EXCLUSIVO PARA ASSINANTES

Como a ciência ajudou a Copa do Mundo a ter recorde de 'quarentões' em 2026

Avanços na preparação e na nutrição ajudam a explicar longevidade

PorThiago BragaSão Paulo (SP)
13/06/2026 07:00
Cristiano Ronaldo virou assunto entre torcedores na partida entre Portugal e Costa Rica. (Foto: FILIPE AMORIM / AFP)
Cristiano Ronaldo em ação pela seleção de Portugal (Foto: FILIPE AMORIM / AFP)
Carregando conteúdo especial...

Em 1994, o camaronês Roger Milla fez história ao marcar, aos 42 anos, o único gol de Camarões na derrota para a Rússia por 6 a 1. O feito, nos Estados Unidos, fez de Milla o único jogador de linha com mais de 40 anos a disputar uma Copa do Mundo. Até então, todos os quarentões que haviam entrado em campo em partidas do Mundial haviam sido goleiros. Mesmo com o feito, Milla parecia ser exceção.

continua após a publicidade

Trinta e dois anos depois, a Copa voltou à América do Norte. Desta vez dividida entre Canadá, México e Estados Unidos, a edição iniciada nesta quinta-feira traz um retrato diferente do futebol. O torneio reúne um recorde de atletas acima dos 40 anos. São oito convocados que já alcançaram ou alcançarão essa marca durante a competição.

Copa do Mundo chega sob ameaça de calor extremo e riscos à saúde

Turíbio Leite de Barros acompanhou parte dessa mudança de perto. Com cinco décadas no futebol, o fisiologista viu a evolução do esporte e da tecnologia.

continua após a publicidade

— A manutenção do nível de atividade é muito mais precisa hoje. Com GPS e outros instrumentos, você consegue qualificar e quantificar a carga de trabalho em tempo real. Nem permite que o atleta treine menos do que precisa nem mais do que deve. Quando comecei, grande parte dessas decisões era tomada na base da experiência e da observação — explica o fisiologista, que hoje é vice-presidente do Núcleo de Saúde e Performance da Portuguesa SAF.

A diferença é que o que antes dependia quase exclusivamente de disciplina individual passou a contar com uma estrutura inteira dedicada à preservação do rendimento.

continua após a publicidade

Monitoramento de carga, controle de sono, rastreamento de fadiga, avaliações fisiológicas constantes e acompanhamento em tempo real transformaram a rotina dos clubes. A intuição, tão presente em outras épocas, cedeu espaço aos dados.

Nos anos 1990, Turíbio trabalhou com Toninho Cerezo no São Paulo bicampeão mundial e viu um profissionalismo que, à época, era raro. Cerezo, com 38 anos, era referência e foi o melhor jogador na final do Mundial de 1993, contra o Milan.

— Sempre entendi que o que contribuía para a longevidade do Toninho Cerezo era o profissionalismo dele. Se cuidava de uma maneira exemplar e contaminava positivamente todo mundo. Hoje, quem escapa virou exceção. O que o Cerezo fazia naquela época é o que os atletas longevos fazem atualmente: abrir mão de muita coisa em prol de uma vida atlética — recorda.

➡️ Siga o Lance! no WhatsApp e acompanhe em tempo real as principais notícias do esporte

Talvez seja justamente essa a principal mudança representada pela Copa de 2026. Durante décadas, completar 40 anos era quase um aviso de despedida para um jogador profissional. Agora, em muitos casos, tornou-se apenas mais um dado biográfico.

A lista reúne o goleiro escocês Craig Gordon, que inicia o Mundial aos 43 anos e cinco meses; Cristiano Ronaldo, de Portugal, aos 41; Guillermo Ochoa, do México, Luka Modric, da Croácia, Edin Dzeko, da Bósnia-Herzegovina, Manuel Neuer, da Alemanha, e Vozinha, de cabo Verde, todos com 40 anos; além do uruguaio Fernando Muslera, que completará quatro décadas de vida durante o torneio.

Antes desta edição, apenas sete jogadores na casa dos 40 anos haviam participado de uma Copa do Mundo em toda a história. O primeiro foi Dino Zoff, na Espanha, em 1982. O mais recente havia sido o mexicano Alfredo Talavera, no Catar, em 2022.

Se o esporte ficou mais intenso, mais rápido e mais exigente fisicamente, a ciência passou a oferecer ferramentas capazes de prolongar carreiras que antes terminavam muito mais cedo.

Cristiano Ronaldo é talvez o símbolo mais visível desse fenômeno. Aos 41 anos, chega ao Mundial como o jogador de linha mais velho da competição. O português divide com Lionel Messi e Guillermo Ochoa o feito de disputar sua sexta Copa do Mundo. Modric desembarca na América do Norte aos 40 anos e nove meses. Craig Gordon, por sua vez, fará sua estreia em Copas quando muitos de seus contemporâneos já deixaram os gramados há anos.

Os avanços também chegaram ao tratamento das lesões. Problemas que encerravam carreiras há algumas décadas passaram a ter prognósticos bem diferentes.

— Hoje é muito difícil um atleta ter uma lesão mais séria e não conseguir se reabilitar. Cirurgia e fisioterapia esportiva evoluíram muito. Há lesões que antigamente encerravam a carreira de um jogador e hoje ele consegue voltar a atuar em alto nível — afirma Turíbio.

Na avaliação do ortopedista Marco Demange, professor da Faculdade de Medicina da USP, a compreensão do próprio corpo do atleta também mudou.

— Houve um maior entendimento da mecânica e da fisiologia do esporte, permitindo compreender melhor os ciclos de treinamento e repouso. Exames como a ressonância magnética tornaram os diagnósticos mais precisos, enquanto programas de prevenção de lesões e a evolução dos processos de reabilitação contribuíram para aumentar a longevidade esportiva — afirma.

Roger Milla comemora seu gol por Camarões na Copa do Mundo de 1994
Roger Milla comemora seu gol por Camarões na Copa do Mundo de 1994 (Divulgação/Fifa)

O arsenal tecnológico disponível atualmente vai muito além dos exames tradicionais. Equipamentos que monitoram sono, frequência cardíaca, carga de esforço e recuperação passaram a integrar a rotina diária dos atletas.

— GPS, acelerômetros, monitoramento de sono, análise biomecânica e protocolos individualizados de recuperação permitem reduzir riscos e identificar problemas antes que eles se transformem em lesões. O fortalecimento físico, a recuperação e o suporte multidisciplinar passaram a ser parte central da carreira de um atleta — explica o ortopedista Thiago Tronco.

Os avanços não se restringem aos músculos e articulações. A cardiologia esportiva também se tornou uma aliada importante da longevidade.

— Hoje temos ferramentas muito mais precisas para monitorar carga de treinamento, recuperação muscular, qualidade do sono, variabilidade da frequência cardíaca e marcadores relacionados à fadiga. Isso permite individualizar o treinamento e evitar desgastes que, no passado, encurtavam carreiras. A idade cronológica deixou de ser o principal parâmetro. Em muitos casos, a idade biológica passou a ser mais importante para entender a capacidade competitiva de um atleta — afirma a cardiologista do esporte Alessandra Geisler.

A alimentação aparece como um dos pilares mais importantes para explicar por que atletas conseguem competir em alto nível depois dos 40 anos. Se no passado a nutrição esportiva ocupava um papel secundário na preparação, hoje ela faz parte de um planejamento minucioso que acompanha cada fase da temporada.

➡️ Aposte nas partidas do seu time!
*É preciso ter mais de 18 anos para participar de qualquer atividade de jogo de apostas. Jogue de forma responsável.

Alessandra Geisler destaca que a nutrição esportiva está entre as áreas que mais evoluíram nas últimas décadas, com dietas personalizadas de acordo com as necessidades energéticas, a composição corporal e o perfil metabólico de cada jogador. O uso adequado de proteínas de alto valor biológico, estratégias para acelerar a recuperação muscular, o controle dos processos inflamatórios e a periodização do consumo de carboidratos ajudam a preservar a massa muscular e a capacidade de rendimento mesmo com o avanço da idade.

Para Turíbio, a evolução dos suplementos e do conhecimento nutricional ampliou ainda mais esse processo, transformando a alimentação em uma ferramenta tão importante para a longevidade quanto o treinamento e a recuperação.

O recorde de Essam El-Hadary, que disputou a Copa de 2018 aos 45 anos e cinco meses, continua intacto. O que mudou foi a companhia. Pela primeira vez, os quarentões deixaram de ser exceções isoladas para formar um grupo numeroso dentro do maior palco do futebol.

Sugerida para você!


Mais LANCE!