Gramados híbridos da Copa do Mundo desafiam a Fifa e dividem opiniões
Entidade máxima do futebol precisou se adaptar aos diferentes climas

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Com 16 estádios divididos por três países (Canadá, Estados Unidos e México), a Copa do Mundo de 2026 precisa de adaptações constantes para a garantia da qualidade dos campos. A Fifa optou por gramados híbridos: 90% grama natural, 10% grama artificial, proporção também adotada no Maracanã, por exemplo. A elogiada Arena Corinthians, por sua vez, usa 4% de grama artificial.
Em entrevista ao Lance!, Christian Eberlin, gerente sênior de Desenvolvimento de Mercado da Yara Brasil, marca que desenvolve fertilizantes para gramados de futebol, explicou por que a entidade máxima do futebol fez esta escolha:
— O grande trunfo do gramado híbrido é a durabilidade. Máquinas especializadas inserem milhares de fibras sintéticas abaixo da superfície do campo. Com o crescimento da grama, as raízes se entrelaçam nessas fibras, formando uma estrutura muito mais resistente. Na prática, isso reduz a formação dos famosos divots (tufos de grama que saem durante carrinhos e arrancadas), mantendo o campo mais nivelado, estável e seguro, mesmo após muitos jogos. Não por acaso, essa tecnologia já é amplamente utilizada nas principais ligas da Europa. No Brasil, os gramados híbridos também vêm ganhando espaço em arenas que recebem um calendário intenso de partidas e eventos, permitindo que o campo mantenha alta qualidade durante toda a temporada.
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Adaptações e desafios na Copa do Mundo
As diferentes sedes, tão afastadas umas das outras, impõem o desafio das variações climáticas. Desde o início do Mundial, Miami, na costa leste dos Estados Unidos, já ultrapassou os 35ºC, enquanto San Francisco, no oeste, registrou temperaturas abaixo dos 20ºC. Por isso, uma equipe especializada da Fifa implementou um projeto de pesquisa nos últimos anos, em parceria com as universidades do Tennessee e Michigan, para criar um gramado uniforme, dividido em dois tipos: para frio e calor.
— A escolha da grama depende principalmente do clima. Em regiões quentes, predominam as gramas do tipo Bermuda, conhecidas por suportarem altas temperaturas, muito pisoteio e rápida recuperação. No inverno, elas podem perder parte da coloração verde. Já em países de clima frio, a preferência é pelo Ryegrass, que mantém um verde intenso mesmo em baixas temperaturas, mas sofre quando exposto ao calor. Além disso, em regiões de clima mais variável, é comum a prática do chamado overseeding, no qual, durante o inverno, se planta o Ryegrass sobre a Bermuda para manter o campo verde e em ótimas condições ao longo de todo o ano — esclarece Eberlin.
Além dos climas variados, os estádios têm características diferentes que impactam diretamente no cuidado dos gramados. Muitas arenas, por exemplo, têm coberturas que dificultam a entrada de luz solar e circulação natural do ar.
O AT&T Stadium, em Dallas, e o NRG Stadium, em Houston, são climatizados para evitar o impacto das altíssimas temperaturas do verão nas cidades americanas. Durante a Copa do Mundo, registros dos gramados com coloração rosa nas vésperas de jogos chamaram atenção, inclusive antes do duelo entre Brasil e Japão. Mas não, os gramados não foram pintados. Nas imagens, recebiam luz artificial por meio de equipamentos móveis com lâmpadas especiais que simulavam o sol nas áreas de sombra, mantendo a fotossíntese da grama e favorecendo o seu desenvolvimento.

Outras tecnologias também são utilizadas em diversas arenas para simular um clima ideal: ventiladores ajudam a circular o ar e reduzir o risco de doenças causadas por fungos, enquanto sistemas de drenagem subterrâneos aceleram a retirada de água e auxiliam no controle da temperatura do solo.
Estádios da Copa do Mundo receberão até nove jogos em um intervalo de 40 dias. A manutenção, então, envolve outros cuidados básicos essenciais. Muitas vezes, a má qualidade dos gramados no Brasil passa pela impossibilidade de aplicação ideal de tais medidas, devido ao calendário tão agitado. No Maracanã, por exemplo, a dupla Fla-Flu joga pelo menos uma vez por semana.
— Manter um gramado de alto nível exige uma rotina diária de cuidados e um trabalho contínuo de uma equipe especializada. A manutenção envolve diversas etapas, desde o corte até o equilíbrio nutricional com aplicação de fertilizantes, de forma a garantir condições ideais para a prática esportiva — acrescenta Eberlin. Entre os cuidados citados, estão:
- Corte frequente do gramado na altura recomendada para garantir a velocidade da bola e uniformidade da superfície;
- Recuperação após as partidas conforme a ação de uma equipe de manutenção, que entra no campo para recolocar tufos e corrigir imperfeições;
- Monitoramento constante dos gramados por meio de sensores, que fornecem dados relacionados à umidade, firmeza e compactação do solo;
- Uso correto de fertilizantes, como nitrogênio (crescimento e coloração), potássio (fortalecimento e resistência), fósforo (estimulação das raízes), entre outros.

Críticas e elogios aos gramados da Copa do Mundo
Por mais que todos os cuidados procurem garantir uniformidade na qualidade dos gramados, as diferentes características ainda geram percepções distintas dos jogadores. Além de todos os problemas climáticos, muitos dos estádios da Copa do Mundo são palco de jogos de futebol americano durante o ano e possuem uma base de concreto sob o campo.
É o caso do MetLife Stadium, onde ocorrerá a final do Mundial, que passou pela transição do gramado artificial para o híbrido. O processo envolveu instalação de uma camada de areia e assentamento de blocos de grama natural, além dos recorrentes cuidados já citados com ventilação e irrigação. Ainda assim, porém, jogadores e técnicos disseram sentir a dureza do concreto.
— A grama seca rapidamente, e o jogo fica muito lento — comentou Vini Jr depois de o Brasil atuar no estádio de New Jersey na partida contra Marrocos, primeira rodada da fase de grupos.
— O gramado... nem sei se dá para chamá-lo assim. Parecia mais uma superfície artificial, bem dura e rígida — afirmou o meio-campista francês Adrien Rabiot após jogar contra a seleção senegalesa no mesmo MetLife Stadium.
— O fato de haver uma laje de concreto por baixo faz com que as fibras da grama sejam muito curtas. O quique da bola é diferente — acrescentou o técnico francês, Didier Deschamps.

Outro estádio, o BC Place, em Vancouver, no Canadá, também conta com superfície de concreto e teve o campo "padrão Fifa" plantado por cima do gramado artificial. No entanto, a recepção foi bastante diferente, com elogios entusiasmados de diferentes atletas. Segundo o "The Athletic", o bom resultado começou no plantio da grama na fazenda canadense Bos Sod Farms, que considerou cada aspecto climático e estrutural. Além disso, o clima da cidade canadense e o uso de teto retrátil para controlar a exposição do campo ao calor contribuíram para o êxito.
— Acho que fizeram um ótimo trabalho para deixá-lo nas condições em que está. A bola rolou bem. Não estava muito dura. Acho que deixaram tudo perfeito, para ser sincero — elogiou o australiano Aiden O'Neil após a vitória por 2 a 0 sobre a Turquia no BC Place.
— O melhor campo em que já joguei — exaltou o canadense Alistair Johnston depois de sua seleção golear o Catar por 6 a 0 no mesmo estádio.

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