Estreia contra Marrocos mostra carências históricas da Seleção
Falta de criação no meio-campo e de talento nas laterais são antigos problemas

O empate por 1 a 1 com Marrocos na estreia do Brasil na Copa do Mundo deixou evidentes alguns problemas que acompanham a Seleção há anos. O país continua produzindo atacantes de elite, mas não encontra com a mesma facilidade alguém capaz de organizar o jogo desde o meio de campo. E já não tem nas laterais os talentos do passado.
Durante boa parte da partida no MetLife Stadium, em Nova Jersey, a sensação era de que Vinicius Júnior carregava sozinho a responsabilidade de fazer o jogo brasileiro andar. A equipe de Carlo Ancelotti terminou a partida com mais posse e mais passes do que o adversário. Foram 514 trocas de bola contra 486 dos marroquinos. O número, porém, esconde uma dificuldade que apareceu desde os primeiros minutos: a falta de criação de jogadas no meio-campo.
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Nos dez minutos iniciais, os africanos finalizaram cinco vezes contra apenas uma da Seleção. Durante os primeiros 30 minutos, chegaram a 12 chutes, mais do que o Brasil havia permitido em qualquer partida inteira de suas cinco apresentações na última Copa do Mundo, no Catar.
Paquetá não cumpriu a função de articulador
Enquanto Vinicius recebia aberto pela esquerda e tentava acelerar o jogo quase sempre sozinho, o meio-campo brasileiro encontrava dificuldades para conectar os setores. Lucas Paquetá, o jogador que mais se aproxima da função de articulador entre os convocados, permaneceu apenas 61 minutos em campo. Acertou 31 dos 39 passes que tentou, criou uma chance e finalizou duas vezes. Participou dos duelos, ajudou defensivamente com quatro desarmes e três cortes, mas produziu pouco na criação. E perdeu a bola que resultou no gol marroquino.
Raphinha percorreu 11 quilômetros, registrou 26 sprints e distribuiu três passes decisivos. Ainda assim, teve dificuldades para transformar a movimentação em controle do jogo. Acertou somente 65% dos passes e venceu apenas três dos 11 duelos disputados pelo chão.
Bruno Guimarães e Casemiro tiveram funções mais defensivas do que de criação. Casemiro jogou apenas 45 minutos e foi substituído por Fabinho depois de levar cartão amarelo. Bruno Guimarães deu o passe para o gol de Vini Jr., mas não se destacou na armação.
Matheus Cunha entrou na reta final para tentar dar mais dinâmica ao ataque. Tocou poucas vezes na bola, acertou apenas cinco dos nove passes que tentou e não finalizou uma única vez.
Se o Brasil sofreu para controlar o jogo, o comando do meio-campo ficou do outro lado. Aos 18 anos, Ayyoub Bouaddi fez uma partida de veterano. O meia marroquino completou 60 passes e se tornou o segundo jogador mais jovem dos últimos 60 anos a ultrapassar a marca de 50 passes em um jogo de Copa do Mundo. Acertou três dribles, venceu nove duelos e recuperou seis bolas.
Mais do que os números, chamou atenção a naturalidade com que controlou o ritmo do jogo.
Marrocos não demonstrou qualquer receio diante da Seleção. Teve mais de 70% da posse nos minutos iniciais, ocupou o campo ofensivo e encontrou espaço justamente onde o Brasil mais sofreu para competir: o corredor central.

Desde 2014, dependência de Neymar
A atuação de Bouaddi acaba funcionando como símbolo de uma questão antiga da Seleção.
Há muito tempo o Brasil não produz um meia de criação que assuma o protagonismo do jogo como fizeram gerações anteriores. Desde 2014, a organização ofensiva passou quase sempre pelos pés de Neymar. Antes dele vieram nomes como Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Zico, Rivellino, Gérson e tantos outros que transformavam o meio-campo em território brasileiro.
Hoje, quando Neymar não está em campo, a equipe frequentemente procura esse jogador sem encontrá-lo. Já foi assim nas duas últimas Copas, quando Neymar não estava nas melhores condições físicas. O time ainda tinha Philippe Coutinho em 2018, mas, nesta Copa, não tem nenhum jogador com essas características.
Roberto Rivellino, que herdou a camisa 10 da Seleção após a saída de Pelé e disputou as Copas de 1974 e 1978, costuma relativizar a importância do número nas costas. O que lhe chama atenção é a ausência do jogador capaz de fazer a diferença por dentro.
— Eu tive a honra e o privilégio de disputar duas Copas usando a camisa 10. Mas a preocupação não era com a 10. Era com o que eu fazia em campo — pontuou Riva.
E, ao falar de Neymar, toca justamente no ponto que voltou a aparecer contra Marrocos.
— Se você for analisar hoje o que representa o Neymar, realmente, em termos de jogador de bola, o que ele faz dentro de campo, ele faz a diferença — explicou o campeão mundial em 1970.
Neymar voltou a treinar na academia neste domingo (14) e há uma expectativa de que nesta segunda-feira (15) vá a campo e faça seu primeiro treino com bola. Há uma chance de enfrentar o Haiti na sexta-feira (19), mas a possibilidade mais concreta é de que ele só volte no terceiro e último jogo da fase de grupos, contra a Escócia, no dia 24.
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Falta talento nas laterais da seleção
Além da falta de um articulador no meio-campo, outra carência histórica do Brasil está nas laterais. Desde que Daniel Alves e Marcelo deixaram a seleção, o time nunca mais teve nomes da mesma expressão. Marcelo fez seu último jogo contra a Bélgica, na eliminação nas quartas de final da Copa de 2018. Daniel Alves ainda foi convocado para a última Copa no Catar, mas só entrou em duas partidas, contra Camarões e Coreia do Sul.
Na estreia contra o Marrocos, Ancelotti improvisou Ibañez na lateral direita e teve de rever a sua escolha no intervalo. Colocou Danilo em seu lugar, mas, aos 34 anos, o experiente jogador do Flamengo já não atua mais na posição em seu clube. Assim, o time perdeu a força ofensiva que tinha com Wesley, cortado por lesão muscular.
Na esquerda, Douglas Santos deu conta do recado na defesa, mas também não tem características ofensivas. Com a atual escassez de talentos, a Seleção perdeu uma arma que sempre foi seu ponto forte nas conquistas dos cinco títulos mundiais: o apoio dos laterais ao ataque. Com Cafu e Roberto Carlos no penta, Jorginho e Branco no tetra, Carlos Alberto Torres no tri e Djalma Santos e Nílton Santos no bi, o Brasil teve durante décadas alguns dos melhores jogadores do mundo nessas posições.
Os números ajudam a explicar o contraste. Vinicius Júnior terminou a partida com apenas uma finalização. Ela virou gol. Produziu dois passes decisivos, participou de 53 ações com bola e percorreu quase 240 metros em conduções. Na estreia da Copa, a diferença apareceu pelos pés dele. Foi suficiente para evitar a derrota. Não foi suficiente para esconder as carências que acompanham a Seleção há algumas edições de Copa. Será o suficiente para levar o Brasil ao hexa?
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