Fifa quer criar empresa para vender direitos da Copa do Mundo e europeus ameaçam boicote

Uefa reage à proposta de Infantino e vê favorecimento a grupos ligados a Trump

PorRedação Lance!Rio de Janeiro (RJ)
28/07/2026 22:18
Donald Trump e Gianni Infantino apertam as mãos
Trump e Infantino se cumprimentam em evento durante a Copa do Mundo: europeus veem relação de subserviência (Foto Divulgação Fifa)

A Fifa anunciou nesta terça-feira (28) planos para vender os direitos comerciais da Copa do Mundo e de seus principais torneios a investidores privados. A medida provocou forte reação da Uefa, a Associação Europeia de Futebol, e dos principais clubes europeus. A Uefa acena até com a possibilidade de um boicote à próxima Copa, em 2030, a ser disputada em três sedes (Espanha, Portugal e Marrocos) e com jogos também na Argentina, no Uruguai e no Paraguai.

A Uefa divulgou um comunicado em tom duro, acusando a Fifa de "tentar vender a alma do futebol", e já estuda medidas jurídicas para barrar a iniciativa. A Fifa confirmou que trabalha com o banco norte-americano JP Morgan na criação de uma nova entidade — que se chamará FIFA Forward Enterprise (FFE) — encarregada de negociar ações e levantar centenas de milhões de dólares por meio da venda a investidores de uma participação nos direitos comerciais da Copa do Mundo masculina e feminina e do Mundial de Clubes.

O projeto é capitaneado pelo presidente Gianni Infantino e, segundo os europeus, seria mais um sinal de subserviência do dirigente aos interesses dos Estados Unidos e do presidente Donald Trump. A Thrive Capital, uma empresa de investimento fundada por Joshua Kushner — irmão de Jared Kushner, genro de Donald Trump —, lideraria a procura de investidores.

Infantino alega que a intenção do plano é "partilhar de forma mais ampla e eficaz em todo o mundo" os valores gerados pela Copa do Mundo e pelas grandes competições organizadas pela Fifa. O projeto está sujeito à aprovação pela maioria das 211 federações-membros, ainda sem data de votação. Mas o dirigente já teria um estímulo financeiro pronto para convencer os presidentes das federações nacionais. Com o dinheiro que planeja arrecadar com a nova empresa, a Fifa promete aumentar a quantia distribuída para cada país dos atuais R$ 41 milhões para R$ 102 milhões no ciclo até a Copa de 2030, R$ 112,5 milhões até 2034 e R$ 123 milhões até 2038.

Aleksander Ceferin - Uefa
O presidente da Uefa, Alexander Ceferin, é o maior adversário político de Gianni Infantino (Foto Predrag Milosavljevic / AFP)

Um negócio de R$ 102 bilhões

Fontes entrevistadas pelo jornal inglês The Guardian afirmaram que a Fifa avalia o novo empreendimento comercial em cerca de 20 bilhões de dólares (R$ 102 bilhões), com Infantino tentando tirar partido da crescente popularidade global do futebol nos EUA. As receitas da recente Copa do Mundo ultrapassam 15 bilhões de dólares (R$ 77 bilhões), um aumento em relação ao valor previsto de US$ 13 bilhões (R$ 66,8 bilhões).

A Fifa alega que manteria o controle majoritário da Fifa Forward Enterprise (FFE), a nova empresa a ser criada. E só venderia o equivalente a US$ 4,2 bilhões (R$ 21,5 bilhões) em ações, o que significaria que os investidores privados seriam minoritários na nova empresa. Além disso, afirma que manteria a responsabilidade pela governança do futebol e pelo calendário de jogos internacionais. Mas, na realidade, o fato de atrair investimento privado para os seus direitos comerciais sujeitaria as decisões a pressões externas. Os investidores poderiam, por exemplo, ter influência na periodicidade e na escolha do local das próximas Copas do Mundo.

"Isto ultrapassa um limite que as instituições que dirigem o futebol nunca deveriam ultrapassar", afirmou a Uefa em comunicado sobre o plano de criação da FFE. "A alma e a governança do futebol não são bens para serem negociados — especialmente sem qualquer transparência quanto a quem lucra financeiramente. Nenhum de nós é dono do futebol. Não cabe à FIFA vendê-lo" — concluiu a nota.

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As relações entre as duas organizações mais poderosas do futebol estão no limite máximo de tensão. Durante a Copa do Mundo, a Uefa protestou e disse que a Fifa comprometeu a integridade do Mundial ao intervir para anular o cartão vermelho do atacante Balogun, depois de Trump ter ligado a Infantino e pedir-lhe a interferência. A Uefa planeja uma reunião virtual esta semana com países-membros para analisar possíveis medidas jurídicas contra a criação da FFE e até um possível boicote à próxima Copa.

A previsão é de que Infantino seja reeleito sem oposição como presidente da Fifa no pleito do ano que vem, apesar da enorme controvérsia que provoca, mas, pelo estatuto, terá de deixar o cargo em 2031, após cumprir três mandatos. O jornal inglês The Times noticiou, no entanto, que Infantino pode assumir a presidência da nova empresa a ser criada pela Fifa, o que lhe renderia dezenas de milhões de dólares.

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