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Ataque poderoso, defesa vulnerável: como a Noruega chega para enfrentar o Brasil

Brasil precisa quebrar escrita para avançar às quartas de final do Mundial

PorThiago BragaSão Paulo (SP)
01/07/2026 07:00
Haaland comemora de braços abertos gol marcado pela Noruega sobre a Costa do Marfim, na Copa do Mundo
Haaland comemora o segundo gol da Noruega sobre a Costa do Marfim: mais uma vez decisivo (Foto: Paul Ellis/AFP)

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No próximo domingo, às 17h (de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey, o Brasil vai encarar a Noruega, uma seleção que carrega na história um detalhe estatístico curioso: nunca perdeu para a Seleção Brasileira.

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A classificação norueguesa foi construída nesta terça-feira (30), em Dallas, com uma vitória por 2 a 1 sobre a Costa do Marfim. O resultado colocou fim a um intervalo de 28 anos sem que o país alcançasse as oitavas de final de uma Copa do Mundo. Também representou um marco ainda maior: foi a primeira vitória da Noruega em uma fase eliminatória do torneio.

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Entre as 88 seleções enfrentadas pela equipe pentacampeã ao longo da história, nenhuma outra preserva um retrospecto invicto diante dos brasileiros. São apenas quatro partidas, com duas vitórias norueguesas e dois empates, é verdade. Mas é um fator importante para quem tem um protagonista capaz de alterar qualquer roteiro em poucos segundos: Erling Haaland.

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Diante da defesa da Costa do Marfim batida, o atacante Haaland toca para marcar o gol da vitória da Noruega sobre a Costa do Marfim na Copa do Mundo
Com a zaga toda batida, Haaland toca e marca o gol da vitória da Noruega sobre Costa do Marfim (Foto Paul Elis/AFP)

Cometa Haaland lidera o ataque

Como ocorreu em praticamente toda a campanha, Haaland apareceu quando a partida parecia caminhar para outro destino. Aos 41 minutos do segundo tempo, Patrick Berg encontrou o centroavante dentro da área. Bastou um toque para que a bola entrasse e selasse a classificação. Foi o quinto gol do atacante nesta Copa do Mundo, número que o colocou na vice-artilharia da competição, atrás apenas de Lionel Messi e Kylian Mbappé, ambos com seis gols.

O gol também ampliou uma sequência que já começa a ocupar espaço entre as marcas históricas do futebol internacional. Haaland marcou em seu 13º jogo consecutivo pela seleção, alcançou 60 gols em apenas 53 partidas pela Noruega e tornou-se o jogador mais rápido da história a atingir essa marca por seleções nacionais. Como se não bastasse, passou a ser o primeiro atleta a balançar as redes em cada uma de suas três primeiras partidas de Copa do Mundo, uma demonstração da regularidade com que transforma oportunidades em gols.

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Poucos atacantes contemporâneos conseguem produzir uma impressão semelhante. Durante boa parte da partida diante da Costa do Marfim, Haaland participou pouco das ações ofensivas. A Noruega passou longos períodos sem controlar a posse, foi obrigada a defender perto da própria área e viu os africanos assumirem a iniciativa depois do empate marcado por Amad Diallo. Mesmo distante da bola, o camisa 9 permaneceu fiel ao papel que aperfeiçoou ao longo da carreira. Esperou o instante exato para atacar o espaço. Quando surgiu a oportunidade, decidiu o jogo.

A própria campanha da Noruega ajuda a explicar por que o centroavante nem sempre aparece durante noventa minutos. A equipe de Ståle Solbakken não constrói seu jogo para oferecer volume constante ao atacante. Ao contrário do Manchester City, em que Haaland costuma atuar cercado por jogadores capazes de controlar completamente a posse de bola, a seleção alterna momentos de domínio com longos períodos de resistência defensiva. Isso ficou evidente nas oitavas, quando precisou suportar pressão, fechar espaços e aceitar um jogo diferente daquele ao qual vinha se acostumando.

O treinador chegou ao mata-mata pressionado por uma decisão que havia provocado forte repercussão dias antes. Na última rodada da fase de grupos, optou por preservar praticamente toda a equipe titular diante da França. Foram dez mudanças na escalação. Solbakken sustentou a decisão mesmo diante das críticas. A resposta veio dentro de campo. Todos os titulares voltaram diante da Costa do Marfim. A classificação acabou funcionando também como uma validação pública da estratégia adotada pelo treinador.

Depois do jogo, Solbakken fez questão de destacar aquilo que considera o maior patrimônio de sua equipe: Haaland.

— Ele é o maior artilheiro do mundo. Ele traz frieza para a equipe. É muito subestimado em termos de retenção de bola. Marcar cinco gols em uma Copa do Mundo por um país pequeno como a Noruega. Eu não acho que nem ele imaginasse que pudesse fazer algo assim. Eu não o trocaria por ninguém — destacou o treinador norueguês.

As estatísticas ajudam a dimensionar essa confiança. Nos últimos 13 jogos pela seleção, Haaland marcou 25 gols. Na Copa, já soma cinco. Em todo o torneio, registra média de 4,7 finalizações por partida e ainda participa da construção ofensiva com 1,3 passe decisivo por jogo, números que revelam um atacante muito mais completo do que a imagem restrita de finalizador costuma sugerir.

O atacante Antonio Nusa corre e vibra comemorando o primeiro gol da Noruega sobre a Costa do Marfim pela Copa do Mundo
O atacante Antonio Nusa comemora o golaço, o primeiro da Noruega na vitória sobre a Costa do Marfim (Foto Paul Ellis/AFP)

Há vida sem Haaland?

A influência do camisa 9, porém, não resume a evolução da Noruega. O crescimento da equipe também passa pela qualidade técnica de Martin Ødegaard. O meia do Arsenal voltou a ser decisivo contra a Costa do Marfim ao dar a assistência para o gol de Antonio Nusa e alcançar uma marca expressiva. Tornou-se o primeiro jogador a participar diretamente de gols em três partidas consecutivas de Copa do Mundo desde Dirk Kuyt, em 2010.

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Os números individuais confirmam o protagonismo do capitão. Ødegaard lidera a seleção com três assistências no Mundial, produz uma finalização por jogo, mantém média de dois desarmes por partida e aparece como um dos responsáveis por equilibrar criação e recuperação de bola. Em um elenco naturalmente associado à figura de Haaland, o camisa 10 funciona como elo entre os setores do campo e frequentemente dita o ritmo das ações ofensivas.

Outro personagem importante dessa engrenagem é Antonio Nusa. A velocidade do atacante pelo lado esquerdo oferece uma característica diferente ao sistema ofensivo. Sua capacidade de conduzir a bola em velocidade obriga as defesas a ampliarem seus espaços laterais, criando corredores que favorecem tanto Haaland quanto Alexander Sørloth. Nusa já marcou um gol na competição e divide com Kristian Thorstvedt a liderança da equipe em dribles certos por jogo, com média de um.

Jogadores da Noruega fazem tradicional comemoração "remando" no gramado após a vitória siobre a Costa do Marfim na Copa do Mundo
Jogadores da Noruega fazem tradicional comemoração "remando" (Foto: Lars Baron/Getty Images/AFP)

Esse conjunto ajuda a explicar uma campanha consistente até aqui. Em quatro partidas, a Noruega conquistou três vitórias e sofreu apenas uma derrota. Marcou dez gols, média de 2,5 por jogo, e produziu um volume ofensivo sustentado por 43 finalizações, sendo 21 no alvo. O time registra ainda 35 conclusões dentro da área contra apenas oito de longa distância, indicador que evidencia a preferência por ataques construídos até zonas de maior probabilidade de finalização.

Noruega sofre com defesa inconstante

Embora apresente eficiência na frente, a equipe ainda convive com fragilidades defensivas. Sofreu oito gols nas quatro partidas, média de dois por jogo, permitiu quinze finalizações por confronto e concedeu, em média, duas grandes oportunidades aos adversários. O índice reforça que o sistema defensivo oferece espaços, especialmente quando enfrenta seleções capazes de acelerar as transições ofensivas.

Se Haaland representa a face mais visível da Noruega, o funcionamento coletivo explica por que a equipe deixou de depender apenas do talento de seu camisa 9. Os números do torneio revelam um time confortável quando precisa alternar momentos de controle da posse com ataques mais diretos. Em quatro partidas, os noruegueses trocaram 1.849 passes, média de 462,3 por jogo, e completaram 1.596, o equivalente a 399 acertos por partida. A posse média de 49,7% demonstra uma equipe que não faz questão de monopolizar a bola, preferindo acelerar quando encontra espaço para atacar.

Essa característica aparece também na distribuição das finalizações. A Noruega produziu 43 chutes, média de 10,8 por partida, dos quais 21 acertaram o alvo. Das conclusões, 35 aconteceram dentro da área e apenas oito de fora, um recorte que mostra a preocupação em construir jogadas até regiões de maior probabilidade de gol. Também chama atenção o volume de bolas levantadas na área. Foram 52 cruzamentos durante a campanha, média de 13 por confronto, recurso coerente com a presença de atacantes fortes fisicamente e dominantes no jogo aéreo.

O meia Odegaard chuta a bola na vitória da Noruega sobre a Costa do Marfim pela Copa do Mundo
Martin Odegaard, o camisa 10, comanda o meio-campo e já deu três assistências na Copa (Foto Stacy Revere/Getty Images via AFP)

O desempenho ofensivo encontra respaldo nas estatísticas individuais. Além dos cinco gols de Haaland, Martin Ødegaard lidera a equipe com três assistências, Patrick Berg soma duas e Andreas Schjelderup contribuiu com outra. Julian Ryerson aparece como o jogador que mais cria oportunidades, com média de dois passes decisivos por partida, seguido pelo próprio Haaland, com 1,3, e por Ødegaard, com uma assistência potencial por jogo. O desenho revela uma equipe que distribui responsabilidades criativas e evita concentrar toda a construção ofensiva em um único atleta.

Na fase defensiva, o lateral direito Ryerson também exerce papel decisivo. Ele lidera a equipe com média de 2,5 desarmes por partida, enquanto Ødegaard e Kristoffer Ajer aparecem logo atrás, ambos com dois. Ajer ainda se destaca como principal referência nas bolas aéreas e nos cortes defensivos, com média impressionante de nove rebatidas por jogo, seguido por Torbjørn Heggem, com 5,3, e pelo goleiro Ørjan Nyland, que registra 2,3 cortes por partida em intervenções fora da área.

O retrato estatístico confirma uma seleção competitiva, embora distante da perfeição. A Noruega cria, em média, 4,5 grandes oportunidades por jogo. Ao mesmo tempo, concede 2,5 grandes chances aos adversários e permite cerca de 15 finalizações por partida. Em outras palavras, costuma oferecer espaços. Contra seleções de maior capacidade técnica, essa vulnerabilidade pode se transformar rapidamente em problema.

O histórico entre os dois países também acrescenta um elemento pouco comum. O Brasil jamais derrotou a Noruega. O primeiro encontro terminou empatado por 1 a 1, em amistoso disputado em 1988. Depois vieram duas vitórias norueguesas. Em 1997, outro amistoso terminou 4 a 2 para os europeus. No ano seguinte, na Copa do Mundo da França, a Noruega venceu por 2 a 1 na fase de grupos, resultado que permanece como um dos episódios mais marcantes da história do futebol do país. Em 2006, novo empate em 1 a 1 em amistoso.

Depois do apito final, Haaland resumiu o significado da campanha para um país pouco habituado a ocupar espaço entre os protagonistas do futebol internacional.

— É história, parece inacreditável. Conseguimos nos classificar pela primeira vez em 28 anos, conseguimos passar da fase de grupos e agora conseguimos avançar para a próxima fase e enfrentar o Brasil em Nova York — analisou o atacante.

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A Noruega escreveu história ao alcançar sua primeira vitória em um mata-mata de Mundial, romper um jejum de quase três décadas e recolocar o país entre as principais seleções do torneio. Agora terá pela frente o adversário mais vitorioso da história das Copas e a oportunidade de preservar um retrospecto que permanece intacto. A Noruega chega amparada por uma geração que encontrou em Haaland seu grande símbolo, por um coletivo mais maduro do que em anos anteriores e pela convicção de que já superou desafios suficientes para acreditar que pode transformar mais uma vez a lógica da competição.

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