Como Libra, FFU e CBF articulam criação da liga em meio a impasses no futebol brasileiro
Entidade máxima do futebol brasileiro quer uma definição até o fim de 2026

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Durante anos, a ideia de uma liga única para organizar o Campeonato Brasileiro foi tratada como um objetivo comum entre os clubes, embora permanecesse distante da realidade. Em 2026, esse projeto voltou ao centro das discussões do futebol nacional. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) tenta assumir o papel de articuladora de um processo que os próprios clubes não conseguiram concluir por conta própria, muito por disputas que envolvem divergências sobre modelos de negócio e divisão de dinheiro.
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Atualmente, o futebol brasileiro está dividido entre dois grandes blocos de negociação: a Libra (Liga do Futebol Brasileiro) e a Futebol Forte União (FFU). Embora sejam frequentemente chamadas de ligas, ambas funcionam como estruturas de representação comercial.
Os clubes autorizam esses grupos a negociar coletivamente seus direitos relacionados ao Campeonato Brasileiro, incluindo televisão aberta, TV por assinatura, streaming e pay-per-view.
O surgimento dos dois blocos foi consequência direta da incapacidade dos clubes de chegarem a um acordo sobre um modelo único de organização e distribuição de receitas. Dos anos 1980 até o início da década passada, este trabalho ficou a cargo do Clube dos 13. Desde a implosão da entidade, em 2011, os clubes passaram a negociar seus contratos diretamente com as compradoras de direitos de transmissão.
A separação deu origem a dois projetos com visões bastante distintas sobre como explorar economicamente o principal campeonato do país. A Libra optou por um modelo sem investidores externos. Os clubes mantiveram a propriedade integral dos seus ativos e utilizaram a estrutura coletiva apenas como instrumento para negociar contratos em melhores condições.
Foi por meio desse formato que a Libra chegou ao acordo de aproximadamente R$ 6 bilhões com a Globo para a comercialização dos direitos do Brasileirão entre 2025 e 2029.
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A FFU escolheu um caminho diferente. Em vez de esperar a entrada gradual de recursos provenientes dos contratos futuros, os clubes decidiram antecipar parte dessas receitas. Para isso, firmaram acordos pelos quais cederam entre 10% e 20% de seus direitos de transmissão à Sports Media Entertainment (SME), recebendo em troca aproximadamente R$ 2,2 bilhões em aportes financeiros.
A operação exigiu uma estrutura jurídica própria. Foi criado o Condomínio Forte União (CFU), formado pelos clubes e pela SME. Enquanto a FFU atua como representante associativa das agremiações, o CFU funciona como o instrumento jurídico responsável por viabilizar a comercialização dos direitos e a distribuição das receitas.
Segundo os defensores desse modelo, a antecipação de recursos permitiu que clubes tivessem acesso imediato a capital para investimentos e reorganização financeira. Além disso, a estratégia comercial adotada apostou na fragmentação dos pacotes de direitos para atrair diferentes plataformas e ampliar a concorrência entre compradores. Em vez de vender somente para a Globo, os direitos foram fragmentados para Youtube, Record e Amazon Prime.
Sem que os clubes conseguissem construir sozinhos um cronograma ou uma estrutura institucional para a unificação, a CBF passou a enxergar uma oportunidade de liderança.
A avaliação dentro da entidade é que a ausência de entendimento entre os blocos criou uma janela para que a confederação assumisse inicialmente o papel de moderadora das discussões.
Nos bastidores, existe também a percepção de que uma futura liga nacional poderá abrir novas possibilidades de participação econômica para a própria entidade, algo que ajuda a explicar o interesse crescente da CBF no tema.
O passo mais concreto ocorreu em 6 de abril de 2026. Na sede da entidade, o presidente Samir Xaud reuniu representantes dos 40 clubes das Séries A e B para apresentar um estudo sobre a criação de uma liga única.
Como os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro já estão comercializados até a temporada de 2029, qualquer mudança estrutural relevante teria como horizonte o ano de 2030. A proposta apresentada pela CBF divide o processo em três grandes etapas. A primeira, chamada de Produto, trata de melhorias no campeonato em si. A segunda, Comercialização, seria dedicada à construção de um modelo conjunto para venda dos direitos. A terceira, Governança, envolveria a estrutura jurídica e administrativa da futura liga.
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A intenção da entidade é concluir ainda em 2026 a fase dedicada ao produto. Até o fim de julho, os clubes podem apresentar sugestões e propostas. A expectativa da CBF é que o estatuto da futura liga esteja encaminhado até o final do ano.
Para convencer os dirigentes sobre a necessidade de mudanças, a entidade apresentou uma comparação com as principais ligas do mundo.

Os números revelam a distância econômica que separa o futebol brasileiro dos grandes mercados europeus. Segundo o estudo, a Premier League gera aproximadamente 7,5 bilhões de euros em receitas.
La Liga movimenta cerca de 5,5 bilhões de euros, enquanto a Bundesliga alcança 5,1 bilhões. O Brasileirão aparece com aproximadamente 1,8 bilhão de euros.
O plano apresentado aos clubes inclui propostas para melhorar aspectos considerados fundamentais na valorização do campeonato. Entre os pontos debatidos estão o calendário, o aumento do tempo de bola rolando, a modernização dos estádios, melhorias de infraestrutura, qualificação das transmissões, fortalecimento da comunicação digital, ampliação das estratégias de marketing, desenvolvimento de jovens talentos, aperfeiçoamento da governança e sustentabilidade financeira.
Esse ambiente de complexidade ficou ainda mais evidente com o surgimento de um importante conflito interno dentro da própria Libra. O bloco passou a viver um período de forte tensão depois que o Flamengo decidiu recorrer à Justiça para questionar os critérios de divisão das receitas provenientes dos direitos de transmissão. O episódio expôs divergências profundas sobre um tema historicamente sensível no futebol brasileiro: a forma de distribuir dinheiro entre clubes com diferentes tamanhos de torcida, audiência e capacidade de geração de receitas.
O caminho para a unificação, porém, está longe de ser simples. O principal obstáculo é jurídico e contratual. Tanto Libra quanto FFU possuem compromissos de longo prazo já assinados com parceiros comerciais. Qualquer tentativa de criar uma estrutura única exigirá soluções capazes de compatibilizar contratos existentes, investimentos realizados e direitos econômicos que já foram parcialmente cedidos.
Segundo apurou a reportagem, a FFU não pensa em abrir conversas para sair da criação de uma liga única no futuro. Interlocutores ligados aos investidores defendem que o potencial econômico do futebol brasileiro ainda está longe de ser plenamente explorado.
Segundo esse entendimento, o conjunto dos direitos do Brasileirão hoje movimenta algo em torno de R$ 3 bilhões, mas poderia alcançar aproximadamente R$ 13 bilhões caso todas as linhas de receita fossem desenvolvidas de forma mais eficiente, incluindo plataformas digitais, novos formatos de transmissão, exploração internacional da marca e receitas comerciais complementares.
Os mesmos interlocutores fazem questão de ressaltar que esse número não representa uma avaliação de venda dos direitos, mas sim uma estimativa do espaço de crescimento existente no mercado.
O caso mostrou que a dificuldade de alcançar consensos não existe apenas entre Libra e FFU. Ela também aparece dentro dos próprios grupos. E justamente por isso, muitos dirigentes enxergam a construção de uma liga única como um processo que exigirá muito mais do que boa vontade política.
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