EXCLUSIVO PARA ASSINANTES

Estreia contra Marrocos mostra carências históricas da Seleção

Falta de criação no meio-campo e de talento nas laterais são antigos problemas

PorThiago BragaSão Paulo (SP)
15/06/2026 07:00
Lucas Paquetá perdeu o duelo no meio-campo para o jovem Bouaddi, de 18 anos (Foto Kevin C. Cox /AFP)
Lucas Paquetá perdeu o duelo no meio-campo para o jovem Bouaddi, de 18 anos (Foto Kevin C. Cox /AFP)

Carregando conteúdo exclusivo...

O empate por 1 a 1 com Marrocos na estreia do Brasil na Copa do Mundo deixou evidentes alguns problemas que acompanham a Seleção há anos. O país continua produzindo atacantes de elite, mas não encontra com a mesma facilidade alguém capaz de organizar o jogo desde o meio de campo. E já não tem nas laterais os talentos do passado.

Durante boa parte da partida no MetLife Stadium, em Nova Jersey, a sensação era de que Vinicius Júnior carregava sozinho a responsabilidade de fazer o jogo brasileiro andar. A equipe de Carlo Ancelotti terminou a partida com mais posse e mais passes do que o adversário. Foram 514 trocas de bola contra 486 dos marroquinos. O número, porém, esconde uma dificuldade que apareceu desde os primeiros minutos: a falta de criação de jogadas no meio-campo.

continua após a publicidade

Ancelotti muda postura em post nas redes sociais: "Primeiro passo"

Bruno Guimarães deu o passe para o gol de Vini Jr., mas não se destacou na armação (Foto Charly Triballeau/AFP)

Nos dez minutos iniciais, os africanos finalizaram cinco vezes contra apenas uma da Seleção. Durante os primeiros 30 minutos, chegaram a 12 chutes, mais do que o Brasil havia permitido em qualquer partida inteira de suas cinco apresentações na última Copa do Mundo, no Catar.

Paquetá não cumpriu a função de articulador

Enquanto Vinicius recebia aberto pela esquerda e tentava acelerar o jogo quase sempre sozinho, o meio-campo brasileiro encontrava dificuldades para conectar os setores. Lucas Paquetá, o jogador que mais se aproxima da função de articulador entre os convocados, permaneceu apenas 61 minutos em campo. Acertou 31 dos 39 passes que tentou, criou uma chance e finalizou duas vezes. Participou dos duelos, ajudou defensivamente com quatro desarmes e três cortes, mas produziu pouco na criação. E perdeu a bola que resultou no gol marroquino.

continua após a publicidade

Raphinha percorreu 11 quilômetros, registrou 26 sprints e distribuiu três passes decisivos. Ainda assim, teve dificuldades para transformar a movimentação em controle do jogo. Acertou somente 65% dos passes e venceu apenas três dos 11 duelos disputados pelo chão.

Bruno Guimarães e Casemiro tiveram funções mais defensivas do que de criação. Casemiro jogou apenas 45 minutos e foi substituído por Fabinho depois de levar cartão amarelo. Bruno Guimarães deu o passe para o gol de Vini Jr., mas não se destacou na armação.

continua após a publicidade

Matheus Cunha entrou na reta final para tentar dar mais dinâmica ao ataque. Tocou poucas vezes na bola, acertou apenas cinco dos nove passes que tentou e não finalizou uma única vez.

Se o Brasil sofreu para controlar o jogo, o comando do meio-campo ficou do outro lado. Aos 18 anos, Ayyoub Bouaddi fez uma partida de veterano. O meia marroquino completou 60 passes e se tornou o segundo jogador mais jovem dos últimos 60 anos a ultrapassar a marca de 50 passes em um jogo de Copa do Mundo. Acertou três dribles, venceu nove duelos e recuperou seis bolas.

continua após a publicidade

Mais do que os números, chamou atenção a naturalidade com que controlou o ritmo do jogo.

Marrocos não demonstrou qualquer receio diante da Seleção. Teve mais de 70% da posse nos minutos iniciais, ocupou o campo ofensivo e encontrou espaço justamente onde o Brasil mais sofreu para competir: o corredor central.

Raphinha em ação em Brasil x Marrocos na Copa do Mundo 2026
Raphinha em ação na estreia contra Marrocos: atuação apagada (Foto: Timothy A. Clary/AFP)

Desde 2014, dependência de Neymar

A atuação de Bouaddi acaba funcionando como símbolo de uma questão antiga da Seleção.

Há muito tempo o Brasil não produz um meia de criação que assuma o protagonismo do jogo como fizeram gerações anteriores. Desde 2014, a organização ofensiva passou quase sempre pelos pés de Neymar. Antes dele vieram nomes como Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Zico, Rivellino, Gérson e tantos outros que transformavam o meio-campo em território brasileiro.

continua após a publicidade

Hoje, quando Neymar não está em campo, a equipe frequentemente procura esse jogador sem encontrá-lo. Já foi assim nas duas últimas Copas, quando Neymar não estava nas melhores condições físicas. O time ainda tinha Philippe Coutinho em 2018, mas, nesta Copa, não tem nenhum jogador com essas características.

Roberto Rivellino, que herdou a camisa 10 da Seleção após a saída de Pelé e disputou as Copas de 1974 e 1978, costuma relativizar a importância do número nas costas. O que lhe chama atenção é a ausência do jogador capaz de fazer a diferença por dentro.

continua após a publicidade

— Eu tive a honra e o privilégio de disputar duas Copas usando a camisa 10. Mas a preocupação não era com a 10. Era com o que eu fazia em campo — pontuou Riva.

E, ao falar de Neymar, toca justamente no ponto que voltou a aparecer contra Marrocos.

— Se você for analisar hoje o que representa o Neymar, realmente, em termos de jogador de bola, o que ele faz dentro de campo, ele faz a diferença — explicou o campeão mundial em 1970.

continua após a publicidade

Neymar voltou a treinar na academia neste domingo (14) e há uma expectativa de que nesta segunda-feira (15) vá a campo e faça seu primeiro treino com bola. Há uma chance de enfrentar o Haiti na sexta-feira (19), mas a possibilidade mais concreta é de que ele só volte no terceiro e último jogo da fase de grupos, contra a Escócia, no dia 24.

➡️ Siga o Lance! no WhatsApp e acompanhe em tempo real as principais notícias do esporte

Improvisado na lateral direita, Ibanez jogou apenas 45 minutos (Foto Darrian Traynor/Getty Images via AFP)

Falta talento nas laterais da seleção

Além da falta de um articulador no meio-campo, outra carência histórica do Brasil está nas laterais. Desde que Daniel Alves e Marcelo deixaram a seleção, o time nunca mais teve nomes da mesma expressão. Marcelo fez seu último jogo contra a Bélgica, na eliminação nas quartas de final da Copa de 2018. Daniel Alves ainda foi convocado para a última Copa no Catar, mas só entrou em duas partidas, contra Camarões e Coreia do Sul.

continua após a publicidade

Na estreia contra o Marrocos, Ancelotti improvisou Ibañez na lateral direita e teve de rever a sua escolha no intervalo. Colocou Danilo em seu lugar, mas, aos 34 anos, o experiente jogador do Flamengo já não atua mais na posição em seu clube. Assim, o time perdeu a força ofensiva que tinha com Wesley, cortado por lesão muscular.

Na esquerda, Douglas Santos deu conta do recado na defesa, mas também não tem características ofensivas. Com a atual escassez de talentos, a Seleção perdeu uma arma que sempre foi seu ponto forte nas conquistas dos cinco títulos mundiais: o apoio dos laterais ao ataque. Com Cafu e Roberto Carlos no penta, Jorginho e Branco no tetra, Carlos Alberto Torres no tri e Djalma Santos e Nílton Santos no bi, o Brasil teve durante décadas alguns dos melhores jogadores do mundo nessas posições.

continua após a publicidade

Os números ajudam a explicar o contraste. Vinicius Júnior terminou a partida com apenas uma finalização. Ela virou gol. Produziu dois passes decisivos, participou de 53 ações com bola e percorreu quase 240 metros em conduções. Na estreia da Copa, a diferença apareceu pelos pés dele. Foi suficiente para evitar a derrota. Não foi suficiente para esconder as carências que acompanham a Seleção há algumas edições de Copa. Será o suficiente para levar o Brasil ao hexa?

➡️ Aposte nas partidas do seu time!
*É preciso ter mais de 18 anos para participar de qualquer atividade de jogo de apostas. Jogue de forma responsável.

continua após a publicidade
Sugerida para você!

Mais LANCE!