Após trauma nas últimas Copas, Alemanha retoma protagonismo e mira o mata-mata
Classificada em primeiro lugar no grupo, tetracampeã encara o Equador na última rodada

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A Alemanha chega à terceira rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026 classificada antecipadamente para o mata-mata. Com nove gols marcados em duas partidas, o ataque mais produtivo do torneio, a tetracampeã mundial reencontra uma condição que durante décadas lhe pareceu natural: a de protagonista.
Na quinta-feira, diante do Equador, no MetLife Stadium, em East Rutherford, os alemães entram em campo sem a pressão que acompanhou boa parte de sua trajetória recente. O cenário contrasta com o vivido nas duas últimas Copas do Mundo, quando a seleção acumulou eliminações precoces.
Maldição do 7 a 1
No início dos anos 2000, a Federação Alemã de Futebol iniciou uma das maiores reformas estruturais de sua história. A partir da temporada 2002/03, foi implantado o programa de desenvolvimento de talentos que obrigou clubes profissionais a investirem em centros de formação, ampliou a rede de observação de jovens atletas e fortaleceu as competições nacionais de base.
Os resultados apareceram ao longo da década seguinte. A Alemanha passou a produzir jogadores tecnicamente mais refinados sem perder características tradicionais como intensidade, disciplina tática e competitividade. O ápice daquele processo ocorreu em 2014, com a conquista da Copa do Mundo no Brasil.
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O sucesso, porém, foi seguido por um período de estagnação. Na Rússia, em 2018, a Alemanha caiu ainda na fase de grupos. Até então, isso havia acontecido apenas em ocasiões isoladas ao longo de toda a sua história em Mundiais. A eliminação diante da Coreia do Sul gerou críticas, mas não provocou mudanças profundas na estrutura da equipe.
A Eurocopa de 2021 trouxe novo revés, desta vez com a eliminação nas oitavas de final diante da Inglaterra. No Catar, em 2022, a situação se agravou. A derrota para o Japão na estreia comprometeu a campanha, e os alemães voltaram a deixar a competição ainda na primeira fase. Em três partidas, contra Japão, Espanha e Costa Rica, sofreram cinco gols e encerraram mais uma Copa muito antes do previsto. As duas eliminações seguidas repercutiram para os brasileiros como uma maldição pelo 7 a 1 imposto no Mineirão.
Recuperação dos fracassos
Foi nesse contexto que Julian Nagelsmann assumiu a missão de reconstruir a seleção. O técnico encontrou um grupo talentoso, mas que ainda buscava equilíbrio. Havia dúvidas sobre a definição do centroavante titular, questionamentos sobre a consistência defensiva e incertezas em relação ao protagonismo de jogadores como Jamal Musiala e Florian Wirtz.
Duas rodadas depois do início da Copa de 2026, parte dessas respostas começa a aparecer. Musiala e Wirtz formam hoje o principal núcleo criativo da equipe. Ambos atuam em zonas semelhantes do campo, mas conseguem se complementar. Juntos, ajudam a explicar o elevado volume de jogo apresentado pela Alemanha nos primeiros compromissos.
A circulação de bola é rápida, as trocas de posição são constantes e o time consegue ocupar diferentes setores do campo sem perder agressividade. O resultado é uma equipe que produz chances com frequência e mantém pressão territorial durante boa parte dos jogos.
Banco resolve
Outro aspecto que chama atenção é a profundidade do elenco. Poucas seleções nesta Copa têm um banco de reservas tão influente quanto o alemão. Os suplentes já acumulam seis participações diretas em gols, o maior número do torneio até aqui.

O principal destaque é Deniz Undav. O atacante do Stuttgart marcou saindo do banco ba goleada por 7 a 1 sobre Curaçao e repetiu o feito na vitória por 2 a 1 sobre a Costa do Marfim, com mais dois gols — o da virada já nos acréscimos.
Seu desempenho já o colocou ao lado de Roger Milla entre os jogadores com maior impacto ofensivo vindo do banco em uma única edição de Copa do Mundo.
A partida contra a Costa do Marfim também mostrou outra característica importante desta Alemanha: a capacidade de mudar o rumo de um jogo através das substituições.
Quando a equipe encontrou dificuldades para acelerar o ataque, Nagelsmann lançou Undav e Nadiem Amiri. Poucos minutos depois, ambos participaram da jogada que resultou no empate. A entrada dos reservas alterou a dinâmica ofensiva e foi decisiva para a virada.
Essa variedade de opções talvez seja uma das maiores forças da Alemanha neste momento. O treinador dispõe de jogadores com características distintas para diferentes cenários de partida, algo fundamental em competições de mata-mata.
Problemas à vista?
A vitória sobre a Costa do Marfim expôs fragilidades que acompanham a seleção há vários anos. Sempre que perde a posse de bola em zonas avançadas, a Alemanha apresenta dificuldades para reorganizar rapidamente sua estrutura defensiva.
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Os espaços deixados pelos laterais e pelos meio-campistas ofensivos continuam sendo uma fonte de preocupação. O gol marcado por Franck Kessié surgiu justamente em uma situação desse tipo. A jogada avançou pelo lado do campo sem contenção adequada, o cruzamento encontrou a área e a defesa alemã chegou atrasada na cobertura.
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Joshua Kimmich simboliza bem esse dilema. Sua capacidade de construção ajuda a equipe a controlar o jogo e produzir oportunidades. Ao mesmo tempo, sua participação constante no ataque exige coberturas eficientes quando a posse é perdida.
Outro problema foi a contusão do zagueiro Schlotterbeck. Ele saiu no intervalo com suspeita de lesão ligamentar no joelho esquerdo e fará exames. Se for confirmada a gravidade, estará fora da Copa.
A classificação antecipada não transforma a Alemanha em favorita ao título. Ainda assim, a seleção volta a exibir características que marcaram sua história: profundidade de elenco, força coletiva, repertório ofensivo e capacidade de responder durante os jogos.
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