Do sonho ao fracasso: queda do Uruguai expõe crise entre Bielsa e jogadores na Copa
Treinador é eliminado pela segunda vez na fase de grupos da Copa

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Antes de Marcelo Bielsa assumir o comando do Uruguai, o futebol do país parecia transmitir estabilidade. A geração que recolocou a Celeste entre as protagonistas do cenário internacional caminhava para o fim, só que ainda deixava a sensação de que havia tempo para preparar a sucessão. O desafio parecia claro: encontrar novos protagonistas sem romper a identidade que havia devolvido competitividade ao bicampeão mundial.
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Três anos depois, o cenário é outro. O Uruguai deixa a Copa do Mundo de 2026 pela porta dos fundos, eliminado ainda na fase de grupos, sem vencer uma partida e como a única seleção sul-americana incapaz de alcançar a segunda fase em um torneio ampliado justamente para facilitar a classificação das principais forças do futebol mundial. A derrota por 1 a 0 para a Espanha, resultado que encerrou a campanha, tornou-se apenas o capítulo final de uma história que começou cercada de entusiasmo e terminou consumida por conflitos internos, decisões controversas e uma geração incapaz de repetir o peso ofensivo de seus antecessores.
Eliminação do Uruguai não nasceu em Guadalajara
Quando a Associação Uruguaia de Futebol decidiu contratar Marcelo Bielsa, em maio de 2023, a escolha carregava um simbolismo enorme. Depois de quinze anos sob o comando de Óscar Tabárez, a federação buscava alguém que representasse uma ruptura. Poucos treinadores pareciam tão capazes de oferecer uma transformação imediata quanto o argentino.
Mesmo sem uma carreira marcada por uma coleção de títulos, Bielsa ocupa um lugar especial na história do futebol moderno. Pep Guardiola o descreveu inúmeras vezes como um gênio. Mauricio Pochettino sempre o apontou como uma de suas principais referências. Técnicos espalhados pela Europa estudavam seus conceitos de pressão, ocupação de espaços e intensidade muito antes de essas ideias se tornarem comuns.
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Sua trajetória sempre produziu sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que acumulava campanhas memoráveis, também deixava para trás projetos interrompidos, grupos desgastados e relações rompidas. Poucos treinadores influenciaram tanto o jogo. Poucos também conviveram com tantas frustrações em momentos decisivos.
Aposta em Bielsa parecia fazer sentido
Em um país com pouco mais de três milhões de habitantes, formar jogadores sempre exigiu criatividade. A liga nacional oferece poucos recursos financeiros, Nacional e Peñarol concentram boa parte da força econômica, enquanto os principais talentos deixam o país ainda muito jovens para completar a formação na Argentina, no Brasil ou na Europa.
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Foi nesse contexto que surgiu a geração responsável por recolocar a Celeste entre as grandes seleções do planeta.
Óscar Tabárez construiu um time que fazia da organização defensiva uma marca registrada. Diego Lugano liderava a defesa. Diego Pérez, Egidio Arévalo Ríos e Álvaro González transformavam cada disputa de bola em um duelo físico. Na frente, havia liberdade para jogadores capazes de decidir partidas praticamente sozinhos.
Diego Forlán levou o Uruguai ao quarto lugar na Copa de 2010 e terminou o torneio como um dos melhores jogadores da competição. Depois vieram Luis Suárez e Edinson Cavani, atacantes que uniam talento, intensidade e uma capacidade rara de pressionar sem a bola.
Sebastián Abreu, o eterno Loco Abreu, simbolizava outro traço daquela geração: personalidade. O resultado foi uma década de competitividade constante. O Uruguai conquistou a Copa América de 2011, alcançou as oitavas de final em 2014, voltou às quartas de final em 2018 e consolidou uma identidade reconhecida em qualquer lugar do mundo. A chamada "garra charrúa" aparecia de maneira concreta dentro de campo.
Só que nenhuma geração dura para sempre. A saída gradual daqueles atacantes produziu um vazio que a nova safra nunca conseguiu preencher.
O talento continuou existindo. Federico Valverde tornou-se um dos meio-campistas mais completos do futebol europeu. Manuel Ugarte cresceu rapidamente. Ronald Araújo passou a integrar a elite dos zagueiros. Rodrigo Bentancur consolidou carreira na Premier League.
Ataque virou problema
Nenhum jogador surgiu com capacidade para assumir naturalmente o lugar deixado por Suárez, Cavani ou Forlán. Bielsa chegou acreditando que conseguiria acelerar esse processo. Os primeiros meses pareciam confirmar a aposta. Seu estilo apareceu imediatamente. O Uruguai voltou a transmitir intensidade.
Vieram então duas noites que pareciam anunciar uma revolução. Primeiro, a vitória sobre o Brasil nas Eliminatórias. Depois, uma atuação histórica em Buenos Aires. O Uruguai não vencia os argentinos como visitante desde 1937. A seleção campeã mundial havia perdido apenas uma de suas 51 partidas anteriores. Bielsa desmontou o adversário com uma equipe agressiva, corajosa e extremamente organizada.
Suárez dispara contra Bielsa
A situação começou a mudar durante a Copa América de 2024. O Uruguai terminou a competição em terceiro lugar, eliminou o Brasil e manteve a imagem de uma equipe competitiva. O ambiente interno, entretanto, já não era o mesmo. Foi nesse período que apareceram as primeiras rachaduras profundas dentro do grupo.
Meses depois, Luis Suárez resolveu falar publicamente. Já aposentado da seleção, o maior artilheiro da história da Celeste descreveu um ambiente pesado, revelou episódios de desgaste com integrantes da comissão técnica e afirmou que diversos jogadores chegaram a cogitar deixar a seleção por causa da maneira como eram tratados. A partir da ruptura pública com Suárez, a trajetória uruguaia perdeu consistência.

Até aquele momento, Bielsa acumulava onze vitórias e cinco empates em dezoito partidas.
Depois das críticas do camisa 9, o rendimento despencou. Vieram apenas cinco vitórias nos dezessete compromissos seguintes.
A queda refletia algo maior. O Uruguai já não transmitia a mesma energia dos primeiros meses. A pressão continuava existindo, os movimentos permaneciam parecidos, o entusiasmo que sustentava aquele modelo começava a desaparecer. A seleção entrava em um período de desgaste silencioso que, aos poucos, alcançaria praticamente todos os setores da equipe. Na Copa do Mundo, quando a margem para recuperação desapareceu, as fissuras abertas muito antes do torneio finalmente se transformariam em um colapso.
A perda de rendimento coincidiu com outro problema que passou a perseguir a seleção uruguaia: o número crescente de lesões. A intensidade física exigida por Marcelo Bielsa sempre fez parte de sua identidade. Durante décadas, ela foi tratada como um dos pilares de suas equipes. No Uruguai, porém, a sucessão de problemas musculares alimentou questionamentos que deixaram de vir apenas da imprensa ou de antigos desafetos do treinador.
Ronald Araújo sofreu uma lesão muscular que interrompeu sua sequência pela seleção. Giorgian De Arrascaeta viveu um caso ainda mais delicado. O meia passou por uma cirurgia na clavícula com o objetivo de chegar recuperado à Copa do Mundo. Durante a preparação no Uruguai, voltou aos trabalhos de campo e sofreu uma lesão na panturrilha. O episódio provocou atrito com o Flamengo, que divulgou nota oficial atribuindo a contusão a um erro na condução do processo de recuperação.
Depois do início avassalador nas Eliminatórias, o Uruguai desacelerou. A equipe precisou daquele bom começo para permanecer entre os classificados porque venceu apenas três das últimas doze partidas do torneio qualificatório. O desempenho ainda garantiu a vaga para a Copa, só que a sensação era diferente daquela construída nos primeiros meses de trabalho.
O fracasso na Copa
O próprio Bielsa parecia perceber a mudança. Em novembro, após a goleada por 5 a 1 sofrida diante dos Estados Unidos em um amistoso, admitiu sentir "vergonha" pelo desempenho da equipe. Na mesma entrevista, definiu a si próprio como uma pessoa "tóxica", relacionando esse traço à obsessão pela perfeição.
Ao desembarcar para a Copa do Mundo, o Uruguai carregava um paradoxo. Havia um treinador reverenciado por alguns dos maiores nomes da profissão, um elenco formado por atletas acostumados aos principais campeonatos da Europa e uma tradição que sempre transformava a Celeste em adversária incômoda nos grandes torneios.
O ataque perdeu peso exatamente quando Suárez e Cavani deixavam de ocupar o centro da cena.
Luis Suárez chegou a anunciar sua aposentadoria da seleção aos 39 anos. Quando percebeu as dificuldades ofensivas da equipe, colocou-se à disposição para disputar a Copa. Bielsa optou por não convocá-lo.
A última vitória uruguaia em uma Copa do Mundo sem a presença de Suárez havia acontecido em 1990, contra a Itália. Desde então, todas as dez vitórias da Celeste em Mundiais ocorreram com o atacante em campo ou ao menos no banco de reservas.
O torneio de 2026 encerrou essa sequência da pior maneira possível. O Uruguai empatou com Arábia Saudita e com Cabo Verde e perdeu para a Espanha, terminando a competição com dois pontos, eliminado pela estreante Cabo Verde.
O fracasso ganhou contornos ainda mais duros porque os problemas vistos em campo pareciam perfeitamente evitáveis. Os quatro gols sofridos nasceram de erros elementares.
Fernando Muslera falhou ao soltar uma cabeçada contra a Arábia Saudita. Na partida diante de Cabo Verde, a barreira abriu espaço para um gol de falta de longa distância. Depois, um passe errado encontrou Muslera adiantado, muito distante da meta, e custou outro gol.
Contra a Espanha, a história terminou de forma cruel. No lance decisivo, Álex Baena finalizou sem força. Muslera tocou na bola, viu a finalização escapar por cima do seu corpo e não conseguiu impedir o gol que decretou a eliminação uruguaia.
A crise no gol tornou-se um retrato da condução de Bielsa. Rochet havia assumido a posição de titular antes da Copa de 2022 e passou três partidas consecutivas sem sofrer gols antes de ser retirado da equipe. Muslera, que anunciara a aposentadoria da seleção em 2024, foi trazido de volta justamente para o principal torneio do ciclo.
A aposta terminou cercada de críticas. Após a eliminação, Bielsa tentou explicar sua escolha.
— Foi uma decisão muito pensada. Fiz todas as avaliações que considerei que eram necessárias. Não posso negar, nem discutir, a avaliação da participação de Muslera. Por outro lado, também acredito que é um goleiro que vinha de um ano magnífico, é um jogador de muita personalidade, de caráter. Essa é a avaliação — explicou o treinador.
À medida que a Copa avançava, cresceram os relatos de desgaste dentro da concentração. Antes da partida contra a Espanha, Sergio Rochet, Manuel Ugarte, Rodrigo Bentancur e Federico Valverde procuraram o treinador para uma conversa.
Os jogadores reclamavam da carga física dos treinamentos e defendiam uma mudança de estratégia. Diante de uma Espanha favorita, sugeriram uma equipe mais compacta, explorando os contra-ataques. O treinador recusou a proposta.
Em seguida, reuniu todo o elenco durante quase cinquenta minutos para explicar por que manteria sua filosofia e por que havia levado jogadores lesionados, desde que considerasse sua lealdade inquestionável. O episódio aprofundou uma divisão que já existia desde a Copa América.
Após a derrota por 1 a 0 para a Espanha, a Associação Uruguaia de Futebol (AUF) tomou uma medida drástica: o cancelamento do voo fretado que levaria a delegação de volta a Montevidéu. Cada jogador teve de resolver por conta própria o retorno a seu destino.
Diego Lugano, um dos maiores capitães da história uruguaia, deu sua opinião sobre a participação Celeste na Copa.
— Contaminou o ambiente, nunca entendeu onde estava, os jogadores nunca entenderam Bielsa. As mudanças podem ser compreensíveis. A tática pode ser compreensiva. Mas o Bielsa nunca entendeu o Uruguai e nunca jogou como Uruguai. Em campo se paga. E foi o que aconteceu. Tenho pena dos jogadores porque, quando o ambiente é complicado, quando não tem uma cultura de treinamento, é o jogador que sofre críticas e fica marcado. O técnico vai para outro país e se esquece dessa confusão. Um técnico que não deveria ter estado na Copa do Mundo, preso por um contrato milionário.
Dentro do vestiário, o sentimento era de devastação. José María Giménez resumiu o ambiente.
— Pedimos desculpas a todos. É uma situação extrema para nós. O que mais posso dizer? Apenas desculpas. O vestiário está arruinado, triste e magoado. É uma situação incrivelmente difícil para todos. A verdade é que não havia um único rosto que não estivesse triste, que não estivesse sofrendo. Eles, sendo os profissionais que são, estão absorvendo essa dor; a tristeza deles é a tristeza de todos — afirmou Giménez
O goleiro Fernando Muslera, que teve participação direta na eliminação, e foi substituído por Bielsa no intervalo do jogo contra a Espanha, também falou.
— Nunca fui de me esconder; sempre fui de encarar as consequências. Esta é a forma mais próxima que tenho de falar com os uruguaios. Nunca imaginei que sofreria tanto por este esporte, especialmente com todo o trabalho que fiz, com a forma como me preparei. Pedi desculpas aos companheiros no vestiário e a todo o povo uruguaio, embora isso não seja suficiente. Essa é a natureza deste esporte, essa é a natureza desta posição; às vezes ela te dá muito, e às vezes ela te tira muito — resumiu.

Bielsa lamentou os erros coletivos que marcaram a campanha uruguaia na Copa do Mundo de 2026.
— A eliminação é responsabilidade da minha gestão. Tínhamos potencial que eu não consegui transformar em uma equipe de acordo com o nível dos seus jogadores desde o início da competição. O que eu deixo ao futebol uruguaio é nada. O 4º lugar nas eliminatórias não teve valor, o 3º lugar na Copa América não teve valor e obviamente esta atuação não preciso defini-la. É uma trajetória que não deixou nada — justificou o treinador.
Ainda encontrou espaço para defender o desempenho coletivo.
— Se tenho que analisar, incluindo erros, porque eles são próprios do futebol. Dentro de um comportamento, de erros, não conseguimos um percentual razoável das situações de gols que criamos. E a relação com os gols que recebemos, a influência dos rivais para marcar, eram gols evitáveis. Mesmo com essas circunstâncias, apesar disso tudo, deveríamos ter obtido sete pontos, por merecimento. Toda a decepção que vocês, jornalistas e torcedores uruguaios, legitimamente querem apontar um responsável, sou eu e vou aceitar — analisou.
Marcelo Bielsa ajudou a moldar boa parte do futebol contemporâneo. Guardiola, Pochettino e tantos outros carregam traços de suas ideias. Seu legado tático permanece intacto. Ainda assim, sua trajetória como treinador de seleções volta a terminar exatamente onde começou. Em 2002, comandou a Argentina favorita que caiu na fase de grupos. Em 2026, viu o Uruguai repetir o roteiro.
Entre um episódio e outro, revolucionou conceitos, inspirou treinadores, levou o Chile às oitavas de final em 2010, recolocou o Leeds United na Premier League e reafirmou a imagem de um pensador raro do jogo.
No Uruguai, contudo, a revolução prometida nunca se consolidou. O país que durante quinze anos encontrou estabilidade na obra paciente de Óscar Tabárez apostou em uma ruptura para renovar sua identidade. O desgaste interno corroeu a confiança. As lesões reduziram as alternativas. A renovação ofensiva não aconteceu. O ambiente tornou-se cada vez mais pesado. As escolhas do treinador passaram a gerar divisões dentro e fora do vestiário. A Copa apenas expôs diante do mundo problemas que já vinham se acumulando havia quase dois anos. Reconstruir uma identidade vencedora costuma ser ainda mais complexo.
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