De promessa a líder: a Copa que pode consagrar Vini Jr pelo Brasil
Com Ancelotti, atacante tem características potencializadas em campo

NOVA JERSEY, NJ (EUA) - A Copa do Mundo de 2026 encontra Vinicius Júnior em um cenário completamente diferente daquele que acompanhou suas primeiras grandes competições pela Seleção Brasileira. Mais maduro, consolidado entre os melhores jogadores do planeta e vivendo o auge da carreira, o atacante chega aos Estados Unidos diante da maior responsabilidade que já teve com a camisa amarela. Com Neymar novamente limitado por problemas físicos após uma sequência de lesões desde 2023 e sob o comando de Carlo Ancelotti, o treinador que melhor soube explorar seu futebol no Real Madrid, Vini Jr inicia o Mundial cercado por uma expectativa inédita: transformar o protagonismo construído na Europa em liderança dentro da Seleção Brasileira.
O posto, durante muito tempo, pertenceu a Neymar. Mas as sucessivas lesões do camisa 10 desde 2023 mudaram a configuração da Seleção. A grave contusão no joelho, os problemas musculares na recuperação e a artroscopia realizada no fim de 2025 impediram que o atacante do Santos mantivesse uma sequência. Nesse contexto, o protagonismo encontrou um novo dono.
Aos 25 anos, Vini Jr desembarca nos Estados Unidos, carregando uma responsabilidade que nunca foi tão grande. É o jogador em quem Carlo Ancelotti mais confia. É o atleta que melhor representa as ideias ofensivas do treinador. E é também a principal esperança de desequilíbrio individual de um Brasil que sonha voltar ao topo do futebol mundial.
O curioso é que essa condição de líder técnico ainda convive com uma cobrança antiga. Diferentemente do que acontece no Real Madrid, Vinícius nunca conseguiu construir uma sequência de atuações consideradas memoráveis com a camisa amarela.
Faltou aquele jogo que permanecesse na memória coletiva. Uma exibição comparável às noites mágicas de Champions League. Um desempenho que lembrasse o jogador devastador da temporada 2023-2024, quando foi eleito o melhor do mundo.
Os números ajudam a explicar essa percepção.
Com Dorival Júnior, entre 2024 e 2025, Vini viveu seu período mais consistente na Seleção. Foram 13 partidas, três gols e uma assistência. Foi também quando conseguiu atuar em sequência e teve um momento conturbado ao levar um cartão amarelo na fase de grupos e ficar fora das oitavas de final diante do Uruguai - o Brasil foi eliminado da competição. O jogador admitiu o erro dias depois.
— A culpa foi minha. Peço desculpas por isso — disse Vini Jr na ocasião.
Antes disso, sob o comando de Tite, disputou 20 jogos, marcou dois gols e distribuiu duas assistências. Era um jogador em processo de amadurecimento. Muitas vezes atuava extremamente aberto pelo lado esquerdo e recebia funções defensivas que diminuíam sua presença na área adversária.
Em 2023, durante o período de transição após a Copa do Catar, teve uma passagem rápida com Ramón Menezes, registrando um gol e uma assistência em três jogos. Com Fernando Diniz, também fez apenas três partidas, sem marcar gols. Lesões e dificuldades de adaptação ao modelo do treinador impediram que encontrasse seu melhor futebol.
Se o retrospecto na Seleção ainda deixa espaço para questionamentos, a relação com Carlo Ancelotti oferece motivos para acreditar que a história pode ser diferente nesta Copa.
Poucos treinadores no mundo conhecem tão bem o futebol de Vinícius . No Real Madrid, a parceria transformou um jovem promissor em um dos maiores jogadores do planeta.
Juntos conquistaram duas Champions League, nas temporadas 2021-2022 e 2023-2024, além de outras nove competições. Sob o comando do italiano, Vini alcançou o auge da carreira e se tornou candidato permanente aos principais prêmios individuais do futebol.
Os números da parceria impressionam. Com Ancelotti, Vinícius participou de 206 partidas, marcou 92 gols e distribuiu 61 assistências. Com os demais treinadores que o comandaram no clube espanhol — Santiago Solari, Zinedine Zidane, Xabi Alonso e Álvaro Arbeloa — foram 36 gols e 39 assistências em 169 jogos.
Não por acaso, até mesmo Tite buscou ajuda no treinador italiano antes da Copa do Mundo de 2022.
— Agora ele entra com mais naturalidade, como se tivesse tirado um peso. Perguntei ao Ancelotti sobre o que poderíamos fazer, que funções táticas faziam no Real Madrid para ajudá-lo na Seleção a jogar como no Real Madrid. Tratamos de situações ofensivas que lhe deram liberdade criativa, de um contra um, do processo criativo. É uma coisa bonita e transparente de dois técnicos que querem o melhor para ele.
A declaração mostra algo que acompanha Vinicius há anos: a busca por reproduzir na Seleção o mesmo jogador que encanta a Europa.
Ancelotti assumiu a missão com a convicção de quem já conseguiu isso antes. Desde que chegou à Seleção, o atacante participou de dez dos doze jogos disputados pelo treinador, com três gols e três assistências. O melhor recorte talvez tenha sido o primeiro tempo diante do Panamá, no amistoso de despedida antes da viagem para os Estados Unidos, quando exibiu justamente a agressividade e a liberdade que marcaram seus melhores momentos no Real Madrid.
A Copa do Mundo começa agora. E, pela primeira vez, talvez a pergunta não seja se Vinicius Júnior tem talento suficiente para decidir um Mundial. Isso ele já provou que tem.
A questão é outra: chegou a hora de o melhor Vini Jr finalmente vestir a camisa da Seleção Brasileira?

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