Análise Tática do Guffo: a Seleção Brasileira preocupa
O amistoso contra o Panamá deixou uma pulga atrás da orelha que o placar final não consegue esconder.

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O amistoso da Seleção Brasileira contra o Panamá deixou uma pulga atrás da orelha que o placar final não consegue esconder. Carlo Ancelotti é um mestre em gerir talentos e adaptar esquemas, mas o que vimos, especialmente no primeiro tempo, foi um time taticamente torto sem a bola. A prioridade do italiano é clara: organizar a equipe defensivamente num 4-4-2 clássico e compacto. O problema não é o desenho no quadro negro, é quem executa em campo e o preço altíssimo que se paga para manter as estrelas na zona de conforto.
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Tudo bem que foi um amistoso, contra uma seleção vulnerável e sem recursos. Não dá pra fugir do contexto. Mas podemos ir direto ao mecanismo: para deixar Vini Jr. solto, com a mesma liberdade e frescor físico que tem no Real Madrid, Ancelotti inverteu a lógica da recomposição. Vini não persegue o lateral adversário até a bandeirinha de escanteio; ele marca por dentro, fechando a linha de passe do zagueiro. É uma sacada inteligente para tê-lo engatilhado no contra-ataque, mas a conta da marcação chega do outro lado. E quem paga esse preço?
Faltou preenchimento no meio da Seleção
No primeiro tempo, contra a linha de cinco do Panamá, o Brasil sofreu com essa falta de encaixe e com a ausência de uma referência fixa. Sem um "9" para empurrar a última linha para trás, os zagueiros adversários saíam com facilidade para caçar Raphinha e Cunha. O time tinha a bola, rodava de um lado para o outro, mas produzia um volume estéril. Faltava agressividade, faltava ruptura. Faltava alguém para agredir o espaço nas costas da defesa e quebrar o conforto do bloco baixo panamenho.
A virada de chave no segundo tempo não foi mágica, foi leitura de jogo e troca de peças. Ancelotti mexeu na dinâmica do meio-campo e a Seleção virou outra. A entrada de Fabinho, Danilo e Lucas Paquetá mudou a rotação da equipe. Diferentemente do Casemiro, que é um leão nos duelos e na bola longa, Fabinho faz o time andar para frente com passes verticais curtos, achando espaços por dentro. E com Paquetá e Danilo flutuando, invertendo posições e pisando na área, o Brasil ganhou a imprevisibilidade que faltava para desmontar a retranca.
Mas a grande diferença tática foi a entrada de jogadores com características de ataque ao espaço. Igor Thiago entrou para ser o pivô, o cara que segura a bola esticada e dá respiro ao time. E Endrick... bom, o Endrick é a agressividade em forma de jogador. Enquanto Raphinha pedia a bola no pé no primeiro tempo, Endrick já estava com o corpo virado, atacando o espaço antes mesmo do passe do volante sair. Essa verticalidade, essa fome de romper a linha, mudou completamente o patamar ofensivo do time.
A questão é: e sem a bola?
O ponto que me preocupa, no entanto, volta para o momento sem a bola. O Brasil no segundo tempo marcou alto, pressionou a saída e roubou bolas que geraram gols, como no lance que originou o pênalti no Igor Thiago ou o gol do Rayan. Lindo de ver. Mas essa pressão agressiva exige uma compactação perfeita e gatilhos muito bem coordenados. Se o gatilho de pressão falha, ou se um jogador chega um segundo atrasado na cobertura, o time inteiro fica exposto. Contra o Panamá, a qualidade técnica compensa o desajuste. Contra uma França ou Argentina, um erro de encaixe na pressão alta é letal.
Ancelotti admitiu na coletiva que o segundo tempo lhe deu "dúvidas positivas". E que bom que deu. Porque o modelo inicial, com Vini e Raphinha muito próximos e sacrificando um terceiro homem de frente para fazer o corredor defensivo, não se sustentou com a solidez necessária. O cobertor é curto. Se você protege o Vini para ele ser o definidor, alguém vai ter que correr dobrado. E se esse alguém for um atacante fora de posição, o time perde poder de fogo e ganha um buraco na transição defensiva. Ou seja, não tem como Vini, Raphinha e Neymar jogarem juntos. O próprio Ancelotti meio que deixou isso claro na coletiva.
A conclusão que fica é que a Seleção Brasileira preocupa e de alerta máximo. O Brasil tem um potencial ofensivo absurdo e uma fluidez que encanta quando as peças certas estão em campo, mas a estrutura defensiva ainda é um castelo de cartas. Ancelotti precisa decidir rápido se vai adaptar o sistema aos jogadores ou os jogadores ao sistema. A Copa do Mundo não perdoa time que ataca com dez e defende com sete. O talento resolve jogos isolados, mas é a solidez sem a bola, a capacidade de sofrer sem desmoronar, que levanta taças no século 21. E, por enquanto, essa solidez na Seleção Brasileira é apenas uma promessa.

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