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Conheça a proposta que levou a Uefa a tentar tornar a Fifa ingovernável

O Lance! teve acesso à proposta enviada aos membros, que foi o estopim da crise que pode derrubar Infantino

PorVicente SedaRio de Janeiro (RJ)
04/08/2026 16:26
Proposta da Fifa para criação de empresa para comercializar direitos da Copa do Mundo com investidores privados
Proposta de criação de empresa foi estopim de crise política na Fifa (Reprodução)

Apesar do recuo de Gianni Infantino na proposta da Fifa Forward Enterprise, empresa que negociaria parte dos direitos da Copa do Mundo com investidores privados, a Uefa também deu um passo atrás em relação à participação de seus afiliados nas competições da entidade máxima do esporte, mas, por outro lado, atua em diversas frentes para tornar o ambiente do presidente suíço insustentável. Nos bastidores, a confederação europeia, com respaldo também da Concacaf e da AFC, vem trabalhando para tornar a Fifa ingovernável e impossibilitar a permanência de Infantino.

A ideia é que os representantes das confederações não participem das reuniões dos órgãos internos da Fifa, dificultando a validação de qualquer decisão, já que levar medidas adiante sem o quórum previsto em estatuto pode levar a infrações que daí em diante poderiam acarretar representações contra o dirigente no Comitê de Ética, e até eventualmente na Justiça se envolverem distribuição de recursos financeiros. O CAF continua, por ora, apoiando o suíço, enquanto a Conmebol se mantém neutra. Há ainda membros da federação asiática que também continuam ao lado de Infantino, mas a maior parte do bloco já roeu a corda, e o mesmo acontece na OFC.

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O Lance! teve acesso à proposta de venda de 20% de ações a um grupo de investidores, enviada às associações-membro, que foi o estopim de toda a crise. No documento, a Fifa se coloca como sub-monetizada em relação a outras ligas e diz que "agora é momento de acelerar o futuro do futebol". Na argumentação, a entidade afirma que o objetivo é "atrair o próximo bilhão de torcedores, aprofundar o engajamento, empoderar membros e alavancar investimento, atrair investidores de alto nível e acessar mercados de capital globais", ressaltando que "em qualquer cenário futuro a Fifa terá exclusivo controle e autoridade sobre a governança do futebol, competições, calendário de jogos, e todas as decisões regulatórias e esportivas".

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Proposta da Fifa para criação de empresa para comercializar direitos da Copa do Mundo com investidores privados
Proposta da Fifa mostra que a Copa tem o maior alcance global (Reprodução)

Há um gráfico mostrando as seguintes arrecadações anuais médias de ligas esportivas pelo mundo para argumentar que precisa melhorar a monetização do futebol internacional:

- Fifa: US$ 3.6 bilhões
- Champions League: US$ 5.9 bilhões
- NHL: US$ 7.9 bilhões
- Premier League: US$ 9.1 bilhões
- NBA: US$ 12.5 bilhões
- MLB: US$ 13.1 bilhões
- NFL: US$ 21.2 bilhões

Proposta da Fifa para criação de empresa para comercializar direitos da Copa do Mundo com investidores privados
Gráfico na proposta mostra arrecadação de diversas ligas esportivas (Reprodução)

Em seguida, a Fifa faz um comparativo de quanto a comercialização de parte dos direitos da Copa do Mundo para investidores privados iria "acelerar a conquista da missão de longo prazo". De acordo com os números do documento, a arrecadação que, entre 2023 e 2026, foi de US$ 1,7 bilhão, passaria para uma receita bruta de US$ 8,4 bilhões entre 2027 e 2030. A proposta também fala em alavancar o número de jogadores pelo mundo de 300 mil para 650 mil, a quantidade de projetos da Fifa de 1.600 para 3.500, quantidade de novos campos de futebol de 570 para 1.200, e aumento de 200 para 450 competições pelo planeta.

A Fifa anuncia então que estaria criando a FFE para "separar o negócio do futebol da governança do esporte". E cita que o modelo já é um grande sucesso em outros esportes por reforçar a integridade do futebol, alavancar o investimento em desenvolvimento do esporte pelos seus membros, e garantir a longo prazo um crescimento sustentável do futebol no mundo. O documento especifica que ficariam com a FFE as responsabilidades por receitas de transmissão, novos negócios, ingressos e hospitalidade, patrocínios e licenciamento.

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Proposta da Fifa para criação de empresa para comercializar direitos da Copa do Mundo com investidores privados
Proposta da Fifa faz projeções com criação de empresa (Reprodução)

Na página seguinte, a entidade expõe números do seu programa de desenvolvimento Fifa Forward Program comparando com o que aconteceria daqui em diante com o que chama de "Fast Forward", ou seja, o mesmo programa acelerado pela criação da nova empresa. As receitas para cada associação passariam dos US$ 8 milhões entre 2023 e 2026 para US$ 20 milhões neste ano corrente; outros US$ 20 milhões de 2027 a 2030; US$ 22 milhões de 2031 a 2034; e US$ 24 milhões de 2035 a 2039.

A proposta destaca ainda feitos da atual gestão, citando a reconstrução desde a eleição de 2015, com a queda de diversos membros da entidade, inclusive o então recém-reeleito Joseph Blatter, e dizendo que agora seria a "oportunidade de otimizar as operações comerciais". A Fifa lista os seguintes itens:

- Separar decisões comerciais de processos administrativos mais abrangentes para melhorar a velocidade e a flexibilidade de decisões.
- Priorizar parcerias de alto rendimento e focadas na experiência para criar significativo valor para o torcedor e entregar fortes retornos comerciais.
- Atrair profunda experiência da indústria para tomada de ótimas decisões para a realidade comercial.
- Acessar fontes de capital e financiamento de dívida de terceiros para ampliar os investimentos em conteúdo digital e licenciamento.

Proposta da Fifa para criação de empresa para comercializar direitos da Copa do Mundo com investidores privados
Proposta da Fifa mostra como seria a estrutura com a FFE (Reprodução)

No fim, o documento interno para os membros da Fifa traz os seguintes pontos de conclusão:

- Fifa vai expandir o fundo de desenvolvimento do futebol para mais de US$ 10 bilhões, o maior compromisso da história da Fifa.
- O fundo do programa Fifa Forward aumentará em US$ 20 milhões por associação-membro, totalizando mais de US$ 4 bilhões.
- Esse aumento será possível através da Fifa Forward Enterprise (FFE), que irá consolidar as operações de eventos e comerciais da Fifa.
- O novo, e opcional, Fifa Fast Forward Program, vai permitir que cada associação-membro acesse até US$ 20 milhões de fundo adicional, financiado através da venda de participação minoritária na FFE para grupo diversificado de investidores globais "blue-chip" (termo no mercado financeiro para classificar empresas e investidores da primeira prateleira) de longo prazo.

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Proposta da Fifa para criação de empresa para comercializar direitos da Copa do Mundo com investidores privados
Proposta da Fifa para criação de empresa para comercializar direitos da Copa do Mundo (Reprodução)

Em nenhum lugar da proposta, contudo, está a informação divulgada pelo "The Times" de que a aprovação do projeto multiplicaria o salário de Gianni Infantino, hoje em US$ 4.8 milhões anuais incluindo os bônus. Os vencimentos totais atingiriam US$ 30 milhões.

Nos bastidores em Zurique, na Suíça, o ambiente no momento é bastante conturbado. A ponto de o secretário-geral da Fifa, Mattias Grafstrom, ter enviado uma mensagem interna para tentar tranquilizar os funcionários. A declaração foi publicada pelo site "Inside World Football":

"A última semana foi, ao mesmo tempo, extraordinária e desafiadora para todos os membros da equipe da FIFA em nossos escritórios ao redor do mundo. É por isso que eu queria que vocês fossem os primeiros a ouvir isso diretamente de mim. Todos nós fomos lançados em meio a uma turbulência difícil de compreender e aceitar. Garanto a vocês que, como membros da administração, serão defendidos e protegidos do contexto político que vivenciamos atualmente. Não precisam se preocupar. Indivíduos, momentos de instabilidade e episódios lamentáveis ​​vêm e vão. A instituição, sua missão e sua responsabilidade para com o futebol mundial permanecem; por isso, devemos sempre manter nosso profissionalismo, senso de perspectiva e serenidade", diz o texto do número dois da entidade.

Trump e Infantino se cumprimetam ao lado do troféu da Copa do Mundo, que será erguido por Espanha ou Argentina
Trump e Infantino se cumprimetam ao lado do troféu da Copa do Mundo (Foto: Andrew Harnik/AFP)

A situação de Infantino vem se agravando, e o apoio já não é mais o mesmo. Nem do governo americano liderado por Donald Trump, com quem teve relação próxima durante toda a Copa do Mundo. Há relatos de tantativas de contatos do suíço com o presidente, mas sem sucesso. Durante o torneio, o político não hesitou em expor sua ligação para Infantino questionando a expulsão de Balogun. O contato foi seguido de uma ágil e monocrática decisão do Comitê Disciplinar da entidade revogando a decisão do árbitro de campo e permitindo que disputasse as oitavas de final com a Bélgica, o que por si só já gerou uma enxurrada de críticas mundo afora.

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Mas a relação com Trump também passa pela proposta da FFE. O "The Times" noticiou o envolvimento do irmão do genro do presidente americano, Joshua Kushner, que lideraria o processo de venda das ações através de seu fundo, Thrive Eternal. A informação, porém, não consta na proposta enviada às associações-membro e, após a divulgação, Infantino veio a público negar que havia uma definição a esse respeito. Mas o estrago já estava feito.

Proposta da Fifa para criação de empresa para comercializar direitos da Copa do Mundo com investidores privados
Proposta da Fifa para criação de empresa para comercializar direitos da Copa (Reprodução)

A repercussão atingiu até o círculo mais próximo de Infantino. O seu principal assessor, e representante da Fifa na força-tarefa da Casa Branca para a Copa do Mundo, Carlos Cordeiro, renunciou ao cargo. Mesmo sem abandonar a posição, o diretor de operações da Fifa, Kevin Lamour, veio a público criticar abertamente o presidente da entidade.

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Proposta da Fifa para criação de empresa para comercializar direitos da Copa do Mundo com investidores privados
Proposta da Fifa para criação da FFE (Reprodução)

A reportagem consultou pessoas com bom trânsito na política da entidade e a leitura é de que o desastre político para Infantino ocorreu por conta de dois motivos: a proposta ter chegado às associações-membro através da imprensa — as confederações inclusive emitiram comunicados oficiais reclamando da questão — e a vontade política da Uefa, que antece até a Copa do Mundo, de promover uma troca de comando na entidade. As polêmicas da Copa e o erro de Infantino na apresentação da proposta proporcionaram a munição necessária, e a Uefa então partiu para o ataque.

Em recente entrevista ao Lance!, o presidente da Fifa Master Alumni, o advogado Pedro Trengrouse, explicou que outras entidades esportivas tem modelos parecidos ao proposto por Infantino, incluindo a Uefa.

— Não li a íntegra da proposta, apenas as informações que foram divulgadas publicamente. Mas, pelo que foi apresentado, a ideia, em si, não me parece absurda. Muitas organizações esportivas já utilizam estruturas empresariais para explorar seus ativos comerciais. (...) A Uefa já adota um modelo semelhante por meio da UC3, uma joint venture com os clubes europeus para administrar a exploração comercial de suas competições. A grande diferença é que ainda não tem participação de investidor. Na Espanha, a La Liga firmou uma parceria bilionária com o CVC Capital Partners, um dos maiores fundos de investimento do mundo, para acelerar o desenvolvimento comercial da liga e dos clubes. Em outros esportes, a FIVB criou a Volleyball World, também em parceria com o CVC, para expandir os negócios do vôlei em escala global. Já a Fórmula 1 tem seus direitos comerciais explorados por uma empresa controlada pela Liberty Media, um grupo americano de mídia e entretenimento.

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