Quase 30 anos depois, árbitro de Brasil x Noruega da Copa de 98 recorda pênalti incompreendido

Lance! entrevista o árbitro que superou o linchamento da mídia na Copa de 1998

PorRedação Lance!Porto Alegre (RS)
04/07/2026 15:00
Momento em que Júnior Baiano puxa a camisa de Tore André Flo em Brasil x Noruega da Copa do Mundo de 1998
Momento em que Júnior Baiano puxa a camisa de Tore André Flo em Brasil x Noruega da Copa de 1998 (Foto: Reprodução)

Luiz Antônio Araujo - Especial para o Lance!

Para o único indivíduo a apitar um jogo entre Brasil e Noruega em Copas do Mundo até este domingo (5), o confronto ocorrido em 1998, há 28 anos, foi o início de uma jornada heroica na qual teve de passar pelo inferno para chegar, por fim, à redenção profissional.

A partida, válida pela fase de grupos do Mundial da França, em 23 de junho de 1998, no estádio Vélodrome, em Marselha, estava empatada quando o árbitro norte-americano de origem iraniana Isfardian "Esse" Baharmast flagrou um pênalti contra o Brasil que, convertido, levou a Noruega à vitória por 2X1.

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"Aos 87 minutos, houve um cruzamento da esquerda da Noruega para o canto direito da área brasileira. A bola estava vindo, e eu estava em posição perfeita para ver a área", relata o hoje administrador e instrutor de arbitragem Baharmast, 72 anos, de Denver, Colorado, ao Lance!, por videoconferência.

"Vi que Tore André Flo (centroavante norueguês) tentou subir para cabecear, e Júnior Baiano (zagueiro brasileiro) agarrou-lhe pela parte de trás da camiseta assim e puxa até aqui (faz o gesto de agarrar com a mão e puxar horizontalmente, da frente para trás). A camiseta chega até esta extensão (indica vários centímetros com as mãos), quase como a vela de um barco", descreve.

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Isfardian "Esse" Baharmast, árbitro de Brasil x Noruega na Copa do Mundo de 1998, em entrevista ao Lance! atualmente
Isfardian "Esse" Baharmast, árbitro de Brasil x Noruega na Copa de 1998, em entrevista ao Lance! (Foto: Reprodução)

Horas de pura angústia

Para o Brasil, já classificado para as oitavas de final como campeão do Grupo A, um tropeço constrangedor. Para a Noruega, uma inédita passagem à segunda fase. Quanto ao juiz, 36 horas de angústia ao longo das quais chegou a cogitar o abandono definitivo da arbitragem.

No vestiário, Baharmast recebeu cumprimentos da equipe de arbitragem, mas ficou intrigado com o relato do veterano juiz inspetor Michelle Botreau. Embora tenha considerado a penalidade correta ao assistir o jogo da tribuna, o francês disse-lhe que, no momento da decisão, passou a receber pelo celular ligações de repórteres para os quais não houvera nenhuma infração.

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O árbitro da partida tranquilizou o colega: "Eu vi (a infração) com 100% de certeza. Se eu tivesse de apitá-la cem vezes, não mudaria nada e tomaria a mesma decisão outra vez".

E acrescentou: "Amanhã vamos abrir os jornais e, de todos os cinegrafistas e fotógrafos, algum terá a imagem da camiseta sendo puxada".

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Gonçalves reclama com o árbitro, que marca pênalti para a Noruega contra o Brasil
Gonçalves reclama com o árbitro, que marca pênalti para a Noruega contra o Brasil (Foto: Reprodução)

Massacrado pela mídia

No dia seguinte, 24 de junho, a cobertura jornalística do jogo foi unânime: não houvera pênalti e Baharmast não deveria estar apitando jogos da Copa do Mundo.

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"A certa altura, eu disse: 'Deus, se eu tiver de abandonar este esporte e encerrar minha carreira de árbitro, está em suas mãos'. Se todo mundo está dizendo que você não está certo e que você é terrível, fica difícil realizar arbitragem em nível tão alto outra vez", explica.

O juiz chegou a ouvir admoestações de colegas. "Alguns disseram: 'Esse, você apitou tão bem a partida inteira. Por que tinha de dar aquele pênalti no último minuto?'. Eu respondi: 'Porque eu estava lá, por que eu não posso dar a decisão correta?", recorda.

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Havia, porém, uma lacuna: nenhuma das 16 câmeras da Fifa em funcionamento durante a partida flagrara infração evidente no lance.

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Momento em que Júnior Baiano puxa a camisa de Tore André Flo em Brasil x Noruega na Copa do Mundo de 1998
Momento em que Júnior Baiano puxa a camisa de Tore André Flo em Brasil x Noruega na Copa de 1998 (Foto: Reprodução)

A foto que mudou tudo

Na madrugada do dia 25 (noite do dia 24 nos Estados Unidos), Baharmast foi despertado por um telefonema de sua mulher, que retornara a Denver logo depois do jogo e informava-o da existência de uma foto localizada na internet na qual Júnior Baiano puxava a camiseta de Flo. A imagem havia sido garimpada por dois jovens juízes norte-americanos.

Pela manhã, o juiz dos computadores desceu à sala de trabalho com computadores instalada pelo hotel, visualizou a foto enviada pela mulher e pensou: "Obrigado, Deus, obrigado, obrigado, obrigado. Existe justiça".

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O primeiro colega a quem Baharmast mostrou a imagem foi o dinamarquês Kim Milton Nielsen, que ficaria célebre pelo cartão vermelho a David Beckham cinco dias depois no jogo entre Inglaterra e Argentina. Impressionado pelo flagrante, Nielsen decidiu brincar com os outros árbitros: salvou a imagem como protetor de tela de todos os computadores da sala.

Em seguida, Baharmast soube que a emissora de TV sueca SVT transmitira a partida ao vivo para o país utilizando uma câmera na qual a infração ficava visível: "Na Suécia, não tinha havido polêmica sobre o pênalti. Eles se perguntaram: 'Por que o mundo está falando de pênalti imaginário?'".

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"Eu era como uma criança numa loja de doces", afirma Baharmast sobre seu estado de espírito depois do aparecimento das imagens.

O episódio passou à história como o primeiro em que a divulgação de imagens pela internet serviu para dirimir dúvidas em uma competição esportiva global. O presidente do Comitê de Árbitros da Fifa, David Will, referiu-se à fotografia em uma coletiva de imprensa e sugeriu que os críticos de Baharmast pedissem desculpas ao árbitro.

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Jogador da Noruega comemora gol marcado contra o Brasil na Copa de 1998
Kjetil Rekdal comemora gol marcado de pênalti contra o Brasil na Copa de 1998 (Foto: Marco Antonio Rezende/Ag.LANCE)

Referência e fama

O pênalti apitado pelo norte-americano foi considerado pela Associação Nacional de Juízes Esportivos (Naso, na sigla em inglês) dos Estados Unidos como uma das 18 melhores decisões de todos os tempos em todos os esportes. Em 2022, Baharmast passou a integrar o Hall Nacional da Fama do Futebol nos EUA, ao lado de Pelé, Franz Beckenbauer, Carlos Alberto Torres e Hope Solo, entre outros.

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O caso de 1998 é também apontado como um dos fatores que contribuíram para a adoção do árbitro assistente de vídeo (VAR, na sigla em inglês). Questionado sobre essa relação, a primeira reação de Baharmast é irônica: "Sou melhor que o VAR porque vi o que 16 câmeras não viram. Deveriam me pagar em dobro". Ele afirma que a tecnologia cumpre um papel positivo no esporte e pode "salvar vidas de árbitros".

Em 2018, quando se completou o 20º aniversário do jogo do Vélodrome, torcedores noruegueses promoveram em Oslo uma partida comemorativa com a participação de jogadores e árbitros do certame original. Embora não tenha entrado em campo, Baharmast participou como convidado ao lado de Bebeto, Tore André Flo e Júnior Baiano, entre outros. Antes do jogo, repórteres perguntaram a Flo e Baiano o que pensavam sobre o lance famoso. O primeiro disse que tinha havido pênalti, e o segundo, que o lance fora normal. No mesmo instante, o telão do estádio exibia a cena do puxão na camiseta. Os presentes apontaram as imagens, e o jogador brasileiro comentou: "É, talvez uma pequena falta".

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