Luiz Gomes: 'Começou o ano no futebol do Rio de Janeiro'
'Até sexta, cerca de 45 mil ingressos já haviam sido vendidos para o clássico decisivo. Um número completamente fora da curva no esvaziado e deficitário Estadual do Rio'

Não é uma final. É um início. Ao menos sob o ponto de vista do público, Vasco e Botafogo fazem neste domingo a abertura oficial da temporada de 2018 do futebol carioca. Sim, isso é verdade: até sexta-feira à tarde, cerca de 45 mil ingressos já haviam sido vendidos antecipadamente para o clássico decisivo. Um número completamente fora da curva no esvaziado e deficitário Estadual do Rio.
Uma coisa não se pode negar: dentro do campo, o campeonato carioca tem proporcionado partidas eletrizantes, com gols em profusão e emoções até o último minuto. Um futebol bem jogado, apesar das limitações técnicas dos elencos, ofensivo e objetivo. Fruto muito mais do trabalho consistente que vem sendo feito por Zé Ricardo, Abel Braga e o novato Alberto Valentin do que do talento individual de cada jogador.
A capacidade dos treinadores de Vasco, Botafogo e Fluminense para administrar a escassez, controlar os efeitos da crise por que passam os três clubes sobre os jogadores, muitos com salários atrasados inclusive, vem fazendo toda a diferença no rendimento dos times. É um esforço de superação a cada semana, a cada jogo. É um exemplo de dedicação que faltou, por exemplo, ao primo rico, o Flamengo, alvejado pelo Tricolor na Taça Rio e soterrado na semifinal pelo alvinegro, mergulhando numa crise que levou à saída de Paulo Cesar Carpegiani e a reformulação, como se sabe, de todo o departamento do futebol rubro-negro.
Mas, apesar dos bons jogos, o Carioca não empolgou, não venceu a desconfiança do torcedor. O Fluminense chegou a jogar para 526 pessoas., no acanhado estádio de Los Larios, na Baixada, numa vitória de 1 a 0 sobre o Macaé. A ocupação média nas arquibancadas não passou de 17% ao longo da disputa. Nem no Fla x Flu, quando a cartolagem apelou para o ingresso popular a partir de R$ 10 a situação mudou: apenas 16.923 pagantes estiveram no Nilton Santos. Quase o mesmo público do primeiro jogo da final, domingo passado no mesmo estádio: 16.337. Indigno de uma decisão.
No ranking de público dos estaduais, computados os jogos até as decisões, o Carioca aparecia na oitava posição. Vinha depois do Paulistão – com uma média superior a sete mil torcedores contra pouco mais de dois mil do Rio -, e dos campeonatos Mineiro, onde o elenco reforçado do Cruzeiro tem atraído um público forte, do Paranaense, do Catarinense, do Gaúcho, do Baiano e do Cearense. Entre os principais do país, somente o Pernambucano ficava atrás, reflexo do momento de penúria da dupla Sport e Santa Cruz, as duas maiores torcidas locais.
Os motivos desse fiasco já foram ditos e repetidos: um regulamento esdrúxulo, capaz de fazer com que os dois ganhadores de turnos, o Flamengo, na Taça Guanabara, e o Fluminense, na Taça Rio, ficassem de fora da finalíssima, jogos mambembes disputados em estádios sem a menor condição de receber times de primeira linha e mandos de campo negociados para localidades nada cariocas como o Cariacica, no Espírito Santo, Brasília, Cuiabá ou Natal. O torcedor não é bobo e sabe exatamente quando e como deve gastar o seu rico dinheirinho.
O Maracanã, se não lotado, bastante cheio, é o que se espera na tarde deste domingo. E isto é o verdadeiro futebol do Rio que sobrevive apesar dos esforços dos cartolas para matá-lo. Neste domingo de decisões por todo o país, o estádio que já foi o maior do mundo vai voltar a ocupar o lugar que merece. Vai ter casa cheia, certamente, no Allianz Parque, para Palmeiras e Corinthians, no Mineirão para Cruzeiro e Atlético, no Barradão para o Ba-Vi e na Arena da Baixada para o Atle-Tiba. E isso, mesmo com a decadência dos estaduais, sua lenta agonia, é importante. Prova, inclusive, que se forem reformulados, com menos politicagem e mais inteligência, podem até recuperar o charme. Nada, contudo, vale mais do que ver o Maracanã renascer. E o futebol carioca, enfim, começar o ano.

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