Opinião: Infantino tentou usar a ganância, mas acabou engolido por ela
Suíço tentou garantir reeleição na Fifa enchendo o bolso de seus afiliados, mas agora vê Uefa pedir a mesma submissão que ofereceu a Trump

Em poucos dias, a ganância mudou um panorama de reeleição garantida de Gianni Infantino em 2027 na Fifa para uma grave crise no comando do futebol mundial. A Uefa anunciou na manhã desta quinta-feira um racha sem precedentes na hierarquia do esporte: as suas 55 seleções afiliadas não participarão das competições da entidade máxima, incluindo a Copa do Mundo. Tudo porque Infantino, nem duas semanas depois do fim da edição mais lucrativa da história do torneio, quis mais.
O suíço que sucedeu os decaídos no escândalo que ficou conhecido como Fifa Gate em 2015 inicialmente tomou medidas para melhorar a imagem arrasada da entidade pelas denúncias de corrupção e uso das verbas para custeio de luxos intermináveis aos membros de seu conselho com maior poder de decisão. Habilidoso para negociar, nem tanto para lidar com críticas, haja vista o cancelamento de todas as coletivas da Copa do Mundo, inclusive a protocolar de encerramento.
Tal qual João Havelange em outros tempos, vislumbrou uma máquina de lucro e colocou essa meta acima de demais valores do esporte e — mais grave em termos práticos — da própria política da entidade que comanda. O mesmo Infantino que há poucos dias era cogitado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para assumir a secretaria-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e gozava de apoio sólido para uma reeleição tranquila no próximo Congresso da Fifa, em março de 2027, hoje não pode mais dizer com certeza absoluta que continuará no cargo mais importante do futebol no ano que vem.

O tiro no próprio pé dado por Infantino foi a nova proposta de comercialização da Copa do Mundo. Os números finais da competição, que se encerrou no último dia 19, nem foram publicados oficialmente pela entidade. Estima-se um total de US$ 13 bilhões de arrecadação em todo o ciclo, sendo US$ 8,9 bilhões só com o torneio. Mas o suíço quis mais. Tentou ratificar sua reeleição de maneira precoce em troca de dinheiro, mas se afobou. E o erro pode custar caro.
Quem acompanha as redes sociais do dirigente vê um Infantino bastante preocupado em explicar melhor a proposta da Fifa Foward Enterprise, uma embalagem bonita para facilitar a digestão da ideia de vender parte dos direitos sobre a Copa do Mundo para investidores privados. Esqueceu, o suíço de que, por mais que a Fifa seja uma corporação e se porte como tal quando investigada sobre seus muitos mistérios, continua tendo ".org" no fim do seu e-mail, continua sendo uma entidade sem fins lucrativos.
Mais do que isso. Infantino não exatamente propôs a venda de direitos sobre a Copa do Mundo como se fosse um ativo da entidade; ele tentou forçar a ideia goela abaixo de seus afiliados. Os membros que não aceitassem a ideia, trazida a público sem debate interno, no prazo determinado não teriam acesso às verbas que beiram os US$ 40 milhões. Não repercutiu bem.

A partir daí, a reação se tornou tão radical quanto a proposta. Até mesmo aliados não gostaram nem da forma como a questão chegou à mesa, tampouco da ideia em si. Não por acaso, os comunicados das confederações que se opuseram publicamente aos devaneios de Intanfino são uníssonos ao expressar descontentamento por terem recebido as informações via mídia, e não por canais oficiais internos.
Curiosamente, Infantino chegou ao seu cargo atual por meio da Uefa. Era o braço direito de Michel Platini, outro derrubado pelo Fifa Gate. E a Uefa também mostrou, em toda essa história, um timing e uma leitura política impecáveis. As rusgas com a revogação do cartão de Balogun e os danos à imagem de Infantino pela submissão a Trump, desde o prêmio da paz aos problemas com as políticas de imigração americana, não eram suficientes para implodir a base política de Infantino.
A Uefa precisava de um gatilho para alçar o seu candidato, o seu presidente, o esloveno Aleksander Ceferin. Ou talvez o presidente do PSG, o catariano Nasser Al-Khelaïfi. E Infantino caiu na armadilha da sua própria vaidade ao entregar ao já desenhado adversário justamente o que ele queria: um motivo para rachar e angariar aliados suficientes para de fato representar uma ameaça no colégio eleitoral.
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A entidade europeia aproveitou o momento, e, mais do que isso, aproveitou o delírio de grandeza de Infantino de acreditar que acenar com um caminhão de dinheiro seria suficiente para cooptar apoio e deixar todos felizes e contentes. Já foi, em outras ocasiões. Mas, dinheiro, a Uefa tem, e muito. E também o desejo de colocar um dos dos seus no cargo máximo do futebol.
Se Infantino se submeteu a Trump na Copa do Mundo, a Uefa agora quer o mesmo. A ganância dos afiliados, que Infantino tentou usar como trunfo, bateu de frente em um muro de ambição. O comunicado oficial declara que a única possibilidade de voltar atrás na decisão de não participar mais de competições da Fifa é a entidade desistir completamente da ideia de trazer investidores privados para a sociedade. O suíço agora se encontra entre a necessidade de enterrar seus próprios planos e baixar a cabeça, ou bater de frente e ver o que acontece em 2027. A única certeza é de que não tem mais bobo no futebol.
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