Português com passagem por Jordânia e Congo faz raio-X das seleções
João Mota avalia cenários das seleções

Da tranquila paisagem bíblica da Jordânia ao cenário turbulento do Congo. Poucos treinadores portugueses acumularam experiências tão distintas em países que hoje dividem o sonho de disputar uma Copa do Mundo quanto João Mota. Atualmente no comando do Al Yarmouk, do Kuwait, o técnico acompanha de longe o Mundial de 2026. Enquanto prepara sua nova equipe para a temporada, observa atentamente duas seleções com as quais construiu uma relação especial ao longo da carreira.
Há cerca de 15 anos vivendo no Brasil, onde formou família ao lado da esposa brasileira no interior de São Paulo, João transformou o país em sua base. Mas sua profissão o leva constantemente para novos desafios, principalmente no Oriente Médio e na África. Foi justamente nesses continentes que viveu experiências que até hoje ajudam a explicar sua visão sobre o futebol e sobre diferentes culturas.
A passagem pela Jordânia ocupa um lugar especial em sua memória. Durante duas temporadas no país, em que treinou o Al Hussein, João participou de um período de desenvolvimento de atletas que hoje representam a seleção nacional. Apesar da derrota jordaniana por 3 a 1 para a Áustria na estreia da Copa do Mundo, o treinador acredita que a equipe ainda pode surpreender no Grupo J.
- Trabalhei dois anos na Jordânia. Sinto-me lisonjeado porque jogadores que estão na seleção hoje jogaram conosco. Os atletas evoluíram muito, são tecnicamente bons e lutadores por natureza. Será uma equipe difícil de vencer - afirmou.

Na avaliação do treinador, a principal força jordaniana está na velocidade das transições ofensivas.
- Os atacantes, quando têm chance, não desperdiçam. São três jogadores muito rápidos que vão atuar na frente. É um time de transições muito rápidas, mas também uma equipe previsível. Se o adversário perceber rapidamente o esquema de jogo, conseguirá neutralizar e encontrar caminhos para vencer - disse
Além do futebol, João guarda lembranças positivas da vida no país.
- Gostei muito da Jordânia. Sou um pouco suspeito porque as pessoas nos tratam muito bem lá. Eles são muito fortes na culinária. No turismo, há muitos locais bíblicos e, como cristão, foi algo muito especial. Conheci o Rio Jordão, excelentes resorts e lugares incríveis. Gostei muito de viver lá - revelou.
Se a experiência na Jordânia deixou saudade, a passagem pelo Congo produziu lembranças bem diferentes. O treinador permaneceu pouco tempo no país africano e enfrentou dificuldades dentro e fora dos gramados. Ainda assim, reconhece qualidades importantes na seleção congolesa, que estreia nesta quarta-feira (17) diante de Portugal pelo Grupo K, chave que também conta com Uzbequistão e Colômbia.
- Fiquei por pouco tempo no país por diversos motivos. Mas a seleção é uma equipe alta, com bons jogadores. Os melhores atletas atuam fora do país. Na Jordânia, apenas um ou dois jogam no exterior. São jogadores com mais força física. A forma de pensar o jogo também é diferente da maioria dos outros países africanos - afirmou.
João lembra que precisou adaptar conceitos defensivos ao trabalhar com atletas africanos.
- Sou apaixonado pelos jogadores africanos. São pessoas amáveis, mas, no entendimento do jogo, às vezes nos tiram do sério. Eles queriam bater até na sombra. Tivemos que ensiná-los a defender. Na África, nem tudo é falta e os jogadores chegam muito forte. Precisamos mostrar que havia uma forma de defender dentro da área e outra fora dela. Os jogadores africanos são guerreiros.
As dificuldades, porém, ultrapassavam as quatro linhas. O treinador descreve o período no Congo como o mais complicado de sua trajetória profissional.
- O país em si foi o pior ambiente que conheci na vida. Foi decepcionante. Havia sujeira, buracos por todos os lados e não se podia andar na rua com tranquilidade. Fui à casa do presidente algumas vezes e encontrava trânsito parado e relatos de tiros. Eu fugi do Congo. Não me pagaram. Era um lugar perigoso. Os torcedores me esperavam do lado de fora do estádio para pedir ajuda. Foi muito triste.
Com experiência acumulada em diferentes continentes, João acompanha o Mundial com olhar privilegiado. Para ele, algumas seleções chegam à competição um passo à frente das demais.
- Brasil, Alemanha e Espanha são favoritos. A França também é muito forte. Não vejo a Argentina com a mesma força de 2022 - avaliou.
Entre lembranças de estádios africanos, paisagens do Oriente Médio e a rotina tranquila no interior paulista, João Mota segue construindo uma carreira marcada por contrastes. E, enquanto observa a Copa do Mundo à distância, vê dois capítulos importantes de sua trajetória ganharem espaço no maior palco do futebol.
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