Análise: como Ancelotti encontrou o time ideal do Brasil na Copa?
Treinador fecha a fase de grupos com uma estrutura e modelo de jogo definidos

A evolução do Brasil na fase de grupos da Copa do Mundo passa menos pelos nomes e mais pela construção de um modelo. O técnico Carlo Ancelotti chegou ao torneio com uma ideia clara de jogo, precisou adaptá-la diante dos problemas que surgiram pelo caminho e encontrou, rodada após rodada, uma equipe capaz de traduzir seus conceitos em campo. O resultado é uma Seleção mais sólida, equilibrada e confiante, que chega ao mata-mata com uma formação definida e uma identidade que cresce a cada partida.
A fase de grupos da Copa do Mundo serviu para Carlo Ancelotti encontrar algo que todo treinador busca em um torneio curto: um time. Mais do que uma escalação titular, o italiano encontrou uma estrutura coletiva capaz de potencializar as características de seus principais jogadores e transformar a Seleção Brasileira em uma equipe competitiva dos dois lados do campo.
O plano inicial de Ancelotti
O plano inicial do treinador era claro. O Brasil teria amplitude pelos lados com um lateral avançando e ocupando espaços próximos ao extremo. Nas primeiras partidas, Wesley era peça fundamental para esse funcionamento. O lateral atuava aberto pelo lado direito, dando profundidade e permitindo que os atacantes se aproximassem das zonas centrais.
A lesão do jogador da Roma, porém, obrigou Ancelotti a fazer ajustes importantes. Danilo entrou na equipe. Diferentemente de Wesley, trata-se de um jogador mais defensivo e que, desde a Copa do Mundo de 2022, passou boa parte do tempo atuando como zagueiro em seus clubes - Juventus e, atualmente, no Flamengo.
Saída de Wesley mexe na estrutura da Seleção
A mudança de característica exigiu uma mudança de conceito. Se antes a amplitude estava concentrada pela direita, ela passou para o lado oposto. Douglas Santos ganhou liberdade para avançar, abrir o campo e se transformar em uma peça ofensiva constante. O ajuste não apenas manteve o equilíbrio da equipe, como ajudou a potencializar o setor ofensivo.
Com Douglas Santos ocupando a faixa lateral, Vini Jr passou a ter mais liberdade para atacar espaços interiores. O mesmo aconteceu com Rayan, substituto de Raphinha, lesionado, quando recebeu oportunidade na equipe na vitória por 3 a 0 sobre a Escócia. Ambos passaram a aparecer mais próximos da área e menos presos à linha lateral. O resultado aparece nos números. Vini Jr chegou ao fim da fase de grupos como principal goleador brasileiro no Mundial, com quatro gols.
Mas o sucesso da equipe não se explica apenas pelos movimentos dos jogadores de frente. O funcionamento coletivo encontrado por Ancelotti transformou o Brasil em uma equipe organizada. Muito diferente do que foi visto no primeiro tempo do empate por 1 a 1 com Marrocos, na estreia da Copa.
Sem a bola, a Seleção atua em um 4-4-2 compacto. Casemiro ocupa a faixa central do meio-campo. Lucas Paquetá fecha o lado esquerdo. Bruno Guimarães protege o corredor direito. Matheus Cunha recua para participar da recomposição e fechar espaços. O atacante se transformou em uma das peças mais importantes do sistema pela capacidade de pressionar, marcar e iniciar transições ofensivas.
Com a posse, o desenho muda completamente. O Brasil passa a atuar em um 3-2-5. Danilo fecha a linha defensiva ao lado de Marquinhos e Gabriel Magalhães. Douglas Santos avança para dar amplitude. Casemiro permanece como proteção à frente da defesa, enquanto Bruno Guimarães ganha liberdade para acelerar a construção.
O volante do Newcastle talvez seja o jogador que melhor simbolize a evolução coletiva da equipe. Além de ajudar na marcação, tornou-se peça essencial na criação. Líder de assistências da Copa até o momento, com três passes para gol, Bruno aparece entre linhas, chega à área e conecta os setores com qualidade. A consolidação dessa estrutura explica a avaliação positiva feita pelo próprio treinador ao final da fase de grupos.
— Agora estamos jogando como uma equipe; esse é o objetivo. Não estamos perfeitos, temos coisas a melhorar. Podemos ser um pouco mais rápidos quando temos o controle. Estou contente porque o time melhorou muito; agora estamos sólidos. No mata-mata, a solidez é muito importante.
A palavra utilizada por Ancelotti resume o momento da Seleção: solidez. O treinador não encontrou apenas cinco ou seis pilares. Encontrou um funcionamento coletivo que permite ao Brasil manter desempenho mesmo quando faz alterações.
E essa talvez seja outra grande vitória do italiano. O banco de reservas oferece alternativas capazes de mudar partidas sem reduzir o nível da equipe. Neymar, recuperado da lesão grau 2 na panturrilha, voltou a atuar contra a Escócia e aumenta as opções criativas. Igor Thiago chega credenciado pela excelente temporada no futebol inglês. Endrick continua sendo uma das principais joias do futebol brasileiro.
Por isso, Ancelotti evita falar em um time titular absoluto.
— A escalação inicial não sei, porque temos muitos recursos no campo. A equipe está jogando solidamente; temos um time sólido. Comparando com o primeiro jogo, temos menos erros, mais ritmo, mais efetividade na frente. Nos dois jogos posteriores ao Marrocos, deixamos boa impressão. O objetivo era chegar em primeiro, agora é pé no chão, seguir trabalhando e melhorar para o próximo jogo.
O Brasil termina a primeira fase não apenas classificado. Termina com algo ainda mais valioso: uma identidade definida. Entre ajustes táticos, mudanças forçadas e crescimento coletivo, Ancelotti encontrou a formação ideal para colocar em prática a ideia de futebol que imaginava desde o início da Copa. E chega ao mata-mata com a sensação de que, pela primeira vez no torneio, o treinador sabe exatamente qual é o seu time.

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