Análise: Cunha transforma confiança de Ancelotti em gols na Copa
Jogador marca duas vezes na vitória do Brasil sobre o Haiti

Quem olhou apenas a escalação da estreia da Copa do Mundo e viu Igor Thiago entre os titulares pode ter imaginado que Matheus Cunha havia perdido espaço na Seleção Brasileira. A realidade, porém, sempre foi diferente. Carlo Ancelotti jamais classificou Cunha como reserva. Pelo contrário. Desde que assumiu o comando da equipe, o treinador italiano encontrou no atacante um dos jogadores que melhor traduzem sua ideia de futebol.
A titularidade diante do Haiti, nesta sexta-feira (19), foi apenas a confirmação de uma confiança construída ao longo do último ano. E a resposta veio da melhor forma possível: com gols.
Matheus Cunha marcou duas vezes na vitória brasileira por 3 a 0 sobre o Haiti, na segunda partida do Grupo C, e chegou aos seus primeiros gols na Era Ancelotti. Um prêmio para um jogador que, mesmo quando não começava entre os onze, raramente deixava de participar dos planos do treinador. Dos 14 jogos sob o comando do italiano, Cunha só ficou fora de uma partida. Um número que mostra o tamanho da importância que possui dentro do grupo.

A escolha por Igor Thiago na estreia teve muito mais relação com o contexto do adversário e com o momento vivido pelo atacante do Brentford do que com qualquer perda de prestígio de Cunha. Igor vinha de uma atuação destacada contra o Panamá e oferecia características que pareciam adequadas para aquele confronto.
Mas a Copa é um torneio de ajustes rápidos. E Ancelotti percebeu logo após a estreia que precisava de um jogador capaz de entregar mais do que gols. Precisava de alguém que ajudasse a fechar espaços, participasse da construção das jogadas e fortalecesse o meio-campo sem perder presença ofensiva.
É exatamente aí que Matheus Cunha se destaca.
Ancelotti costuma usar um termo específico para defini-lo: jogador "associativo". Uma palavra que resume bem sua função. Cunha não é apenas um atacante esperando a bola chegar. Ele volta para marcar, ajuda na recomposição, aproxima setores, participa da criação e ainda aparece na área para finalizar.
A trajetória até esse momento torna tudo ainda mais significativo.
Na Copa do Mundo de 2022, Matheus Cunha viveu uma das maiores decepções da carreira ao ficar fora da lista final da Seleção. O sonho do Mundial acabou antes mesmo do embarque. Muitos jogadores carregariam essa frustração por anos. Cunha transformou a dor em combustível.
Quatro anos depois, chega à Copa de 2026 não apenas como convocado, mas como um dos homens de confiança de Carlo Ancelotti.
Existe até um simbolismo nessa caminhada. Na conquista da medalha de ouro olímpica em Tóquio, em 2021, Matheus Cunha sentou-se no vestiário com lágrimas nos olhos e ligou para os familiares para compartilhar a emoção de ser campeão olímpico. Era o reconhecimento de uma trajetória de sacrifícios.
Nesta sexta-feira, a cena provavelmente vai se repetir do outro lado do mundo, nos Estados Unidos. Talvez sem as mesmas lágrimas, mas com a mesma emoção. Afinal, o garoto que viu uma Copa escapar em 2022 agora pode pegar o telefone para avisar que entrou para a lista de artilheiros do Brasil neste Mundial.
Cunha foi substituído aos 19 minutos do segundo tempo. Saiu sob aplausos. Não porque recuperou uma posição que havia perdido. Mas por que mostrou, mais uma vez, que talvez nunca tenha deixado de ser um dos favoritos de Ancelotti. E, principalmente, porque provou que sua importância para a Seleção vai muito além dos gols que marcou diante do Haiti.

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