Presidente da Fifa Master Alumni vê Infantino ainda favorito: 'Há muito ruído'
Apesar da guerra com Uefa, Pedro Trengrouse não vê candidato capaz de consenso na Fifa

A situação política da Fifa neste momento é uma incógnita. O presidente Gianni Infantino está sob ataque direto da principal confederação afiliada à entidade, a Uefa, que controla as mais lucrativas competições do planeta à exceção da Copa do Mundo. Para explicar o atual cenário político, o Lance! conversou com o advogado Pedro Trengrouse, que transita com desenvoltura tanto em Zurique quanto na CBF. Ele é presidente da Fifa Master Alumni, associação de ex-alunos do prestigiado curso de formação de gestores do esporte na Fifa.
Ele também é professor da CBF Academy, presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB-RJ e coordenador acadêmico do programa FGV/Fifa/CIES. No dia 20 de julho, Trengrouse esteve na Organização das Nações Unidas (ONU) para promover uma iniciativa global utilizando como plataforma a Copa do Mundo feminina a ser realizada no Brasil em 2027, com o intuito de potencializar a prevenção de violência de gênero em todo o planeta. Ele representou a Fifa Master Alumni ao lado de organizações como Unesco, Escritório da Juventude da ONU e ONU Mulheres.
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O advogado vê Infantino ainda favorito à reeleição na Fifa, apesar dos esforços da Uefa em minar a base de apoio do suíço e indicar até mesmo que tentará retirá-lo do cargo antes da eleição. Para Trengrouse, a quantidade de recursos recebidos pelas afiliadas em sua administração faz com que somente um "fato extraordinário" seja capaz de derrubar o presidente da Fifa. Ele afirma inclusive que a Uefa dispõe de uma estrutura de parceria comercial semelhante à que foi proposta por Infantino para potencializar seus ganhos, mas sem a venda de ações e participação de investidores.
— As confederações têm muita influência política, mas quem vota na eleição da Fifa são as 211 associações nacionais, cada uma com um voto. Mesmo que a Uefa conseguisse unificar o voto de todas as suas associações, isso, por si só, não seria suficiente para decidir uma eleição. Neste momento, apesar do desgaste recente, continuo vendo Gianni Infantino como favorito. Ainda não surgiu um candidato capaz de construir uma maioria global.

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Confira a íntegra da entrevista de Pedro Trengrouse ao Lance!:
Você esteve em Zurique até quinta. Como sentiu o clima por lá em relação a Gianni Infantino? A base de apoio político dele foi de fato abalada por esse racha com a Uefa?
— Há muito ruído, mas Gianni Infantino continua favorito. Esse episódio gerou desgaste, especialmente com a Uefa, mas não altera, por si só, sua base de apoio. Em condições normais, ele segue como favorito. Esse cenário só mudaria diante de um fato extraordinário que comprometesse sua candidatura. Sob sua gestão, as associações nacionais nunca receberam tantos recursos e a ampliação da Copa do Mundo beneficia diretamente um grande número de federações.
Como você faz a leitura desse movimento da Uefa? Foi, de fato, um posicionamento a favor dos princípios do esporte ou agarraram a oportunidade política de impedir que Infantino distribuísse dinheiro para garantir uma reeleição?
— Acho que houve uma sobreposição de agendas. A Uefa levantou questões legítimas sobre governança, transparência e processo decisório. Mas o debate sobre o mérito da proposta foi rapidamente ofuscado pela disputa política. A eleição está próxima e qualquer proposta dessa magnitude inevitavelmente influencia a corrida pela presidência da Fifa. Essa discussão relevante sobre o futuro econômico do futebol acabou sendo analisada mais pela disputa de poder do que pelo mérito da proposta.
Como você analisa essa proposta da FIFA Forward Enterprise? Leu a proposta?
— Não li a íntegra da proposta, apenas as informações que foram divulgadas publicamente. Mas, pelo que foi apresentado, a ideia, em si, não me parece absurda. Muitas organizações esportivas já utilizam estruturas empresariais para explorar seus ativos comerciais. A própria Uefa opera parte de seus direitos por meio de empresas. O problema nunca foi simplesmente vender uma participação minoritária. As perguntas corretas são outras: quanto valem esses ativos? Quais direitos seriam transferidos? Como o investidor seria remunerado? Essa era realmente a melhor estrutura? Na minha visão, a avaliação econômica dos ativos deveria ter vindo antes da definição da operação. Primeiro se avalia o ativo. Depois se escolhe a melhor forma de captar recursos.
Você mencionou que a Uefa tem uma estrutura parecida com essa que a Fifa propôs. Como funciona isso na Uefa?
— A Uefa já adota um modelo semelhante por meio da UC3, uma joint venture com os clubes europeus para administrar a exploração comercial de suas competições. A grande diferença é que ainda não tem participação de investidor. Na Espanha, a La Liga firmou uma parceria bilionária com o CVC Capital Partners, um dos maiores fundos de investimento do mundo, para acelerar o desenvolvimento comercial da liga e dos clubes. Em outros esportes, a FIVB criou a Volleyball World, também em parceria com o CVC, para expandir os negócios do vôlei em escala global. Já a Fórmula 1 tem seus direitos comerciais explorados por uma empresa controlada pela Liberty Media, um grupo americano de mídia e entretenimento.

Durante a Copa vimos um Infantino muito próximo de Trump. Um dos intermediários dessa proposta é irmão do genro de Trump. Como isso repercutiu internamente na Fifa?
— Sem dúvida, esse contexto aumentou a sensibilidade política da proposta e alimentou questionamentos internos. Mas, do ponto de vista técnico, essa nem me parece ser a principal questão. O ponto central deveria ser outro: primeiro avaliar, de forma independente, quanto valem os ativos comerciais da Fifa e só depois levá-los ao mercado. Se a operação fosse conduzida dessa forma, com transparência e um processo competitivo, a discussão sobre quem seriam os investidores perderia boa parte da relevância.
A Uefa tem força para derrubar Infantino em 2027? Qual seria o candidato mais forte?
— As confederações têm muita influência política, mas quem vota na eleição da Fifa são as 211 associações nacionais, cada uma com um voto. Mesmo que a Uefa conseguisse unificar o voto de todas as suas associações, isso, por si só, não seria suficiente para decidir uma eleição. Neste momento, apesar do desgaste recente, continuo vendo Gianni Infantino como favorito. Ainda não surgiu um candidato capaz de construir uma maioria global. Há nomes sendo especulados, mas, até agora, nenhum conseguiu reunir um consenso suficiente para enfrentar o atual presidente.
O dinheiro da Fifa Forward Enterprise seria suficiente para garantir o voto da maioria das federações? Como você avalia esse sistema eleitoral?
— Não. Seria um erro reduzir uma eleição da Fifa apenas ao aspecto financeiro. Os recursos para desenvolvimento têm grande importância, especialmente para associações menores, e é natural que isso seja considerado pelos eleitores. Mas as federações também avaliam liderança, estabilidade institucional, resultados da gestão, capacidade de entregar projetos e alianças políticas. O dinheiro é um fator relevante, mas está longe de ser o único.
Como você avalia a condução desse caso por Infantino?
— Acho que poderia ter sido melhor. O momento político certamente influenciou a forma como a proposta foi recebida e debatida. Mas uma iniciativa dessa dimensão exige diálogo, transparência e construção prévia de consenso. Antes de apresentar uma operação como essa, seria importante discutir alternativas e amadurecer tecnicamente a proposta. O fato de ela ter sido retirada demonstra que esse processo poderia ter sido melhor conduzido, independentemente do mérito da ideia.
Um dos assessores mais próximos de Infantino pediu demissão e um diretor da Fifa fez críticas públicas. Como você enxerga a situação dele dentro da própria Fifa?
— É preciso interpretar essas manifestações com cautela. Quando Paulo fala de Pedro, muitas vezes sabemos mais sobre Paulo do que sobre Pedro. Cada declaração precisa ser analisada dentro do contexto institucional e político em que foi feita. Divergências internas fazem parte de qualquer organização e, idealmente, devem ser resolvidas internamente. Quando chegam ao debate público, normalmente revelam um desgaste na relação de confiança. O episódio demonstra que há tensão dentro da Fifa, mas ainda é cedo para concluir que exista uma ruptura interna irreversível.

Você acha possível uma renúncia de Infantino antes da eleição?
— Não vejo elementos que indiquem uma perda de governabilidade capaz de justificar uma renúncia. Houve um revés importante com a retirada da proposta, mas isso é diferente de perder as condições de continuar exercendo a presidência. Apesar das críticas, Gianni Infantino continua contando com apoio significativo entre as associações nacionais, que são, em última análise, quem decide a eleição da Fifa.
Como fica a Conmebol nessa situação? Ela foi neutra. Isso mostra falta de força?
— Eu vejo exatamente o contrário. A Conmebol preferiu não transformar a discussão econômica em embate político antes de conhecer todos os detalhes da proposta. Essa postura demonstra cautela institucional. Neutralidade, nesse caso, não significa falta de influência. Significa evitar conclusões precipitadas.
A proposta de Copa com 64 seleções tem chance real de decolar?
— Tem. Na Fifa, quem decide são as associações nacionais. Se a proposta tiver maioria, será aprovada. A Fifa ter decidido aprofundar os estudos demonstra que o tema continuará em discussão. Aliás, esse processo de avaliação prévia talvez fosse justamente o que faltou no debate sobre a Fifa Forward Enterprise. Grandes mudanças estruturais ganham legitimidade quando são precedidas por estudos técnicos, diálogo e construção de consenso. Como qualquer mudança relevante, a ampliação da Copa dependerá menos da vontade do presidente e mais da maioria dos membros da Fifa.
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