Análise tática do Guffo: a França de hoje é o Brasil de ontem?
A França lembra o Brasil do passado porque transformou talento individual em mecanismo coletivo

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Dizer que a França é o Brasil do passado virou lugar-comum, mas isso não significa que esteja errado. É só olhar para o que Didier Deschamps construiu e sentir aquela sensação perturbadora: por mais avassaladora que seja, parece que a França está ganhando uma Copa com naturalidade. A qualidade do elenco beira o obsceno. Quando Olise não vai bem, Dembélé mostra por que foi eleito o melhor do mundo. E ainda há Barcola, Doué, Koné fazendo uma Copa de excelência. É a sensação de que o maior oponente da França seria o próprio time reserva, exatamente como sentíamos entre 1994 e 2002, quando o Brasil chegou a três finais e venceu duas.
A comparação, no entanto, precisa ir além da nostalgia. A França tem um elenco profundo, mas também lembra o Brasil do passado porque transformou talento individual em mecanismo coletivo. Taticamente, Deschamps opera com um 4-2-3-1 que vira 4-2-4 com a bola, mas a genialidade está na fluidez. Mbappé, nominalmente um 9, desce até a altura dos volantes para articular. Olise flutua como um 10 puro. Dembélé dá largura pela direita enquanto Digné espeta pela esquerda, e Doué corta para dentro para criar o desequilíbrio. É uma estrutura que se adapta ao adversário sem perder identidade. O Brasil de Parreira, Zagallo e Felipão também era assim, controlava o jogo com posse e movimentação, não apenas com lampejos.
França quebra blocos baixos com facilidade
O ponto em que a França mais se aproxima do Brasil histórico é na capacidade de quebrar blocos baixos. Espanha, Portugal e Inglaterra sofreram amargamente contra defesas compactadas nesta Copa. A França não. Ela gira a bola com paciência, sem ser "para-brisa". Inverte o corredor, provoca o deslocamento do bloco adversário e, no momento certo, aciona o um contra um ou a infiltração. A jogada do primeiro gol contra o Marrocos é emblemática: quatro ações de pressão para recuperar a bola, Doué achando Mbappé no espaço, e a finalização com apenas 5% de chance de entrar. Gênio, sim. Mas um gênio alimentado por um sistema que cria a condição.
Há, porém, uma diferença fundamental que a comparação esconde. O Brasil de 94 a 2002 tinha craques que faziam o trabalho sujo naturalmente. Dunga, Mauro Silva, César Sampaio, Gilberto Silva, Kléberson, representavam um futebol que misturava malandragem, física e técnica. A França construiu sua hegemonia de outra forma: com uma formação multidisciplinar que deveria servir de modelo para o mundo. Enquanto hoje as categorias de base brasileiras padronizam jovens para atender à demanda europeia, a França forma jogadores completos, com repertório técnico e tático que extrapolam as funções.
O que o Brasil seria para sempre
Isso se reflete no detalhe que mais me impressiona: Dembélé defende como um volante e finaliza como um craque. O cara foi eleito o melhor do mundo, mas é um dos que mais pressionam na saída adversária. Mbappé, que tem oito participações em gol nesta Copa (contra cinco de Dembélé), não faz o trabalho sujo, e isso, curiosamente, é o que mais nos lembra do Brasil. Romário, Ronaldo e Rivaldo também não marcavam, mas o time ao redor compensava. A diferença é que a França atual tem Dembélé fazendo os dois lados, algo que o Brasil raramente encontrou em seus gênios ofensivos.
E aqui chegamos ao ponto doloroso da comparação: a França de hoje é o que a gente achava que o Brasil de 20 anos atrás seria para sempre. O Brasil continua sendo o país que mais exporta jogadores para as principais ligas do mundo, mas formou muito poucos nomes de exceção recentemente.
A França pode se tornar a terceira seleção a alcançar três finais consecutivas de Copa do Mundo, ao lado do Brasil e da Alemanha. Se conseguir, confirmará o que os olhos já veem: é o melhor time do torneio, a potência hegemônica do futebol de seleções. O Brasil do passado era exatamente isso, não apenas talento, mas uma máquina de vencer que se recriava a cada ciclo. A França aprendeu essa lição e a aperfeiçoou. Nós, que a ensinamos, somos hoje o pálido esboço do que um dia fomos.


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