Area Stadium para jogos da Copa do Mundo (Foto: Alex Grimm / AFP)

+ Aposte em diversos jogos da Copa do Mundo!
*É preciso ter mais de 18 anos para participar de qualquer atividade de jogo de apostas. Jogue de forma responsável.

Críticas e elogios aos gramados da Copa do Mundo

Por mais que todos os cuidados procurem garantir uniformidade na qualidade dos gramados, as diferentes características ainda geram percepções distintas dos jogadores. Além de todos os problemas climáticos, muitos dos estádios da Copa do Mundo são palco de jogos de futebol americano durante o ano e possuem uma base de concreto sob o campo.

É o caso do MetLife Stadium, onde ocorrerá a final do Mundial, que passou pela transição do gramado artificial para o híbrido. O processo envolveu instalação de uma camada de areia e assentamento de blocos de grama natural, além dos recorrentes cuidados já citados com ventilação e irrigação. Ainda assim, porém, jogadores e técnicos disseram sentir a dureza do concreto.

— A grama seca rapidamente, e o jogo fica muito lento — comentou Vini Jr depois de o Brasil atuar no estádio de New Jersey na partida contra Marrocos, primeira rodada da fase de grupos.

— O gramado... nem sei se dá para chamá-lo assim. Parecia mais uma superfície artificial, bem dura e rígida — afirmou o meio-campista francês Adrien Rabiot após jogar contra a seleção senegalesa no mesmo MetLife Stadium.

— O fato de haver uma laje de concreto por baixo faz com que as fibras da grama sejam muito curtas. O quique da bola é diferente — acrescentou o técnico francês, Didier Deschamps.

Vini Jr marcou gol de empate em Brasil x Marrocos (Foto: CHARLY TRIBALLEAU / AFP)
Vini Jr foge da marcação de Hakimi no jogo entre Brasil e Marrocos, disputado no MetLife Stadium (Foto: Charly Triballeau / AFP)

Outro estádio, o BC Place, em Vancouver, no Canadá, também conta com superfície de concreto e teve o campo "padrão Fifa" plantado por cima do gramado artificial. No entanto, a recepção foi bastante diferente, com elogios entusiasmados de diferentes atletas. Segundo o "The Athletic", o bom resultado começou no plantio da grama na fazenda canadense Bos Sod Farms, que considerou cada aspecto climático e estrutural. Além disso, o clima da cidade canadense e o uso de teto retrátil para controlar a exposição do campo ao calor contribuíram para o êxito.

— Acho que fizeram um ótimo trabalho para deixá-lo nas condições em que está. A bola rolou bem. Não estava muito dura. Acho que deixaram tudo perfeito, para ser sincero — elogiou o australiano Aiden O'Neil após a vitória por 2 a 0 sobre a Turquia no BC Place.

— O melhor campo em que já joguei — exaltou o canadense Alistair Johnston depois de sua seleção golear o Catar por 6 a 0 no mesmo estádio.

BC Place com teto retrátil fechado para o duelo entre Bélgica e Nova Zelândia, pela fase de grupos da Copa do Mundo
BC Place com teto retrátil fechado para o duelo entre Bélgica e Nova Zelândia, pela fase de grupos da Copa do Mundo (Foto: Fran Santiago / AFP)
Sugerida para você!

Mais LANCE!