De Tsubasa a Blue Lock: como o Brasil e animes ajudaram a construir o futebol japonês

Ex-jogador do São Paulo inspirou anime que formou uma geração de jogadores no Japão

PorTiago Teixeira MendesRio de Janeiro (RJ)
28/06/2026 20:00

Supervisionado porNathalia Gomes,
Zico aparecendo no anime Blue Lock
Zico aparecendo no anime Blue Lock (Foto: Reprodução)

Brasil e Japão se enfrentam nesta segunda-feira (29), pelo mata-mata da Copa do Mundo, em um duelo que vai além das quatro linhas. O confronto coloca frente a frente o país do futebol e uma seleção cuja ascensão mundial teve um ingrediente pouco comum: os animes.

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Nas últimas quatro décadas, o Japão transformou o esporte em uma paixão nacional graças a um projeto que uniu investimentos, profissionalização e um fenômeno da cultura pop capaz de inspirar milhões de crianças a sonharem com a bola nos pés.

De Captain Tsubasa a Blue Lock, diferentes gerações cresceram acompanhando histórias que ajudaram a popularizar o futebol no país, influenciaram jogadores profissionais e até provocaram debates sobre os métodos de formação adotados pelas categorias de base.

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O resultado desse movimento extrapolou a ficção. Hoje, o Japão é presença constante em Copas do Mundo, exporta talentos para as principais ligas da Europa e chega ao mata-mata de 2026 consolidado entre as seleções mais competitivas da Ásia.

O Lance! relembra como os animes ajudaram a impulsionar a paixão pelo futebol no Japão e a ligação histórica construída entre a seleção japonesa e o Brasil.

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Como os animes mudaram o futebol japonês

O encontro em Houston também reúne dois protagonistas de uma história iniciada muito antes desta Copa do Mundo. Ainda na década de 1980, quando o futebol japonês sequer havia se profissionalizado, o Brasil ocupava um lugar especial na principal obra esportiva do país.

Em "Captain Tsubasa", também conhecido como "Super Campeões", vestir a camisa de um clube brasileiro e enfrentar a seleção pentacampeã representava o auge da carreira do protagonista. Décadas depois, parte daquela ficção parece ter ganhado contornos reais.

O Japão chega ao mata-mata do Mundial apoiado em uma geração consolidada na Europa e fruto de um processo que uniu planejamento esportivo, fortalecimento das categorias de base e uma mudança cultural iniciada fora dos gramados.

Mas, antes de inspirar uma geração de jogadores e se tornar um símbolo da ascensão do futebol japonês, "Captain Tsubasa" também nasceu de uma história real. O mangá criado por Yoichi Takahashi foi inspirado por um acontecimento que mudou a forma como o Japão enxergava o futebol e ajudou a dar início a uma revolução que décadas depois se refletiria dentro de campo.

A história verdadeira que inspirou Captain Tsubasa

Muito antes de Oliver Tsubasa sonhar em jogar futebol no Brasil, outro japonês atravessou o mundo para perseguir exatamente esse objetivo. A história começa em 1974, quando Pelé visitou escolas de Tóquio a convite do governo japonês, logo após sua despedida do Santos.

O país sequer tinha liga profissional, e o futebol disputava espaço com sumô, beisebol e badminton. Durante aquela visita, o Rei reparou em um garoto de dez anos que chamava atenção pela habilidade com a bola. O jovem era Musashi Mizushima, que havia começado a jogar futebol com apenas dois anos de idade, treinado de forma rigorosa pelo pai, e já integrava o time da escola em Shizuoka aos cinco anos. Pelé indicou aos pais que tentassem a sorte no Brasil.

Em 1975, Mizushima deixou o Japão ainda adolescente. Fez testes no Santos, mas o Peixe não tinha categoria de base para atletas tão jovens à época. Seguiu tentando até ser aprovado no São Paulo. Foram praticamente dez anos nas categorias de base do Tricolor, passando pelo primeiro time sub-11 da história do clube até o sub-20. Destro, chegou do Japão como ponta esquerda, recuou para o meio e terminou a carreira na lateral direita.

Musachi Mizushima quando defendia o São Paulo
Musachi Mizushima, pelo São Paulo (Foto: Reprodução/São Paulo)

Mizushima fez apenas um jogo oficial pelo São Paulo, contra o Bragantino em 21 de abril de 1985, quando entrou no segundo tempo – tornando-se o primeiro asiático a atuar oficialmente no futebol brasileiro. No ano seguinte, foi emprestado ao São Bento.

Ainda teve passagens por Portuguesa e Santos antes de retornar ao Japão, onde participou da criação da J.League e ajudou no desenvolvimento do futebol japonês. Durante a passagem pelo Brasil, construiu amizade com Careca, um dos maiores atacantes brasileiros da década de 1980.

Foi justamente essa trajetória que inspirou o mangaká (termo usado para roteirista ou artista que cria mangás) Yoichi Takahashi a lançar, em 1981, Captain Tsubasa. Publicada na revista "Weekly Shōnen Jump", a obra acompanhava a história de um garoto apaixonado por futebol e determinado a colocar o Japão entre as maiores potências do esporte. O Brasil ocupava papel central na narrativa: ao longo da carreira, Tsubasa atua pelo Brancos FC, equipe fictícia com uniforme praticamente idêntico ao do São Paulo.

Mas a ligação da obra com a América do Sul foi além do Brasil. Em 1979, o Japão sediou a Copa do Mundo sub-20, como uma tentativa do governo de popularizar o esporte no país. A Argentina de Diego Maradona e Ramón Díaz passou por cima da competição: seis jogos, seis vitórias, apenas dois gols sofridos. O "Pibe de Oro" foi o melhor jogador do torneio e virou fenômeno no Japão. Takahashi assistiu a tudo pela televisão e ficou impressionado.

– Há muito de Maradona na minha obra. Não pude estar no estádio, mas vi todo o torneio na televisão. Conhecia Maradona, tinha uma ideia de como ele era incrível, mas seu rendimento me impactou. O Maradona que vi na televisão tinha uma aura avassaladora – explicou o autor.

A influência de Maradona é visível na obra. O cabelo e a fisionomia de Oliver Tsubasa foram inspirados no craque argentino. Os longos dribles em campo praticamente infinito – era comum ver o protagonista conduzir a bola por muitos segundos – foram inspirados no gol que Maradona marcou contra a Inglaterra na Copa de 1986, driblando praticamente o time inteiro.

– O gol em que Maradona driblou toda a defesa inglesa e outras jogadas tiveram grande influência na maneira de Oliver Tsubasa jogar. Particularmente, criei o personagem Juan Diaz diretamente inspirado em Maradona, incluindo seu estilo de jogo e sua personalidade – finalizou.

Além disso, o personagem principal do anime tem como mentor um ex-jogador brasileiro chamado Roberto, inspirado em jogadores como Sócrates e Tostão. Outro personagem importante da obra é o brasileiro Rivaul, inspirado em Rivaldo.

A própria Associação Japonesa de Futebol (JFA) apoiou o projeto desde o início, enxergando na obra uma oportunidade de aproximar crianças e adolescentes da modalidade. Quando o anime estreou na televisão, em 1983, o efeito foi imediato.

Nos anos seguintes, o número de jogadores registrados no futebol escolar japonês saltou de cerca de 110 mil para aproximadamente 260 mil. Em um país onde o beisebol dominava a preferência popular, o futebol passou a ocupar espaço cada vez maior entre as novas gerações.

Super Campeões ajudou a formar uma geração

O impacto de Captain Tsubasa foi além do aumento no número de praticantes. A obra ajudou a construir uma identidade para o futebol japonês, baseada em fundamentos técnicos, inteligência tática e valorização do jogo coletivo. Esses princípios passaram a influenciar treinadores, categorias de base e o próprio desenvolvimento da modalidade no país.

O momento também coincidiu com uma transformação estrutural. Em 1993, o Japão inaugurou oficialmente a J.League, primeira liga profissional de sua história. Yoichi Takahashi acompanhou esse movimento de perto: passou a ilustrar seus personagens com os uniformes dos novos clubes da liga, fortalecendo a identificação entre o mangá e o campeonato recém-criado. A estratégia ajudou a aproximar ainda mais os torcedores das equipes locais em um momento decisivo para a consolidação da competição.

O anime Super Campeões (Foto: Reprodução)
O anime Super Campeões (Foto: Reprodução)

Os efeitos apareceram poucos anos depois. Na Copa do Mundo de 2002, disputada em Japão e Coreia do Sul, 16 dos 23 jogadores convocados pela seleção afirmaram que começaram a gostar de futebol após assistir a Captain Tsubasa. Entre eles estava Hidetoshi Nakata, considerado por muitos o maior jogador da história do país. Em entrevista à "CNN", em 2005, o ex-meia contou que escolheu o futebol em vez do beisebol ainda na infância por causa do mangá.

– Quando comecei a jogar futebol, o beisebol era mais popular, mas havia um mangá sobre futebol muito famoso na época. Li e fui inspirado a jogar – disse Nakata, que posteriormente conquistou o Campeonato Italiano pela Roma e atuou na Premier League.

A influência da obra ultrapassou as fronteiras do Japão. Fernando Torres contou ao "Daily Mail" que começou a jogar futebol por influência da série.

– Lembro que, quando era criança, não conseguíamos pegar bem o sinal da TV, mas todo mundo na escola falava sobre esse desenho de futebol do Japão. Comecei a jogar por causa disso – disse o atacante espanhol.

No Brasil, Super Campeões estreou pela "Rede Manchete" nos anos 1990 e passou depois pelo "Cartoon Network" e pela "RedeTV!". A adaptação brasileira chegou a apresentar Tsubasa como jogador profissional do São Paulo, reforçando a ligação da obra com o futebol brasileiro.

Já a versão Captain Tsubasa J foi interrompida após a não classificação do Japão para a Copa de 1994 e terminou sem adaptação completa da história. O anime foi relançado anos antes da Copa do Mundo de 2002 para ajudar a promover o evento no país.

A última cena de Super Campeões é justamente um jogo entre Brasil e Japão na estreia da Copa do Mundo de 2002 – que não é encerrado e não tem o resultado mostrado. Nos mangá, no entanto, a partida é finalizada com uma vitória de virada do Japão. O encontro desta segunda-feira, em Houston, fez internautas nas redes sociais lembrarem do icônico episódio.

O sucesso da série produziu até um efeito inesperado. Como Tsubasa atuava como meia, milhares de jovens japoneses passaram a querer jogar na mesma posição. Anos depois, a própria federação reconheceu que o país enfrentava dificuldades para formar atacantes de alto nível – característica que voltaria ao centro das discussões décadas mais tarde.

O papel de Zico na cultura futebolística do Japão

Embora os animes tenham despertado o interesse de milhões de crianças pelo futebol, a evolução do esporte no Japão também passou por uma estratégia adotada dentro de campo. No início da década de 1990, durante a criação da J.League, a JFA investiu na contratação de jogadores estrangeiros para elevar o nível técnico da competição e acelerar o desenvolvimento do esporte no país. Entre eles, nenhum exerceu influência maior do que Zico.

Ídolo do Flamengo e da Seleção Brasileira, o ex-meia chegou ao Kashima Antlers em 1991 e rapidamente se transformou em referência para o futebol japonês. Permaneceu no clube até 1994 e ajudou a consolidar a imagem da nova liga junto ao público.

A relação construída naquele período fez com que Zico retornasse anos depois como treinador da seleção japonesa. Entre 2002 e 2006, conquistou a Copa da Ásia de 2004 e classificou o Japão para o Mundial de 2006, campanha em que a equipe sofreu apenas uma derrota nas eliminatórias.

A influência dos animes sobre o futebol japonês, porém, não terminou com Captain Tsubasa. Décadas depois, Blue Lock conquistou uma nova geração de fãs e jogadores, mantendo viva a conexão entre o esporte e a cultura pop. A obra também prestou uma homenagem a um dos brasileiros mais importantes para a história do futebol japonês: Zico.

Em Blue Lock, o personagem Meguru Bachira tem Zico como seu maior ídolo. Ao descobrir a homenagem, o brasileiro publicou nas redes sociais uma mensagem comemorando a referência.

— Fiquei muito orgulhoso de ter feito parte e de assistir à evolução do futebol no Japão — escreveu Zico em suas redes sociais.

Zico pela Seleção Brasileira e Zico no anime Blue Lock
Zico pela Seleção Brasileira e Zico no anime Blue Lock (Foto: Reprodução)

Blue Lock como um contraponto

Mais do que homenagear personagens históricos do futebol japonês, Blue Lock representa uma mudança na forma como o esporte passou a ser retratado nos animes. Enquanto Captain Tsubasa inspirava crianças a sonhar com a bola nos pés, a nova obra parte de uma pergunta diferente: o que falta para o Japão formar jogadores capazes de decidir uma Copa do Mundo?

Publicado desde agosto de 2018, logo após a eliminação japonesa para a Bélgica nas oitavas da Copa da Rússia, o mangá parte da ideia de que o país precisava desenvolver atacantes capazes de decidir partidas individualmente.

Na história, a federação japonesa cria um projeto para reunir 300 jovens centroavantes em um centro de treinamento comandado pelo excêntrico Jinpachi Ego, com o objetivo de formar o atacante mais decisivo e "egoísta" do mundo.

A proposta confronta diretamente um dos traços mais associados à cultura japonesa, resumido no ditado de que "o prego que se destaca é martelado". Enquanto a tradição valoriza o coletivo, Blue Lock defende que grandes craques precisam confiar primeiro em si mesmos.

Logo no início da história, o protagonista Isagi Yoichi perde uma partida decisiva por optar pelo passe em vez da finalização. A partir dali, a obra questiona justamente essa mentalidade. Na narrativa, jogadores como Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo aparecem como exemplos do tipo de protagonismo individual que o Japão ainda buscava produzir.

Yoichi Isagi, protagonista do anime de futebol Blue Lock
Yoichi Isagi, protagonista do anime de futebol Blue Lock (Foto: Reprodução)

O sucesso foi imediato. Até junho de 2026, Blue Lock já havia ultrapassado 60 milhões de cópias em circulação em todo o mundo, tornando-se um dos mangás esportivos mais vendidos da história. A repercussão também chegou à própria JFA.

Com autorização do autor Muneyuki Kaneshiro, a entidade lançou o programa Future Camp, iniciativa voltada para identificar jovens talentos de ascendência japonesa espalhados pelo mundo. A primeira edição está prevista para agosto de 2026, na Califórnia.

— A era em que jogadores japoneses se desenvolvem apenas dentro do Japão acabou — declarou o presidente da JFA, Tsuneyasu Miyamoto, ao apresentar o projeto.

A seleção japonesa que enfrenta o Brasil nesta segunda-feira representa essa combinação entre tradição e renovação. Boa parte do elenco atua nas principais ligas europeias: Ayase Ueda terminou a temporada 2025/26 como artilheiro da Eredivisie, com 25 gols pelo Feyenoord; Daizen Maeda marcou 14 vezes pelo Celtic; Ritsu Doan contribuiu com cinco gols pelo Eintracht Frankfurt no Campeonato Alemão; e Takefusa Kubo defendeu a Real Sociedad.

Na fase de grupos desta Copa, o Japão marcou um gol a cada 3,71 finalizações – terceiro melhor índice de eficiência ofensiva do torneio, atrás apenas de Noruega e Portugal.

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Brasil x Japão: onde assistir

Brasil e Japão se enfrentam nesta segunda-feira, às 14h (de Brasília), pelos 16 avos de final, no NRG Stadium, em Houston, nos Estados Unidos, com transmissão ao vivo SporTV, Globo, SBT, Amazon Prime, Nsports, CazéTV e getv. ➡️Clique para assistir à Copa do Mundo na Cazé TV com Disney+!

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