Análise tática do Guffo: um ponto bom, uma estreia preocupante do Brasil
O empate com o Marrocos foi um lucro matemático imenso
A estreia do Brasil na Copa do Mundo entregou exatamente o que o ciclo bagunçado desde a saída de Tite prometia: um time taticamente pobre e dependente de lampejos. O empate com o Marrocos foi um lucro matemático imenso para quem protagonizou os piores 45 minutos em um Mundial desde o 7 a 1. Vimos a exposição brutal de um Brasil que trabalhou pouco, que defendeu mal e que entrou em campo com peças totalmente fora de sintonia com o que o jogo pedia.
O mecanismo do desastre no primeiro tempo passou diretamente pelas escolhas iniciais de Ancelotti. Ibañez, improvisado na lateral, foi uma avenida sem pedágio. No meio, Casemiro fez uma das piores partidas de sua vida com a camisa da Seleção, sobrecarregando os meias que precisavam cobrir latifúndios. Na frente, Igor Thiago mais parecia um zagueiro, e Raphinha, distante da área, virou uma peça inofensiva. O Brasil tinha a bola, mas não tinha ideia do que fazer com ela, virando presa fácil na transição defensiva toda vez que a perdia (ver arte abaixo).

Os Leões do Atlas honraram o manto
E aqui é preciso dar o mérito a quem jogou futebol de verdade: o Marrocos. A seleção africana fez exatamente o que buscava com sua nova comissão técnica, impondo um estilo dominante e agressivo. Não ficaram apenas esperando; eles agrediram. Com Bouaddi tomando conta do meio-campo, os marroquinos engoliram o Brasil. O gol, construído na velocidade e inteligência de Brahim Díaz e Saibari, foi o retrato de um time que sabe aproximar talentos e acelerar no espaço vazio. Eles expuseram a nossa incapacidade de construir e reagir. E irão complicar a vida de grandes seleções na Copa, certamente.
O gol marroquino, aliás, escancarou um problema que Ancelotti vai precisar ter coragem para resolver: Alisson. O goleiro sempre se destacou pela envergadura e pelo posicionamento impecável, compensando a falta de explosão. Hoje, a perda de agilidade e potência cobra a conta. Ele falhou no lance porque perdeu o tempo de bola e pareceu não reconhecer suas atuais limitações. Lembra muito Júlio César na Copa de 2014. Somado às atuações decepcionantes de Gabriel Magalhães e Paquetá, o sistema defensivo brasileiro simplesmente ruiu.
Fabinho: o melhor do Brasil
Ancelotti percebeu o naufrágio e estancou a sangria no intervalo. Sacou Ibañez e Casemiro, ajustou o time para um 4-3-3 e colocou Fabinho. A entrada do volante arrumou a casa imediatamente. Ele resolveu o problema crônico da saída de bola, fez o time andar para frente com passes limpos e devolveu o controle territorial que o Brasil precisava para respirar e parar de correr para trás. Mesmo que para isso precisou dar umas botinadas e jantar alguns marroquinos. Mas time que quer ser campeão, precisa também de alguém que saiba bater.
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O gol de Vini Júnior em jogada de Bruno Guimarães, mostra que há talento neste time. Mas depender exclusivamente de lampejos de genialidade não ganha Copa do Mundo. O time da segunda rodada terá que ser outro. É o momento perfeito para garantir Fabinho como titular, inserir Danilo Santos no meio para dar sustentação, dar pista para Luiz Henrique e, principalmente, soltar Endrick no ataque. E claro: que time vai encontrar Neymar quando este entrar em campo?
Historicamente, o Brasil sempre sofreu na estreia. Foi assim contra a URSS em 82, com a Espanha em 86, com a Turquia em 2002 ou com a Escócia em 98. O ponto conquistado dá a Ancelotti o tempo que ele precisa para arrumar a formação e acomodar melhor suas peças. O Brasil tem talento para decidir qualquer partida, mas se não transformar esse amontoado de craques em um time de verdade - e rápido! - será uma Copa mais rápida do que gostaríamos para a Seleção.
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