Como os Estados Unidos engoliram o 'football' e enterraram o passado
Seleção anfitriã se classifica para o mata-mata e mostra que pode sonhar alto

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Em 2006, ano de sua morte, o magnata do petróleo Lamar Hunt, o homem que fundou o Kansas City Chiefs e cunhou o termo Super Bowl, deixou um epitáfio sobre seus mais de 40 anos tentando popularizar o futebol tradicional nos Estados Unidos: "Não tenho dúvida de que o futebol vai ser um grande esporte nos EUA. Mas não vou viver para ver esse dia, porque os americanos têm medo de gostar de algo em que são ruins."
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Vinte anos depois, a profecia de Hunt não apenas se cumpriu, como foi superada pelo maior trator econômico e cultural do planeta.
Ao vencer a Austrália e conquistar a classificação para a fase de 16 avos de final da Copa do Mundo de 2026, a seleção masculina dos Estados Unidos não entregou apenas um resultado de campo. Entregou uma certidão de óbito ao complexo de vira-lata futebolístico do país. O soccer mudou de patamar. E o mundo, que por décadas olhou para os americanos com desdém quando o assunto era a bola redonda, agora assiste à ascensão de uma candidata a roubar a cena na Copa.
Para entender o tamanho da transformação atual, é preciso olhar para o retrovisor. Nos Estados Unidos, o futebol sempre teve rosto, nome e sobrenome de mulher. Graças à Title IX, lei federal de 1972 que obrigou as universidades a investirem igualmente em modalidades femininas, as americanas criaram uma dinastia. São quatro Copas do Mundo e cinco ouros olímpicos. Enquanto o futebol masculino era visto como "antiamericano" ou "coisa de colégio", o feminino se transformou na maior potência do planeta.

O lado masculino da história nunca havia acompanhado esse ritmo. Até agora.
O que se vê em 2026 é uma constante e agressiva evolução. O paradigma mudou: os EUA não precisam mais importar astros em fim de carreira para ensinar o país a gostar de futebol, como fizeram com Pelé no New York Cosmos em 1975 ou Lionel Messi no Inter Miami em 2023. Agora, os Estados Unidos começam a exportar protagonistas para os grandes palcos do futebol mundial.

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Abaixo da superfície da Major League Soccer (MLS), formou-se uma safra de atletas de elite que se destaca nos principais campeonatos europeus. Os donos da casa não são mais coadjuvantes.
A grande estrela da companhia é Christian Pulisic, que brilha no Milan e foi a grande ausência contra a Austrália por conta de uma incômoda lesão na panturrilha. Ao lado dele, o meio-campo ganhou a intensidade de Weston McKennie, peça fundamental na Juventus, enquanto o ataque teve a verticalidade e o faro de gol de Folarin Balogun, destaque do Monaco. Na linha defensiva, as credenciais são ainda mais pesadas: o lateral-esquerdo Antonee Robinson consolidou-se como o principal pilar do Fulham na badalada Premier League, e o lateral-direito Sergiño Dest esbanja dinamismo no PSV, carregando na bagagem passagens por gigantes como Barcelona, Milan e Ajax.

A paixão nacional americana, historicamente intocável, sofreu um abalo sísmico. Dados recentes divulgados pela The Economist mostram que a cultura do país assimilou o futebol de forma definitiva.
Pela primeira vez em um século, o soccer assumiu a terceira posição na preferência dos americanos (10%), ultrapassando o tradicionalíssimo beisebol (9%) e o hóquei no gelo (4%). O topo ainda pertence à imbatível NFL (37%) e à NBA (17%), mas a curva de crescimento do futebol é a única que mantém uma ascensão vertical constante.

O crescimento do futebol nos EUA trouxe consigo a engrenagem implacável do capitalismo esportivo norte-americano. É a chamada "americanização" do futebol: ingressos com precificação dinâmica que passam de US$ 10 mil para a final, shows de intervalo no estilo Super Bowl e pausas comerciais em tempo real durante checagens do VAR e paradas para hidratação.
Além disso, a Copa de 2026 carrega as tensões de seu tempo. Sob a administração de Donald Trump, o torneio ganhou contornos de exibição política nacionalista. O presidente, inclusive, envolveu-se em uma nova polêmica, desta vez, puramente esportiva. Em discurso na Casa Branca, Trump entrou de sola em uma antiga discussão linguística ao afirmar categoricamente que o futebol disputado na Copa do Mundo deveria ser chamado, em inglês, de football, e não de soccer. Para o mandatário, consequentemente, a bilionária liga da NFL, conhecida pelos americanos como football, é que precisaria receber um outro nome.

A ousada jogada de marketing verbal de Trump divide opiniões, assim como as polêmicas extracampo que cercam o torneio, das restrições severas de vistos de turismo à atuação da polícia imigratória (ICE) no entorno dos estádios.
Mas, se a política e o vocabulário dividem, o campo consagra. O império do entretenimento esportivo encontrou sua última peça de quebra-cabeça. Os EUA venceram a Austrália, estão nos 16 avos de final e avisam ao resto do mundo: eles aprenderam as regras, dominaram o negócio, redefiniram o dicionário e agora querem a taça em casa. O soccer, definitivamente, virou futebol.

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