'Copa do Mundo e Olimpíada: grandes eventos, grandes mazelas'
'Ou a Fifa e o COI devolvem o realismo a estes eventos, ou correm o risco de vê-los, em prazo curto, sufocados por sua própria grandiosidade'

A Copa do Mundo e as Olimpíada são os grandes momentos do esporte mundial. Ao longo das últimas décadas, contudo, especialmente neste século, cada vez mais o noticiário em torno destes eventos tem extrapolado as seções esportivas e alimentado escândalos que repercutem nas editorias de polícia e de política dos jornais, dos sites, das emissoras de TV pelo mundo. Por vezes, o esporte tem ficado, até, em segundo plano.
A Copa das Confederações, iniciada no último sábado com Rússia x Nova Zelândia, é bem um exemplo disso. Tudo bem que é apenas uma competição preparatória para o Mundial do ano que vem, mas a baixa repercussão é algo que impressiona. Enfraquecido esportivamente, a ponto de a Alemanha, campeã mundial, optar pelo envio de uma seleção alternativa, sem suas grandes estrelas – um fato inédito em uma disputa desse porte – o torneio restringe-se praticamente ao brilho de Cristiano Ronaldo.
Em compensação, as denúncias de corrupção, de superfaturamento e exploração de operários nas obras dos estádios, os protestos de rua e as prisões dos opositores do governo Putin têm tido ampla divulgação na mídia internacional. São histórias escabrosas. A última, a revelação dos números do estádio de São Petersburgo, que sediou a abertura e que será também o palco da final da Copa das Confederações: a obra, entregue à empreiteira de um amigo pessoal do presidente russo, deveria ter custado R$ 300 milhões mas saiu por inacreditáveis R$ 2,4 bilhões. A mais cara arena da história.
Nada disso, contudo, é uma exclusividade russa. Dos 12 estádios construídos ou reformados no Brasil para a Copa de 2014, dez estão na mira da Operação Lava Jato, alvos de denúncias de cartelização das licitações, pagamentos de propinas e superfaturamento. Na África do Sul, onde arenas ser transformaram em inúteis elefantes brancos, essa também já havia sido, em 2010, a tônica do noticiário que antecedeu a realização da primeiro Mundial do continente. Ou seja, desde 2006, na Alemanha, três edições da Copa foram marcadas por escândalos que desmoralizaram governos e jogaram por terra os ideais do esporte. É demais!
Na Olimpíada não tem sido diferente. Com algum exagero, atribui-se à gastança com os jogos de Atenas, em 2004, um peso importante na crise econômica que levou à falência da Grécia anos depois. Nem a austera Inglaterra, em 2012, escapou de ver-se envolvida numa nebulosa teia de fatos obscuros que começaram com suspeita de informações privilegiadas que levaram à construção de um shopping center praticamente dentro do centro olímpico e culminaram com manobras para escamotear o estouro do orçamento e transformá-lo em superávit.
Por aqui, esta semana, a Aglo (Autoridade de Governança do Legado Olímpico), ligada ao ministério do Esporte, divulgou a última versão da Matriz de Responsabilidades dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio-2016. Os custos chegaram a R$ 43,17 bilhões, incluindo obras de infraestrutura da cidade como o Porto Maravilha, a ampliação do elevado do Joá, o BRT e as obras da linha 4 do metrô – todas sob investigação nas operações anticorrupção. Foi a terceira olimpíada mais cara em todos os tempos, atrás de Pequim e Atenas, praticamente empatada com Londres.
Todas essas mazelas mostram que o modelo destes eventos – baseado num gigantismo irresponsável – está falido. Boa parte dos crimes que levaram à prisão de dirigentes da Fifa e de confederações pelo mundo está relacionada às copas, envolve propinas pagas para a escolha de uma outra sede ou a negociação da venda de direitos de TV, por exemplo.
Por outro lado, os grandes investidores-patrocinadores já perceberam isso e começam a questionar se vale a pena continuar associando suas marcas a eventos sempre sob suspeita – essa semana, o McDonald`s antecipou o fim de seu contrato com o COI, rompendo uma parceria de 41 anos. Não é por acaso também que, cada vez mais, a população vem se mobilizando, em cidades e países, rejeitando a ideia de seus governantes de sediar olimpíada e copa.
O prognóstico é claro: ou a Fifa e o COI devolvem o realismo a estes eventos, ou correm o risco de vê-los, em prazo curto, sufocados por sua própria grandiosidade.

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