Tropeço na estreia da Copa do Mundo expõe antigos problemas da Espanha
Seleção teve 74% de posse e 27 finalizações, mas não conseguiu marcar contra Cabo Verde
A zebra histórica contra Cabo Verde, na estreia da Copa do Mundo nesta segunda-feira (15), expôs uma ferida que a Espanha acreditava ter cicatrizado. O empate sem gols em Atlanta não foi apenas um tropeço inesperado diante da estreante africana. Foi a demonstração de que a seleção de Luis de la Fuente ainda depende demais de dois jogadores para transformar posse de bola em perigo real: Lamine Yamal e Nico Williams.
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A Espanha teve 74% de posse, 27 finalizações, sete chutes no alvo, 11 escanteios, 800 passes e 2,10 gols esperados. Dominou territorialmente o jogo do início ao fim, praticamente não sofreu defensivamente e mesmo assim terminou a noite sem marcar. Cabo Verde teve méritos, principalmente pela organização defensiva e pela atuação do goleiro Vozinha, autor de sete defesas, mas a sensação deixada pela partida foi clara: a Espanha controlou muito e machucou pouco.
A equipe rondou a área, trocou passes, empilhou cruzamentos e pressionou no fim. Ainda assim, faltou aquela chance claríssima, o lance de gol praticamente feito, a jogada em que o adversário é desmontado por completo. Houve a bola de Ferran Torres no travessão e boas intervenções do goleiro cabo-verdiano, mas a seleção espanhola passou boa parte do jogo previsível.
Ausência de Yamal e Nico Williams pesou
A dupla foi o fator de desequilíbrio que tornou a Espanha campeã da Eurocopa de 2024. Depois de anos associada a um futebol de posse, controle e pouca agressividade, a seleção encontrou nos dois pontas uma forma diferente de atacar. Yamal pela direita e Nico pela esquerda deram drible, profundidade, improviso e capacidade de desmontar defesas fechadas no um contra um.
Sem eles, a Espanha voltou a lembrar versões antigas de si mesma. A posse seguiu ali. O controle também. Rodri, Pedri e Fabián Ruiz mantiveram a bola, limitaram os contra-ataques de Cabo Verde e empurraram o rival para trás. Mas faltou a flecha. Faltou o jogador capaz de acelerar quando o passe lateral já não bastava.
Luis de la Fuente tentou explicar o empate pela dificuldade imposta por um rival extremamente fechado.
— Se soluciona insistindo na mesma ideia, seguindo melhorando com mais precisão. São esses jogos em que você gera muito, mas sem a frescura necessária. Eles são uma equipe muito organizada, vimos que se fecharam em bloco baixo, e é muito difícil gerar espaços assim. Ainda assim, criamos chegadas. Faltou um pouco de circulação para gerar mais, mas quando a bola não quer entrar, não quer entrar. Houve finalizações, ocasiões e vontade de resolver rápido, mas sabemos que isso é muito difícil e que aqui custa muito ganhar — afirmou o treinador.
O técnico também defendeu a decisão de iniciar com Yamal e Nico no banco. Os dois chegaram ao Mundial sob cuidados físicos e tiveram minutos controlados na estreia. Yamal entrou aos 24 minutos do segundo tempo. Nico, apenas na reta final.
— O objetivo é ir dando minutos a eles, para que adquiram confiança e ritmo e estejam melhores nos próximos compromissos — explicou De la Fuente.
A entrada de Yamal mudou o ambiente. A Espanha ganhou drible, velocidade e agressividade pela direita. Cabo Verde recuou ainda mais e o estádio reagiu imediatamente ao primeiro lance de desequilíbrio do jovem. Mas o tempo foi curto. O camisa 19 não estava em campo desde o início justamente porque ainda retorna de lesão e não tinha ritmo competitivo ideal.

Yamal se pronunciou
— Estou perfeito — disse, o atacante, que adotou tom de calma após o tropeço:
— Primeiro jogo da Copa do Mundo e somamos um ponto. Sabemos que esta é uma competição longa e que o objetivo ainda está longe. Seguiremos trabalhando e tudo sairá como desejamos, não duvidem. Quero agradecer a Deus por me permitir voltar a jogar depois da lesão, e também à minha família por estar sempre ao meu lado, me apoiando e me acompanhando em cada passo deste caminho — escreveu.
De la Fuente também tentou tirar peso do resultado e lembrou a sequência de invencibilidade construída pela Espanha.
— Quando não se tem o resultado que pensávamos obter, que era ganhar, pode surgir essa sensação, mas, no vestiário, de forma nenhuma. Sabíamos da dificuldade. Já tínhamos feito esse planejamento antes do jogo, entendendo que seria difícil enfrentar uma equipe muito recuada, em um bloco baixíssimo e com uma condição física importante, que poderia gerar problemas. Ainda assim, criamos ocasiões suficientes de gol. Faltou frescura, faltou um pouco de precisão. Acho que o primeiro jogo também pesou um pouco, mas a proposta com Gavi pelo lado era gerar superioridade por dentro e abrir corredores para quem chegasse de trás — analisou.
O discurso de confiança, porém, não apaga o alerta, e a Espanha conhece bem esse problema. Em 2010, foi campeã mundial, mas marcou apenas oito gols em sete jogos, a menor marca ofensiva de uma seleção campeã na história das Copas. No mata-mata, venceu Portugal, Paraguai, Alemanha e Holanda sempre por 1 a 0. Era uma equipe brilhante, mas que vivia no limite ofensivo.
Depois vieram os traumas. Em 2014, eliminação na fase de grupos, com derrotas para Holanda e Chile. Em 2018, queda para a Rússia nas oitavas, em um jogo marcado pelo toque excessivo e pouca profundidade. Em 2022, nova eliminação nas oitavas, contra Marrocos, após um 0 a 0 em que a Espanha teve a bola, mas não encontrou caminhos.
A Eurocopa de 2024 parecia ter mudado esse roteiro. Yamal e Nico Williams deram à Espanha aquilo que faltava: desequilíbrio individual. Sem a melhor versão dos dois, o time voltou a depender demais da circulação de bola e da paciência.

Imprensa espanhola repercute: "Um desastre"
"Um desastre para começar", estampou o jornal Marca. Para o periódico, a Espanha foi uma equipe "irreconhecível, sem futebol, ideias e recursos", incapaz de superar uma seleção que protagonizou "um milagre esportivo". O diário ainda destacou que Luis de la Fuente demorou a recorrer a Yamal e Nico Williams, que entraram apenas no segundo tempo.
O AS seguiu a mesma linha.
"Petardazo", definiu o jornal, em uma palavra que pode ser traduzida como fracasso retumbante. O veículo classificou a Espanha como uma equipe "sem alma", impotente diante de Cabo Verde e sugeriu que o rótulo de favorita ao título deveria ser guardado na gaveta.
De la Fuente não pretende mudar identidade da Espanha
— Essa ideia é o que nos trouxe até aqui, o que nos fez campeões da Europa, o que nos fez ficar tanto tempo invictos. Temos que seguir apostando nessa ideia e também recuperar jogadores importantes, que terão peso à medida que a competição avançar. Nós seguimos com os pés no chão, nunca deixamos de ter os pés no chão, sabendo da dificuldade que é estar sempre na elite, sempre no mais alto nível. Somos uma equipe confiável. Levamos muito tempo competindo em altíssimo nível. É preciso aceitar essa realidade. Claro que temos que melhorar. E, nessa humildade que temos, nessa aceitação dos aspectos que precisam melhorar, passa por todos sermos um pouco melhores no próximo jogo — disse.
Essa talvez seja a síntese do problema. A Espanha fez muito daquilo que sabe fazer. Teve a bola, controlou o campo, empurrou o rival para trás e impediu quase todos os contra-ataques. Mas, na Copa do Mundo, controlar não basta. É preciso ferir. Sem Yamal e Nico Williams em plena condição, a Espanha pode não ser a favorita que se esperava.
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