Colunistas e jornalistas do Lance! opinam sobre Copa do Mundo com 64 seleções
Foram analisados os impactos esportivos, políticos e comerciais da possível ampliação do Mundial

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A Fifa deverá discutir, após a Copa do Mundo de 2026, a possibilidade de ampliar o torneio para 64 seleções, conforme confirmou o presidente Gianni Infantino. Segundo o dirigente, uma expansão aumentaria a representatividade do futebol mundial e daria mais oportunidades para países de todos os continentes se desenvolverem e disputarem a principal competição do planeta.
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O projeto, liderado pela Conmebol, prevê um novo formato com 16 grupos de quatro equipes e 96 jogos na fase de grupos, além de integrar a proposta já para a edição da Copa do Mundo de 2030. Apesar do apoio sul-americano, a ideia enfrenta forte resistência da Uefa, da AFC e da Concacaf, que apontam dificuldades relacionadas ao calendário e à logística do torneio.
➡️Fifa projeta debate sobre Copa do Mundo com 64 seleções
Para abordar o assunto, colunistas e jornalistas do Lance! deram suas opiniões sobre o tema. Confira abaixo as ponderações de Márcio Dolzan, Vicente Seda, Lúcios de Castro, Eduardo Tironi e Gustavo Fogaça.
Fala, Márcio Dolzan 🗣️
Ampliar mais uma vez a Copa do Mundo agrada interesses políticos, amplia ainda mais a arrecadação da Fifa e, do ponto de vista esportivo, abre mesmo espaço para novas seleções. Mas há um problema de fundo que não se discute como se deveria: mais países disputando o torneio demanda mais hotéis e CTs para as equipes, mais estádios para a disputa dos jogos e maior estrutura hoteleira e de transporte para os torcedores. Quantos países no mundo podem gastar com isso para um evento de cinco ou seis semanas? Corre-se o risco de, cada vez mais, a Copa do Mundo precisar ser realizada nos mesmos países de sempre.
Fala, Vicente Seda 🗣️
A Fifa tem por obrigação analisar as propostas trazidas por membros do Conselho Executivo, e a Copa com 64 seleções foi trazida pela Conmebol. É preciso entender que não é mais a Conmebol de Julio Grondona e Ricardo Teixeira, que tinha, por motivos já mais do que sabidos, um poder de influência ímpar nos corredores da entidade internacional. Hoje, a Confederação Sul-Americana é uma entidade enfraquecida nos bastidores, por mais que o Brasileirão e a Libertadores venham ganhando apelo. E, dessa forma, a proposta de pronto já encontrou uma barreira com imediata rejeição de Uefa, Concacaf e AFC. Mesmo dentro da Conmebol, a proposta não é unanimidade. Infantino já descartou a ideia, conforme o Lance! publicou no dia 22 de maio, e é muito difícil que esse cenário mude. A nova fala dele é mais uma resposta educada do que, de fato, uma vontade de levar o caso adiante.

Uma questão central é o ganho político que Infantino teria com essa medida. Com a rejeição imediata de três grandes confederações, a situação seria, de certa forma, inversa à que o levou a aprovar as 48 equipes em 2026. Em 2017, quando a decisão foi tomada, o suíço, ex-braço direito de Platini na Uefa, tinha menos de um ano no poder e ainda tentava convencer o mundo, até com medidas paliativas, de que se tratava de uma nova Fifa, mais inclusiva, mais focada em abrir o futebol para o mundo do que em lucrar. E essa necessidade de ganho de imagem se fazia igualmente importante internamente. Depois do 'Fifa Gate', a questão era retomar a aparência de correção e novos tempos. Tomou decisões como nomear uma mulher negra com currículo da ONU — Fatma Samoura — como a primeira secretária-geral da entidade, fez o fechadíssimo e poderoso Comitê Executivo se abrir para mais membros sob uma nova alcunha de Conselho da Fifa, e colocou esse pessoal em Zurique para andar de van em vez de limousine.
Agora, porém, Infantino está consolidado no cargo, tem total apoio de um sistema eleitoral feito sob medida para perpetuação no poder e não tem nenhuma intenção de colocar isso em xeque. Especialmente porque já conta com apoio aberto da própria Conmebol, além de AFC e CAF, para sua reeleição em 2027 — as três somam mais da metade dos votos do colégio eleitoral. Por outro lado, a Fifa anda, de certa forma, pisando em ovos com a Uefa, que não adotou, por exemplo, o protocolo Vini Jr. e criticou abertamente a entidade no caso Balogun. Com recordes de público e receitas nos EUA, o momento é de compor, não de bater de frente, sobretudo com a confederação que reúne as competições mais prestigiadas e lucrativas do planeta — talvez a única que tenha força para tumultuar sua reeleição. Portanto, a menos que se chegue à conclusão de que 64 seleções podem trazer muito mais dinheiro, representar um ganho de imagem e, sobretudo, um significativo ganho político, a proposta não irá decolar.
Lúcio de Castro 🗣️
As coisas dessa Fifa são muito óbvias. Cheguei a falar antes da Copa no nosso quadro "Lúcio de Papo", aqui nesse Lance!, que a questão já nem era debater sobre um mundial com 48 seleções. E sim, sobre 64. Porque já eram evidentes as intenções de Gianni Infantino ao lançar a Copa com 48, que queria aumentar e ir para 64. Ninguém precisa ser teimoso e abraçar convicções que não se confirmam: sim, a Copa com 48 foi legal, eventuais distorções acabaram como exceções. O formato possibilitou que um país como Cabo Verde encantasse todo mundo. Ok. Mas a questão não era essa. Era a Fifa usar isso como argumento para escalar, era um passo. Como foi e vai ser.
Infantino não aumenta o número de seleções porque está encantado com o Vozinha. E sim, porque tem imensos interesses comerciais e eleitorais. De certa forma, e falei isso nesse dia do nosso quadro, Infantino repete Havelange. O brasileiro no comando da Fifa teve seu golpe de mestre ao ter a sacada de aumentar o colégio eleitoral, botando um monte de país e assim ganhando votos para se eternizar no poder. Como não pode mais repetir tal ato porque já foi feito, agora Infantino refaz isso, conquistando o apoio de novos países, não mais incluindo os mesmos no colégio eleitoral, mas agora na própria Copa. E o argumento é dizer que eram contra 48 e estavam errados. E assim vai cometer o pecado de lesar o futebol de uma Copa com 64 seleções. Nunca foi só sobre futebol, embora alguns queiram falar que é isso.

Eduardo Tironi 🗣️
A Copa com 48 seleções trouxe coisas interessantes e ruins. De interessante, a possibilidade de ter histórias como a de Cabo Verde e RD do Congo, seus personagens, sua cultura. Por outro lado, trouxe desequilíbrio na formatação dos confrontos seguintes, com seleções que terminaram em primeiro no seu grupo tendo vantagem de pegar algum terceiro colocado, enquanto outras, que também foram primeiras colocadas, pegaram times mais fortes na sequência. O Brasil, neste aspecto, foi um dos times "prejudicados".
Com 64 seleções, este problema estará resolvido, porque não haverá necessidade de classificar mais terceiros colocados. Eu acho vantajoso, já que a ideia é democratizar o acesso à Copa do Mundo.
Gustavo Fogaça🗣️
Eu sempre entendi as eliminatórias como parte da Copa do Mundo. Jogar uma partida de eliminatórias é jogar a Copa do Mundo. Claro que a parte final, que é disputada no período de um mês e termina com uma decisão e um troféu, tem todo um charme e um apelo comercial incomparável.
A fase final da Copa é o maior evento esportivo do mundo e, sabendo disso, a Fifa entende que aumentar o número de países classificados gera mais jogos, mais tempo de exposição das marcas nas telas, mais conteúdo para ser distribuído nas redes e, por consequência, mais dinheiro em caixa. Não há espaço para o debate sobre "qualidade do jogo", isso não interessa mais à Fifa. Afinal, se uma seleção está apta para jogar uma eliminatória, ela pode também estar na fase final da Copa. Não é tudo o mesmo torneio?
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