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Ajuste tático ousado de Ancelotti explica a classificação do Brasil na Copa do Mundo

Treinador optou por medida ofensiva e conseguiu avançar às oitavas de final

PorThiago BragaSão Paulo (SP)
30/06/2026 17:42
Carlo Ancelotti durante Brasil x Japão na Copa do Mundo
Carlo Ancelotti foi responsável direto pela virada do Brasil (Foto: Paul ELLIS / AFP)

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A classificação do Brasil para as oitavas de final da Copa do Mundo após vitória por 2 a 1 sobre o Japão nasce exatamente da sucessão de decisões que pareciam contrariar o senso comum. Carlo Ancelotti manteve Casemiro em campo quando sua permanência parecia insustentável. Bancou Endrick em uma mudança que aumentava os riscos defensivos. Mais tarde, escolheu Gabriel Martinelli para ocupar uma função central, deixando no banco alternativas mais óbvias, como Neymar. O roteiro terminou com Casemiro marcando o gol de empate e Martinelli decidindo a vitória nos acréscimos, ambos diretamente ligados às alterações promovidas pelo treinador italiano.

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Antes mesmo de a bola voltar a rolar no segundo tempo, Ancelotti já havia tomado a decisão que definiria a classificação brasileira. Lucas Paquetá havia deixado o gramado lesionado, o Brasil perdia por 1 a 0 e a solução encontrada pelo treinador italiano consistia justamente em retomar um desenho tático que, durante boa parte do ciclo, despertara desconfiança. Com a entrada de Endrick, o sistema passaria a se aproximar novamente de um 4-2-4 e a equipe abriria mão de um homem de construção para colocar mais um atacante em campo.

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Não foi a primeira vez que Ancelotti venceu um jogo dessa maneira. Ao longo de décadas na elite do futebol europeu, especialmente durante sua passagem pelo Real Madrid, o italiano construiu fama justamente pela capacidade de modificar partidas aparentemente perdidas sem abandonar sua serenidade característica. Enquanto a pressão cresce ao redor, seu comportamento quase não muda. É um traço que costuma alimentar a imagem de gestor de grupo, alguém capaz de controlar grandes egos. A vitória sobre o Japão ofereceu uma demonstração diferente. O triunfo nasceu de leitura tática, de mudanças posicionais e de uma intervenção precisa durante o intervalo.

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Japão sufoca e sai na frente

O primeiro tempo apresentou praticamente todos os problemas que vinham limitando o ataque brasileiro na competição. O Japão armou uma linha de cinco defensores protegida por um meio-campo compacto em um 5-4-1 disciplinado, que reduzia drasticamente os espaços por dentro.

O Brasil circulava a bola com enorme volume, mas pouca profundidade. Os jogadores concentravam-se em corredores centrais, aproximando-se em excesso e facilitando a marcação japonesa. O resultado era um ataque previsível, incapaz de criar superioridade numérica entre linhas.

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A equipe de Ancelotti monopolizava a posse, acumulava passes e controlava territorialmente o confronto, mas raramente conseguia deslocar a estrutura defensiva adversária.

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Vinícius Júnior simbolizava essa dificuldade. Atuando inicialmente por dentro, recebia cercado por dois marcadores quase sempre que tentava acelerar. Como o Brasil dificilmente conseguia colocá-lo em situações claras de um contra um, o camisa 7 frequentemente precisava recuar para participar da construção. Quanto mais distante da linha lateral, menos perigoso se tornava.

O meio-campista do Japão, Kaishu Sano (nº 24), comemora após marcar o gol de abertura durante a partida de futebol das oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 entre Brasil e Japão, no Houston Stadium, em Houston (Foto: Paul Ellis / Afp)
Kaishu Sano comemora após marcar o gol do Japão na partida contra o Brasil (Foto: Paul Ellis / AFP)

O comportamento japonês potencializava esse cenário. Sempre que Vinícius buscava acelerar, Doan e Tomiyasu alternavam a pressão sobre o brasileiro sem desorganizar o restante da defesa. A última linha permanecia protegida porque o Brasil não ocupava simultaneamente os cinco corredores ofensivos. Não havia amplitude suficiente para obrigar a defesa asiática a se espalhar pelo campo, o que abriria espaços.

A estatística ajuda a ilustrar esse domínio estéril. O Brasil terminou a partida com 715 passes, contra apenas 330 do Japão. Acertou 652 deles, praticamente o dobro dos 279 completados pelos japoneses. A posse transformava-se em circulação, nunca em vantagem territorial efetiva. O mesmo acontecia nos cruzamentos. Foram apenas duas bolas realmente perigosas enviadas à área durante todo o primeiro tempo, número muito inferior ao que a equipe produziria depois das mudanças.

Mesmo assim, os primeiros minutos indicavam um caminho diferente. Matheus Cunha obrigou Zion Suzuki a fazer boa defesa rasteira logo no início, enquanto Bruno Guimarães quase abriu o placar ao aparecer livre depois de cobrança de escanteio iniciada por Lucas Paquetá. Parecia uma pressão inicial capaz de empurrar o Japão para trás.

O roteiro mudou aos 29 minutos. Danilo errou um passe na saída de bola. Sano interceptou a jogada, avançou praticamente sem oposição, passou por Casemiro e encontrou espaço para finalizar de fora da área. O chute no canto venceu Alisson e colocou os japoneses em vantagem.

O gol teve efeito imediato sobre o comportamento da partida. O Japão recuou ainda mais suas linhas, fechou os corredores centrais e passou a apostar quase exclusivamente nas transições. O Brasil aumentou o volume ofensivo, embora continuasse sem encontrar espaços consistentes. Era um retrato fiel de um ataque que dominava territorialmente, mas quase nunca conseguia transformar posse em situações claras de gol.

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Ainda assim, os indicadores gerais já mostravam um domínio importante. Ao final dos noventa minutos, o Brasil encerrou a partida com 19 finalizações contra apenas cinco do Japão, sete chutes no alvo contra dois dos asiáticos, 12 conclusões realizadas dentro da área diante de apenas duas do adversário.

Brasil ofensivo "amassa" o Japão

Amarelado logo aos 14 minutos do primeiro tempo, Casemiro acumulava dificuldades na cobertura das transições japonesas e ainda aparecia diretamente envolvido no lance do gol sofrido. Ancelotti ignorou completamente esse ambiente e Casemiro permaneceu em campo.

A decisão fazia sentido por razões que ultrapassavam a atuação individual do volante. O treinador italiano sabia que, caso conseguisse empurrar o Japão para trás, aumentaria significativamente o número de cruzamentos para a área. Poucos jogadores do elenco brasileiro atacam o espaço aéreo com a qualidade do camisa 5. No Manchester United, Casemiro havia marcado oito gols de cabeça na temporada 2025/26, mais do que qualquer outro atleta da Premier League em todas as competições. Pela seleção, metade de seus dez gols também nasceu pelo alto.

A manutenção do volante dialogava diretamente com outra escolha feita no intervalo: Endrick entrou na vaga do lesionado Lucas Paquetá.

Bruno Guimarães com a camisa da Seleção
Bruno Guimarães deu a assistência para o gol da vitória: líder em passes para gols (Foto: Paul ELLIS / AFP)

A substituição alterou completamente o desenho brasileiro. Em vez de manter um meio-campista organizador, Ancelotti adicionou presença ofensiva na última linha japonesa. O sistema aproximou-se novamente do 4-2-4, modelo que anteriormente havia recebido críticas por deixar espaços excessivos entre defesa e ataque. Desta vez, porém, o contexto era diferente.

Com Endrick ocupando constantemente os zagueiros japoneses, Vinícius Júnior e Rayan puderam permanecer muito mais abertos pelos corredores laterais. A mudança obrigou a defesa japonesa a se espalhar horizontalmente pela primeira vez na partida. O bloco compacto deixou de proteger simultaneamente todos os espaços centrais porque precisava respeitar a largura criada pelos pontas brasileiros.

O Brasil passou a atacar menos pelo congestionado corredor central e mais pelos lados do campo. Vinícius recebeu em condições muito mais favoráveis para enfrentar Doan em situações individuais. A equipe aumentou o número de cruzamentos, ocupou a área com mais jogadores e iniciou uma pressão alta muito mais agressiva logo após perder a posse.

A diferença apareceu rapidamente. Se o Brasil havia realizado apenas dois cruzamentos realmente relevantes durante toda a etapa inicial, produziu sete bolas perigosas para a área apenas no segundo tempo.

O Japão também colaborou involuntariamente para essa transformação. Depois de sustentar enorme intensidade durante quarenta e cinco minutos, a equipe passou a defender cada vez mais próxima da própria área. Sem a mesma capacidade física para pressionar a saída brasileira, ofereceu exatamente o cenário que Ancelotti esperava explorar desde o intervalo.

Os efeitos das mudanças demoraram poucos minutos para aparecer. O Brasil voltou do intervalo ocupando o campo de maneira completamente diferente daquela vista na etapa inicial. A alteração não significou apenas acrescentar um atacante. Ela mudou a dinâmica coletiva. Antes do intervalo, a seleção insistia em atacar exatamente onde o Japão queria defender. Depois da conversa no vestiário, o Brasil passou a obrigar o adversário a tomar decisões desconfortáveis.

A pressão brasileira ganhou também um componente que praticamente não existira antes do intervalo: a recuperação imediata da posse. Enquanto o Japão conseguia respirar entre um ataque e outro durante a primeira etapa, passou a encontrar enorme dificuldade para ultrapassar a intermediária ofensiva. O tempo médio de recuperação da bola ajuda a explicar essa superioridade. O Brasil retomava a posse, em média, a cada 17 segundos. O Japão precisava de 26 segundos para fazer o mesmo. A diferença traduz o controle territorial exercido pelos brasileiros durante praticamente todo o segundo tempo.

O empate parecia questão de tempo. Ele chegou exatamente da maneira que o treinador italiano imaginava quando decidiu manter Casemiro em campo.

Gabriel Magalhães levantou a bola na área. Casemiro atacou o segundo poste e desviou de cabeça para vencer Suzuki. O volante transformava-se no personagem central da reação brasileira.

O simbolismo do lance ia além do empate. Casemiro havia permanecido em campo mesmo carregando um cartão amarelo, situação que aumentava o risco de uma expulsão em qualquer disputa mais intensa. Ainda assim, Ancelotti preferiu preservar um jogador cuja capacidade de atacar bolas aéreas poderia ser determinante justamente em um jogo que caminhava para uma sucessão de cruzamentos. A leitura mostrou-se correta.

Casemiro salta e cabeceia diante do goleiro Suzuki para marcar o primeiro gol do Brasil na partida contra o Japão pela Copa do Mundo
Casemiro cabeceia diante do goleiro Suzuki para marcar o primeiro gol do Brasil (Foto Lars Baron/Getty Images via AFP)

Bruno Guimarães: o "garçom" da Copa

Enquanto Casemiro representava a insistência recompensada, Bruno Guimarães consolidava mais uma atuação de enorme influência criativa. O meio-campista terminou o confronto com uma assistência, quatro finalizações, sendo uma na direção do gol, quatro passes decisivos, 45 passes certos em 50 tentativas, dois desarmes, cinco recuperações de bola e aproveitamento perfeito nos três duelos disputados.

Os números confirmam aquilo que a partida mostrou. Bruno foi o principal organizador brasileiro durante os momentos de maior pressão ofensiva. Sua assistência para Gabriel Martinelli, já aos 50 minutos do segundo tempo, representou a quarta na Copa do Mundo. Antes disso, ele já havia servido Vinícius Júnior diante do Marrocos, voltado a encontrar o camisa 7 contra a Escócia e também participado do gol de Matheus Cunha naquela mesma partida. Nenhum jogador distribuiu mais assistências nesta edição do torneio. Na história do Brasil em Copas, apenas Pelé, com seis passes para gol em 1970, registrou número superior em uma única edição.

Mesmo assim, a jogada decisiva também pertence a Carlo Ancelotti. Quando Matheus Cunha deixou o campo para a entrada de Gabriel Martinelli, houve quem enxergasse um erro estratégico do italiano. Martinelli não entrou para atuar como ponta. Foi deslocado para uma faixa central, ocupando espaços entre os zagueiros japoneses e atacando justamente os corredores criados pela movimentação de Vinícius e Endrick.

A aposta foi premiada. Nos acréscimos, Tanaka perdeu a posse de bola na entrada da própria área depois da pressão de Rayan. O jovem atacante rapidamente encontrou Bruno Guimarães, que identificou a infiltração de Martinelli. O atacante do Arsenal finalizou de primeira, Suzuki espalmou, mas a bola beijou a trave e entrou, definindo a vitória brasileira por 2 a 1.

O gol entrou para a estatística como mais uma assistência de Bruno Guimarães. Na prática, também carregava a assinatura do treinador.

Martinelli permaneceu apenas 24 minutos em campo. Nesse período, marcou um gol, finalizou duas vezes, acertando uma delas no alvo, distribuiu um passe decisivo, completou os treze passes que tentou e ainda realizou um corte defensivo. Curiosamente, perdeu todos os quatro duelos disputados, evidência de que sua influência apareceu muito mais pela inteligência de movimentação do que pela imposição física.

Rayan igualmente desempenhou papel decisivo, embora seu nome apareça menos nas manchetes. Atuando durante os noventa minutos, produziu uma grande chance, realizou dois passes decisivos, acertou 28 dos 31 passes que tentou, completou os dois dribles executados, fez dois desarmes, recuperou três bolas e venceu sete dos dez duelos disputados. Foi dele a recuperação que originou o lance da virada.

Endrick, por sua vez, ofereceu exatamente aquilo que Ancelotti buscava ao promovê-lo ainda no intervalo. Em 45 minutos, registrou uma condução progressiva, recuperou três bolas e ajudou a prender permanentemente a dupla de zaga japonesa. Sua contribuição estatística parece discreta — uma finalização para fora, quatro passes certos em oito tentativas e apenas um duelo vencido entre cinco disputados. Taticamente, porém, sua presença alterou completamente o comportamento defensivo do adversário.

Esse talvez seja o aspecto mais interessante da classificação brasileira. Embora o talento individual tenha decidido os lances finais, a transformação aconteceu antes, quando o desenho coletivo passou a produzir problemas diferentes para a defesa japonesa.

Os próprios números físicos mostram que o adversário sustentou enorme intensidade. O Japão percorreu 114,88 quilômetros, contra 110,04 do Brasil, e também registrou distâncias superiores nas faixas de velocidade entre 7 e 15 km/h, entre 15 e 20 km/h, entre 20 e 25 km/h e acima de 25 km/h. Ainda assim, o desgaste provocado pela necessidade de defender um campo muito mais amplo reduziu progressivamente sua capacidade de pressão.

O Brasil terminou com 30 cruzamentos contra apenas 12 do Japão, sete deles certos diante de apenas dois da equipe asiática. Criou 13 ataques a partir de passes, um em cruzamento e outro em escanteio, enquanto o Japão praticamente sobreviveu de transições ocasionais. Também venceu 20 dos 39 duelos disputados, recuperando constantemente a posse em zonas avançadas do campo.

Nada disso elimina os problemas apresentados durante o primeiro tempo. A seleção voltou a demonstrar dificuldade para enfrentar blocos extremamente compactos, especialmente quando insiste em concentrar muitos jogadores na região central. Também ficou evidente que a equipe ainda depende de ajustes durante a partida para encontrar soluções contra adversários organizados.

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Ao mesmo tempo, a vitória oferece um retrato interessante da maneira como Carlo Ancelotti costuma trabalhar. Seu maior mérito talvez não esteja apenas na gestão de um elenco repleto de estrelas, característica frequentemente apontada como sua principal virtude. Contra o Japão, a classificação nasceu da capacidade de interpretar um problema tático e propor respostas que contrariavam boa parte das expectativas externas.

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